Reflexões sobre o movimento espírita

Abordamos em artigos e entrevistas as dificuldades e possibilidadades do atual movimento espírita.

A Lógica Inquisitorial

 

Jesus disse-lhe: observai e estai atentos ao fermento dos fariseus e dos saduceus.

Mateus 16:6 [1]
     A primeira tentativa recente de desfiguração da obra de Allan Kardec não obteve êxito como relatamos em nosso artigo anterior (ver: “O movimento espírita repete a história do movimento cristão?”). Herculano Pires e Francisco Cândido Xavier uniram-se e, após imensa batalha, conseguiram mobilizar as pessoas sensatas do movimento espírita para impedirem a continuidade da obra de deturpação. Venceram, mas, sabemos, vencer uma batalha não é vencer a guerra.
      Jesus, ao alertar sobre o fermento dos fariseus e dos saduceus — os inquisidores de sua época que se julgavam com autoridade de corrigir e condenar o Cristo — [2], ensina-nos a ficarmos atentos: o fermento farisaico, sendo misturado à massa, torna-se invisível, cresce ocultamente sem que nada denuncie sua presença. Quando cresce, tudo envolve, tudo deforma, tudo estraga. Se entendermos a imagem ensinada pelo Cristo, fácil será compreender o processo que vivemos atualmente; tudo aconteceu de forma sutil.
 
A continuação do trabalho de adulteração
      Coincidentemente, a FEAL – Fundação Espírita André Luiz e a USE – União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, citadas no livro A Hora do Testemunho, como instituições vinculadas à adulteração de O Evangelho Segundo o Espiritismo — a primeira por ação, a segunda por inércia —, têm papéis decisivos na continuação da adulteração das obras do Codificador.
     Tudo foi retomado a partir de 2017 com as acusações contra a 5ª edição de A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo: foi dito que esta era adulterada.
Desta vez, coube à USE o primeiro passo: ela lança o livro O Legado de Allan Kardec, de Simoni Goidanich Privato, com grande alarde, no qual se questiona a validade do último livro publicado por Kardec. Tudo, aparentemente, feito em nome da “legalidade”, da “formalidade da lei” e do “respeito ao Espiritismo”. Sequer são mencionadas as graves consequências da acusação. Parecem não entender que quando um crime de tal gravidade é cometido — como eles denunciavam euforicamente —, todos os envolvidos são responsáveis, seja por ação ou omissão. Afinal, como se poderia adulterar a obra da Codificação do Espiritismo, publicada sob a responsabilidade espiritual, moral e legal de Amélie-Gabrielle Boudet, sem que ela estivesse envolvida? Poderíamos supor que a Viúva Kardec simplesmente não tinha nenhuma relação com uma adulteração que teria deturpado a doutrina?
     Em lógica incompreensível, na obra lançada pela USE, elogia-se os continuadores de Kardec — os mesmos que seriam culturalmente e espiritualmente responsáveis pela suposta adulteração! É um raciocínio curioso: anuncia-se um crime gravíssimo (com provas tão frágeis que não resistiram a poucos anos de pesquisa) ignorando que um crime de tal envergadura, por consequência inevitável, teria que comprometer todos os envolvidos.
     As pessoas sensatas da atualidade e as futuras gerações hão de perguntar como e por que Amélie Boudet (esposa e companheira intelectual de Kardec), Berth Fropo, Alexandre Delanne, Gabriel Delanne, Camille Flammarion e Léon Denis aceitaram assistir à deturpação da obra do seu Mestre — sem que nada fizessem. Essa pergunta não é apresentada; tudo é muito discreto, respeitoso, elogioso…
    Não nos espanta que posteriormente a FEAL lance um livro — autointitulado como continuação daquele O Legado de Allan Kardec da USE — que nega o valor real de moral espírita-cristã. Claro, as afirmações são sempre sutis, o livro propõe nos revelar a “verdadeira moral espírita” que, naturalmente, apenas os autores e a instituição conhecem!
      As instituições espíritas, socialmente poderosas, com vasta rede de comunicação, mais uma vez dão-se o direito de depreciar a obra de Kardec. Fizeram em 1974, sob o pretexto de aproximar O Evangelho Segundo o Espiritismo do povo; felizmente, foram combatidas e vencidas. Em 2017, agora sob o pretexto de suposta investigação científica, condenaram a última obra de Kardec e desmoralizaram todos os seus continuadores mais próximos. Isso deveria ser considerado seriamente.
       A união USE-FEAL — até onde sabemos, informal — lançou um modelo de pesquisa imprudente e desqualificado, mas com capacidade, já comprovada, de destruir toda a obra de Kardec, bem como, a honra do codificador e de seus mais respeitados continuadores; obviamente, sempre em nome do respeito e da verdade. Entristece-nos a ausência de intelectuais independentes que disponham de coragem para afirmar em alto e bom som: foi retomada a obra de destruição de Kardec, ela avança e é mais poderosa do que nunca.
    Infelizmente, prefere-se o silêncio dos rabinos no Templo, quando as trinta moedas de Judas tilintavam aos seus pés, conforme expressão de Herculano Pires. Silêncio interesseiro de fama e fortuna. Todos querem ser bem-avaliados pela opinião do mundo.
 “Vida que segue” é a expressão atual; mas como estaremos quando estivermos em um caminho sem a companhia do Consolador? A moral austera e amorosa do Cristo não nos fará falta? Ousadamente, agimos como se a Luz do mundo fosse dispensável. Chegamos ao ponto de agredir o próprio codificador e negar — mais uma vez — a moral cristã.
 
De como se chegou a acusar Kardec (Parte 1)
      Apesar de o livro O Legado de Allan Kardec apresentar erros históricos e metodológicos grosseiros, que foram fartamente esclarecidos pelos poucos pesquisadores criteriosos e independentes, não houve retratação. A postura desrespeitosa da USE em relação à mais elementar verdade histórica e à Codificação abriu o espaço para absurdos ataques contra a obra kardecista; essa responsabilidade cultural e espiritual terá de ser resgatada! Herculano Pires, no evento anteriormente citado, indicava a renúncia da diretoria das instituições que se mostraram inaptas em defender Kardec. Não sabemos se isso seria suficiente no caso atual. Precisaremos questionar a razão de ser destas instituições, que mais uma vez cometem grave erro sem mostrar nenhum sinal de arrependimento.
     Antes de apresentarmos as contundentes evidências históricas que deveriam ter feito recuar os acusadores (e por muitas vezes fizemos orações para que isso tivesse acontecido) precisaremos de pequena reflexão histórica para entendermos a lógica inquisitorial, pois, sem essa compreensão, nunca entenderemos o que estamos vendo: instituições espíritas que chegam ao extremo de condenar Allan Kardec.

O caso Joana d’Arc ou de como funciona a lógica inquisitorial

     Joana d´Arc, em 30 de maio de 1431, foi conduzida ao mercado da cidade francesa de Rouen para ser queimada como herética. Era o término de um dos processos que melhor documentou a sórdida ação das mentes inquisitoriais: presa em calabouço, acorrentada, agredida fisicamente e muito debilitada; a jovem de 19 anos, interrogada e acusada por pérfidos inquisidores (que usavam toda sua habilidade para fazer com que se contradissesse) teve sua sentença: a Morte.

A investigação

     Após rigorosa investigação, Nicolas Bailly (responsável por coletar os testemunhos relativos à conduta da Donzela de Domrémy) afirma que nada foi achado contra Joana; disse mesmo que ele a considerava tão inocente quanto a sua própria irmã. Por reconhecer a verdade, Bailly foi acusado de traidor pelo condutor geral da acusação, o bispo Pierre Cauchon — que se recusou, inclusive, pagar o valor acertado pela investigação.

As acusações contra Joana d´Arc

1) Veementemente suspeita de heresia
    Na falta de provas, iniciou-se os interrogatórios com a justificativa de Joana d´Arc ser “veementemente suspeita de heresia”. O julgamento foi realizado por meio de questões estúpidas e ridículas. Porém, ao que parece, ainda precisamos lidar com elas. Vamos revê-las, de forma sintética. Utilizaremos como fonte principal o livro de Léon Denis [3] — digno continuador de Kardec e que tinha Joana d’Arc como guia espiritual.
 
2) Complexas suposições, armadilhas (quase) intransponíveis
      Joana, por exemplo, foi perguntada se ela estava nas Graças de Deus. Uma armadilha formidável, pois se afirmasse que sim, estaria cometendo heresia, dado que apenas a Igreja teria o poder para afirmar isso; se dissesse que não, seria uma confissão da culpa, dado que estava sendo julgada por heresia.
      O que ela respondeu?
   “Se não estou, que Deus me ponha lá; e se estou, que Deus assim me guarde. Eu deveria ser a criatura mais triste do mundo se eu soubesse que não estava em Sua graça.” [4]
 
3) Detalhes insignificantes para não ver a verdade
     Sobre as vozes, a qualidade e a seriedade das questões não eram melhores, vejamos um trecho do interrogatório:
 — Sabes — perguntam-lhe — se santa Catarina e santa Margarida odeiam os ingleses?
— Elas amam o que Deus ama e abominam o que a Deus aborrece.
E o juiz fica desnorteado. Um outro interroga:
— Santa Margarida fala o inglês?
— Como poderia ela falar o inglês, se não é do partido dos ingleses?
— São Miguel estava nu?
— Pensais que Deus não tem com que vesti-lo?
— Tinha cabelos?
— Porque lhe haviam de ser cortados os cabelos? [5]
 
4) Honestidade suprema em relação ao legalismo formalista
      Os inquisidores, naturalmente, escandalizaram-se por ela ter cometido o pecado terrível de ter partido em missão sem a permissão paterna, afinal, a legalidade de suas ações precisava estar resguardada pela aprovação formal de seus pais.
      Perguntam os inquisidores.
 — Quando deixaste pai e mãe, não consideraste estar cometendo um pecado?
— Pois que Deus ordenava, era preciso fazer! Mesmo que eu tivesse cem pais e cem mães e que fosse filha de rei, ainda assim teria partido! [6]
     Observemos essa resposta: ela nos dará a chave de compreensão do ataque atual a Kardec.
 
5) Aparência é essencial, a essência descartável
      Outro aspecto central que provaria a heresia da jovem de Domrémy: ela usava roupas de soldado! Foi ignorado que não existiam roupas femininas para usar em batalha, tranquilamente ela disse que cumpria a orientação das vozes e se as usava era por saber que isso era agradável a Deus.
    Um “detalhe” revelador: posteriormente, uma testemunha esclareceu que ela tinha sofrido várias tentativas de estupro e tinha avisado a seus julgadores, inclusive, ao bispo Pierre Cauchon. [7]
Assim funciona a mente inquisitorial: os danos reais, as violências destruidoras e a honra verdadeira pouco valem. O que importa é a imposição de pontos de vista e interesses, sempre sob a mais elevada aparência de elevação e legalidade.
 
De como se chegou a acusar Kardec (Parte 2)
    Entendendo a lógica inquisitorial, estamos preparados para entender os ataques que agora atingem Kardec.
     Inicialmente acusou-se levianamente Pierre-Gaëtan Leymarie de ter adulterado A Gênese (Ver nosso artigo anterior: “Se os fatos importassem”), apesar do testemunho de três homens honrados, inclusive, do senhor Desliens, secretário de Kardec de 1866 a 1869, testemunha de seu óbito, médium atuante na Sociedade Parisiense de Estudo Espírita, que recebeu dezenas de mensagens publicadas na Revista Espírita, dentre as quais, comunicações assinadas por São Luís, Rossini, Quinemant, Dr. Demeure e do Dr. Vignal. [8]
    Afirmou o senhor Desliens, ante as falsas acusações de Henri Sausse, que Allan Kardec introduziu modificações nessa nova edição, e são elas, evidentemente, as que são objetos da polêmica instaurada sobre esse tema. [9]
     Por que o depoimento deste homem não vale? Por que os outros dois depoimentos, o do dono e o do funcionário da tipografia que imprimiu A Gênese ampliada, a pedido de Kardec, nada valem? Simples: querem os acusadores que A Gênese e os continuadores de Kardec sejam veementemente suspeitos.
 
 Primeira grande descoberta
     As investigações continuaram e foram realizadas extraordinárias descobertas. É o que vamos compartilhar.
     Foi descoberta uma edição de A Gênese de 1869, ampliada e publicada sob a responsabilidade moral, espiritual e legal de Amélie Gabrielle Boudet. [10]
Uma lógica “curiosa”: existe um documento que solicita ao governo ditatorial francês, à época de Kardec, uma autorização para impressão da nova edição de A Gênese em fevereiro de 1869 [11]. Temos três depoimentos de homens honrados afirmando que essa edição foi impressa após ter sido ampliada e revisada pelo legítimo autor (Kardec). Temos um exemplo original encontrado na biblioteca da Universidade de Neuchâtel, Suíça. O que podemos concluir destes fatos?
    Veja como os acusadores interpretam isso: a solicitação prévia de impressão de uma edição de A Gênese realizada em fevereiro de 1869 “refere-se à impressão da 4ª edição” — que, no entanto, é de 1868! É isso mesmo, “em 1869 foi pedido uma solicitação prévia para se imprimir em 1868” (Observação: as datas não estão erradas). Quer dizer, acreditar que se pediu no ano seguinte uma autorização prévia para imprimir uma obra já impressa é mais razoável do que acreditar em três testemunhos e no fato de que seria mais razoável que o pedido de impressão feito em fevereiro de 1869 fosse para a 5ª edição de A Gênese impressa em 1869! Esse é o argumento “científico” e “legal” para se condenar a última obra de Kardec e os seus continuadores. Isto implicaria em Amelie Boudet e os continuadores diretos de Kardec serem criminosos ou irresponsáveis.
 
Segunda grande descoberta
     Encontrou-se um manuscrito de Allan Kardec, com data de 25 de setembro de 1868, no qual ele pede que seja endereçado a um editor alemão a seguinte informação sobre A Gênese:
 “Esta obra está atualmente sendo reimpressa com importantes correções e adições. É desta nova edição que ele [Kardec] deseja que a tradução seja feita. Consequentemente, ele enviar-lhes-á as folhas à medida que elas sejam impressas; já há cerca de metade delas” [12]
Portanto: uma carta de Kardec, em setembro de 1868, afirmando que uma nova edição de A Gênese revisada e ampliada estava sendo elaborada e que já se tinha cerca da metade do seu conteúdo impressa, somando a tudo o que já apresentamos, não seria prova suficiente? — Claro que não! — poderão dizer — Quem sabe se não se poderia encontrar algum detalhe que possibilitasse questionar a dignidade dos continuadores de Kardec…?!
    Não nos espantemos: não perguntaram a Joana d’Arc se São Miguel estava de cabelo longo ou curto? Eis o nível em que nos encontramos!
 
 Terceira grande descoberta
     Nunca um continuador direto de Kardec afirmou que A Gênese teria sido adulterada; ninguém! — nem Madame Kardec, nem Berth Fropo, nem Alexandre Delanne, nem Gabriel Delanne, nem Camille Flammarion nem Léon Denis. É mentira afirmar que estes discípulos kardecistas denunciaram qualquer adulteração.
     Ao contrário, Gabriel Delanne, como redator chefe do jornal Le Spiritisme, escreve um artigo no qual cita vários trechos da 5ª edição revisada e no final ainda inclui uma nota:
Nota da Redação. – O texto acima foi tirado literalmente de A Gênese [5ª edição] de Allan Kardec, páginas 456 a 459. Publicamos estas linhas, escritas há mais de vinte anos, a fim de mostrar que Allan Kardec não estava atrasado em suas ideias e que suas obras não envelhecem. [13]

  Como afirmar que Delanne e os outros seguidores sérios de Kardec fizeram denúncias contra a suposta adulteração da referida obra? Por que os continuadores de Kardec devem ser desmoralizados por um crime que nunca existiu e que, talvez por isso, eles nunca viram?

Quarta grande descoberta
     Alega-se que A Gênese, 5ª edição, não é legitima por não ter os registros formais requeridos; como a missão Joana d’Arc, iniciada sem a autorização formal dos seus pais.
    A ausência de alguma tecnicalidade seria suficiente — mesmo com todas as provas citadas — para desqualificar a verdade histórica e o conteúdo espiritual que este livro contém?
    Se adotarmos a postura formalista inquisitorial precisaremos fazer um verdadeiro expurgo em toda a Codificação — e talvez esse, seja o sonho inquisitorial. Sonho que não será realizado, estamos certos!
   Em pesquisa feita de forma criteriosa, descobriu-se que 47 obras espíritas de Allan Kardec inclusive todas as edições da Revista Espírita, com exceção dos anos 1858 e 1859, não possuem o tão valorizado Depósito Legal [14].
   Quer dizer, se fossem sérios os argumentos dos acusadores, não deveríamos estudar as Revistas Espíritas dos anos 1860, 1861, 1862, 1863, 1864, 1865, 1866, 1867, 1868 e 1869! Além das 4ª, 6ª, 7ª, 9ª, 11ª, 15ª, 17ª, 18ª e 19ª edições de O Livro dos Espíritos; também O Livro dos Médiuns nas 4ª, 7ª e 8ª edições; O Céu e o Inferno 2ª e 3ª edições e — pasmem! — a 2ª, 3ª,4ª e 5ª edições da mesma A Gênese! Entre outras obras do codificador, tornadas impróprias por ausência de formalismo jurídico.
     Fica a pergunta: estamos tratando seriamente o Espiritismo ou agimos como inquisidores legalistas e arrogantes?
    É oportuno lembrarmos do impactante alerta do Cristo:
 Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas, por dentro, cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de impureza. Assim também vós por fora pareceis justos aos olhos dos outros, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade. (Mateus, 23: 27-28) [15]
 
Quinta grande descoberta
     A publicação do Catálogo Racional, em primeiro de abril de 1869, por Allan Kardec, contém uma indicação muito interessante para os estudiosos do Espiritismo: o codificador sugere aos confrades que examinarem no capítulo VIII o item 7 do livro A Gênese que se chama “Alma da Terra”; o detalhe que é esse tema é exclusivo da 5ª edição, aquela acusada de ser adulterada. [16]
     Como Kardec poderia saber que — segundo os acusadores — depois de sua morte os adulteradores iriam incluir um item em sua obra e este item se chamaria “A Alma da Terra”? Por favor, leia novamente, pois o texto é claro: acusa-se a última obra de Kardec de ser adulterada, quando textos incluídos já tinham sido publicados pelo próprio Kardec em outros lugares!
    Não zombemos tanto dos inquisidores que perguntaram a Joana d’Arc se São Miguel apareceu a ela nu ou vestido; infelizmente, no movimento espírita, não somos muito mais inteligentes.
 
O envidado papal que esclarece
      Essas são algumas das dezenas de provas históricas que desmentem as acusações contra a nova edição de A Gênese e contra os continuadores de Kardec! Se o leitor não conhecesse a história de Joana d´Arc, poderia ilusoriamente pensar que tudo estaria suficientemente esclarecido e que as acusações seriam retiradas. Isso não aconteceu.
     Uma frase do enviado papal à Espanha, em 1565, nos fará melhor entender os acontecimentos:
   Os defensores mais fervorosos da justiça aqui consideram que é melhor um homem inocente ser condenado do que a Inquisição sofrer qualquer vergonha. [17]
    Essa ainda é uma verdade. Para muitos, o amor à instituição e a si mesmo está muito acima do amor ao Cristo e a Kardec.
 
 A acusação direta ao Codificador
        Chegamos ao momento assustador. Aqueles que seguiram os argumentos formalistas-inquisitoriais, agora, por consequência imediata, estão apontando o dedo em riste para um dos Espíritos mais nobre deste planeta: eles acusam o próprio codificador, Allan Kardec.
      Na ausência de provas, como nas acusações contra Joana d´Arc, buscou-se os mais variados motivos — na verdade, pretextos legalistas acusatórios. Os acusadores fazem questão de se escandalizar com a ausência de algumas formalidades legais e tecem longas exposições para defender a ilegitimidade da A Gênese e a consequente irresponsabilidade dos continuadores do Espiritismo no mundo.
         Colocaram-se em situação mais vexatória do que jamais sonharam e provaram, sem que ninguém os obrigassem, que não entendem o Espiritismo e — o que é mais grave ainda — não amam Kardec nem a Verdade acima de suas próprias opiniões.
         Se a justiça histórica demorou décadas para rever os erros contra Joana d’Arc; no caso atual, algo extraordinário aconteceu: a verdade foi reabilitada em poucos anos! Se formos dignos do Espírito Verdade, não seguiremos mais os falsos intelectuais e as instituições que mais de uma vez traíram o Mestre. Vamos aos fatos.
         Descobriu-se que o próprio Allan Kardec — para a decepção dos inquisidores atuais — não era, de maneira alguma, um formalista-legalista. Ele publicou uma edição de O Livro dos Espíritos, antes de 1857, sem nenhum registro formal! [18] E quem sabe, como Joana d´Arc, não diria aos inquisidores atuais: publicaria cem vezes, se fosse ordenado por Deus!
         Ousarão chamar nosso Mestre de leviano? Ousarão dizer que sua atitude é condenável e sua obra é ilegal? USE e FEAL estarão ainda unidas nesse tipo de acusação?
     Os Espíritos superiores ensinam em O Livro dos Espíritos que eles se preocupam mais com a essência do que com a aparência; mais com o bem que podem fazer do que com seu status social; mais com as lágrimas que podem consolar do que com a calúnia que pode atingi-los. Isso sabem também os inquisidores, por isso, sempre que querem atacar a honra dos Espíritos elevados — encarnados ou desencarnados — eles recorrem ao formalismo para os criticar e condenar.
       Qual a relevância se São Miguel tinha cabelo curto ou longo? É realmente decisivo para o futuro espiritual da Terra se existe um registro burocrático adequado de determinada obra? O importante não é seu conteúdo elevado e nossa vivência moral? Muitas vezes, o formalismo e os detalhes são abandonados, quando necessário, em nome de uma causa maior. Esse é o “ponto fraco” das grandes almas em nosso mundo inferior: eles amam Deus acima de todas as coisas; para estes, a verdadeira caridade está acima das formalidades mentirosas da Terra.
     Sob que pretextos condenaram Jesus? Após não encontrar mal algum nele, segundo próprio depoimento de Pilatos, usaram uma questão formal, de direito: tomaram como alegação o fato de ele se dizer rei, consequentemente, incidindo assim em “um crime terrível”, segundo o código jurídico da época! “Um escândalo inaceitável!” — bradaram os fariseus! Desenvolveram habilmente seus argumentos e concluíram: isso significava que ele queria o lugar de César… Formalmente, legalmente, segundo o código jurídico, ele era um criminoso, merecia pena de morte. Claro, para o bem de todos, era justo que ele morresse, que “a justiça” fosse realizada.
         De nada valeu uma vida de abnegação, curas inumeráveis, consolos distribuídos. Ele tinha de ser condenado, ele precisava ser condenado. Foi crucificado. Joana d’Arc também. Ela foi queimada. Hoje, condena-se Kardec com o apoio direto de instituições espíritas. Infelizmente, repetimos a história, mas algo pode ser muito diferente — você e eu podemos não aceitar as críticas levianas e os ataques desonestos.
      Assumamos o compromisso de entregar a próxima geração a Codificação Espírita sem as mutilações inquisitoriais! Eles não podem destruir todas as obras ou arrancar das almas honestas o amor e a gratidão a Kardec, a Amélie e aos continuadores do Espiritismo no mundo!
       Um dia, talvez, vendo nosso passado culposo, nos vejamos na cena da condenação do Cristo; lágrimas de arrependimento correrão em nossos olhos…
      Talvez, um dia, nos vejamos na cena atual, no período em que se reforça o tenebroso ataque a Kardec; lágrimas correrão em nossos olhos emocionados e diremos, silenciosamente em prece, obrigado Senhor, eu não te traí!
 

Referências

[1] Bíblia: Novo Testamento. Os Quatro Evangelhos. Companhia das Letras.
[2] No futuro abordaremos o tema da classe sacrificial a qual Jesus denunciou em termos muito fortes.
[3] Denis, Léon. Joana d´Arc, Médium. – ebook.
[4] Idem, Item 154.
[5] Idem, Item 244.
[6] Idem, Item 85.
[7] DuParc, Pierre (1977). Procès en Nullité de la Condamnation de Jeanne d’Arc. P. 427. – Wikipédia.
[8] Site Allan Kardec Online – AKOL – link
[9] Página especial O Caso A Gênese, tópico 18 – link.
[10] Idem, tópico 30 – link.
[11] Privato, Simoni Goidanich. O Legado de Allan Kardec, p. 58.
[12] Página especial O Caso A Gênese, tópico 39 – link.
[13] Fanpage AKOL no Facebook – link.
[14] Fanpage AKOL no Facebook – link.
[15] Bíblia: Novo Testamento. Os Quatro Evangelhos. Companhia das Letras.
[16] Página especial O Caso A Gênese, tópico 37 – link.
[17] Murphy, Cullin. God´s Jury, Editora Houghton Mifflin Harcourt. Cap. 3.
[18] “Descoberta histórica: “A Edição Zero de O Livro dos Espíritos” em Espiritismo em Movimento – link.

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