Texto principal – Encontro – 2

Um dos símbolos que me chama a atenção na obra Harry Potter é a divisão entre trouxas e bruxos. É sensacional. De forma humorada, ele representa a experiência de todos os que, neste mundo, ousaram se espiritualizar.
Não por acaso o Cristo opta para ensinar as grandiosas verdades divinas aos excluídos. Podemos perguntar porque, como fizeram seus apóstolos. A resposta é forte e surpreendente. Mas, para não expressar mera opinião pessoal, leiamos com atenção um trecho do diálogo entre Jesus e Mateus, que defendia selecionar os discípulos entre os vencedores do mundo, os bem adaptados. Essa conversa está no livro Boa Nova.

Até que a esponja do Tempo absorva as imperfeições terrestres, através de séculos de experiência necessária, os triunfadores do mundo são pobres seres que caminham por entre tenebrosos abismos. É imprescindível, pois, atentemos na alma branda e humilde dos vencidos. Para os seus corações Deus carreia bênçãos de infinita bondade. Esses quebraram os elos mais fortes que os acorrentavam às ilusões e marcham para o Infinito do amor e da sabedoria. O leito de dor, a exclusão de todas as facilidades da vida, a incompreensão dos mais amados, as chagas e as cicatrizes do espírito são luzes que Deus acende na noite sombria das criaturas. Levi, é necessário amemos intensamente os desafortunados do mundo. Suas almas são a terra fecundada pelo adubo das lágrimas e das esperanças mais ardentes, onde as sementes do Evangelho desabrocharão para a luz da vida. Eles saíram das convenções nefastas e dos enganos do caminho terrestre e bendizem do Nosso Pai, como sentenciados que experimentassem, no primeiro dia de liberdade, o clarão reconfortante do sol amigo e radioso que os seus corações haviam perdido! É também sobre os vencidos da sorte, sobre os que suspiram por um ideal mais santo e mais puro do que as vitórias fáceis da Terra, que o Evangelho assentará suas bases divinas!

O que é ser trouxa e o que é ser bruxo? O trouxa é o adaptado, é o normal que sonha com a felicidade material do mundo: sucesso, fama, prazeres. E o bruxo? É o excluído. É aquele que sabe e sente, existe uma realidade superior e deseja participar dela.
O nosso herói, Harry Potter, conheceu as dores do mundo, por isso, não alimenta ilusão sobre a vida material. Ao descobrir que é rico, não se deslumbra com a possibilidade de uma vida de prazeres materiais. Por quê? Ele sofreu e aprendeu, é livre das convenções nefastas e dos enganos dos caminhos terrestres.
O que o ajudou? O leito de dor, a exclusão de todas as facilidades da vida, a incompreensão dos mais amados. Órfão de pai e mãe, logo que nasceu, viveu com parentes que dele abusavam emocionalmente. Na escola, era excluído e maltratado pelo primo. Ele se preparou para um vida superior.
Não há um grande iniciado que não tenha vivido experiência semelhantes. Precisamos perder as ilusões do mundo para entender e sentir o Amor de Deus. É perdendo nossa ilusão de segurança que conquistamos a verdadeira segurança. A dor é a marca da iniciação espiritual. Assim ensinou Jesus, quando dois jovens, João e Tiago, acompanhados de sua mãe, solicitaram para ficar sempre junto dele. Jesus, primeiro, perguntou: Podeis beber a taça que eu bebo ou serem batizados no batismo que eu sou batizado?

Quer dizer, vocês estão dispostas a sofrer para deixar de ser trouxas? (Na linguagem do Harry Potter, se vocês me permitem!). Estão dispostos a viver a iniciação cristã? Eles responderam que sim!

O PODER DO SENTIMENTO
O que me surpreendente na obra é o extenso aprendizado de Harry Potter que o conduz ao caminho da verdadeira sabedoria.
Ele deve enfrentar o mal e o enfrenta. No processo de luta contra o mal, que todos os cristãos precisam dar conta, ele descobre algo de extremo valor. Essa passagem ilustra essa descoberta. Veja.
Harry e Dumbledore estão conversando sobre a profecia. Dumbledore está explicando a ele o dia em que ele mesmo ouviu a profecia, contada pela professora Sibila, há muitos anos atrás.
– Ele só ouviu o início, a parte que predizia o nascimento de um menino em julho, cujos pais haviam desafiado Voldemort três vezes. Em consequência, ele não pôde avisar ao seu senhor que atacá-lo seria correr o risco de transferir poderes para você e marcá-lo como seu igual. Então Voldemort nunca soube que poderia ser perigoso atacá-lo, que poderia ser mais sensato esperar, saber mais. Ele não sabia que você teria o poder que o Lorde das Trevas desconhece…
– Mas eu não tenho – protestou Harry com a voz estrangulada. – Não tenho nenhum poder que o lorde não tenha, eu não poderia lutar como ele lutou esta noite, não sou capaz de possuir pessoas nem… nem matá-las…Há uma sala no Departamento de Mistérios – interrompeu-o Dumbledore – que está sempre trancada. Contém uma força mais maravilhosa e mais terrível do que a morte, do que a inteligência humana, do que as forças da natureza. E talvez seja também o mais misterioso dos muitos objetos de estudo que são guardados lá. É o poder guardado naquela sala que você possui em grande quantidade, e que Voldemort não possui. Esse poder o levou a tentar salvar Sirius hoje à noite. Esse poder também o salvou de ser possuído por Voldemort, porque ele não poderia suportar residir em um corpo tomado por uma força que ele detesta. No fim, não teve importância que você não pudesse fechar sua mente. Foi o seu coração que o salvou.
Esse é um aprendizado indispensável para o seguir do Cristo. Apenas o sentimento elevado salva. A caridade é ao mesmo tempo expressão, ampliação e refinamento dos bons sentimentos. Por isso, ensina Kardec que a caridade é a salvação.

SOLIDÃO
Outra lição que os discípulos de Jesus aprendem: necessidade da experiência da solidão. Como ensina Emmanuel, na mensagem Solidão, no livro Fonte Viva.

À medida que te elevas, monte acima, no desempenho do próprio dever, experimentas a solidão dos cimos e incomensurável tristeza te constringe a alma sensível.

Harry Potter vive a experiência de total desamparo. Estava só. Sentia-se sozinho e deveria enfrentar o mal. Viveu essa dor durante o enterro de seu amigo e protetor.
E Harry, sentado ali sob o sol quente, percebeu com muita clareza como as pessoas que gostavam dele tinham se colocado à sua frente, um por um, sua mãe, seu pai, seu padrinho e, finalmente, Dumbledore, todos decididos a protegê-lo; mas, agora, isso acabara. Não podia mais deixar ninguém ficar entre ele e Voldemort; tinha de abandonar definitivamente a ilusão que já devia ter perdido com um ano de idade: que a proteção dos braços paternos significava que nada poderia atingi-lo. Neste pesadelo não haveria despertar, não haveria sussurro tranquilizante no escuro dizendo-lhe que, na realidade, estava seguro, que era tudo sua imaginação; o último e maior de seus protetores morrera, e ele estava mais sozinho do que jamais estivera.
Assim descreve Humberto de Campos a lição de Jesus no dia do calvário, no Boa Nova.

Depois da magnífica vitória da entrada em Jerusalém, é traído por um dos discípulos amados; negam-no os seus seguidores e companheiros; suas ideias são tidas como perversoras e revolucionárias; é acusado como bandido e feiticeiro; sua morte passa por ser a de um ladrão.

Jesus, entretanto, ensina às criaturas, nessa hora suprema, a excelsa virtude de retirar-se com a solidão dos homens, mas com a proteção de Deus.
Harry Potter continua. Aprendeu o valor do sentimento e a necessidade de não fugir da solidão com ilusões infantis. O que falta? O enfrentamento último. Enfrentar o mal. E aqui ocorre a mais importante lição. Ele descobre que o mal está nele. É a sombra como ensina a psicanálise. Existe apenas um meio de vencer o mal, sacrificar-se pelo bem. É a morte simbólica. A morte do ego. Vejamos.

Após a aparente derrota, o que acontece? A vitória.

 

A MORTE DO EGOÍSMO E DO ORGULHO

A vitória cristã se dá por meio sempre de sacrifício pessoal, por meio da morte de nossas vaidades, pretensões e “razões”. Quando aprendemos a abrir mão de tudo, conquistamos o Reino. Quando nos achamos espertos por conciliarmos os interesses do Céu e da Terra, do Ego e do Eu superior, de Deus e do mundo: somos trouxas.