Leitura complementar – Cidade Universitária. Livro Memórias de um Suicida – Encontro – 11

Compartilho com você o início da terceira parte do, segundo André Luiz, o mais completo livro sobre o mundo espiritual psicografado no século 20.


I
A Mansão da Esperança

 

A primeira noite foi passada em ansiosa expectação.
Nossos aposentos deitavam para o jardim e das ogivas que os rodeavam descortinávamos o vasto horizonte da metrópole, marchetado de pavilhões graciosos como construídos em madrepérola, e de cujos caramanchões, que os enfeitavam pitorescamente, e volavam-se fragrâncias delicadas de miríades de arbustos e flores viçosas, não mais insípidas, níveas, como no Departamento Hospitalar.
Tudo indicava que gravitáramos, segundo as nossas afinidades, para uma Cidade Universitária, onde ciclos novos de estudo e aprendizagem se franqueariam para nós, segundo nosso desejo.
Enquanto passeávamos, aos nossos olhos interessados estendia-se paisagem amena e sedutora, onde edifícios soberbos, finamente trabalhados em estilo ideal, que lembraria o padrão de uma civilização que nunca chegaria a se concretizar nas camadas terrestres, nos levaram a meditar sobre a possibilidade de neblinas ignotas, irisadas sob palores também desconhecidos, servirem a artistas para aquelas cúpulas sedutoras, os rendilhados sugestivos, o pitoresco encantamento dos balcões convidando a mente do poeta a devaneios profusos, caminho do Ideal!
Avenidas imensas rasgavam-se entre arvoredos majestosos e lagos docemente encrespados, orlados de tufos floridos e perfumosos. E, alinhadas, como em visão inesquecível de uma cidade de fadas, as Academias onde o infeliz que atentara contra o sacrossanto ensejo da existência terrena deveria habilitar-se
para as decisivas reformas pessoais que lhe seriam indispensáveis para, mais tarde, depois de nova encarnação terrena, onde testemunhasse os valores adquiridos durante os preparatórios, ser admitido na verdadeira Iniciação.
Não me permitirei a tentativa de descrever o encanto que se irradiava desse bairro onde as cúpulas e torres dos edifícios dir-se-iam filigranas lucilando discretamente, como que orvalhadas, e sobre as quais os raios do Astro Rei, projetados em conjunto com evaporações de gases sublimados, emprestavam tonalidades de efeitos cuja beleza nada sei a que possa comparar!
Em tudo, porém, desenhava-se augusta superioridade, desprendendo sugestões
grandiosas, inconcebíveis ao homem encarnado.
E, no entanto, não era residência privilegiada! Apenas um grau a mais acima do triste asilo hospitalar!…
Emocionados, detivemo-nos diante das Escolas que deveríamos cursar. Lá estavam, entestando-as, os letreiros descritivos dos ensinamentos que receberíamos: — Moral, Filosofia, Ciência, Psicologia, Pedagogia, Cosmogonia, e até um idioma novo, que não seria apenas uma língua a mais, a ser usada na Terra como atavio de abastados, ornamento frívolo de quem tivesse recursos monetários suficientes para comprar o privilégio de aprendê-la.
Não! O idioma cuja indicação ali nos surpreendia seria o Idioma definitivo, que havia de futuramente estreitar as relações entre os homens e os Espíritos, por lhes facilitar o entendimento, removendo igualmente as barreiras da incompreensão entre os humanos e contribuindo para a confraternização ideada por Jesus de Nazaré:
“Uma só Pátria, uma só bandeira, um só pastor!”
Esse idioma, cuja ausência entre médiuns brasileiros me havia impossibilitado ditar obras como as desejara, contribuindo para que fosse mais penoso o trabalho de minha reabilitação, possuía um nome que se aliava ao doce refrigério que aclarava nossas mentes. Chamava-se, tal como o nosso burgo, Esperança, e lá se encontrava, junto aos demais, o majestoso edifício onde era ministrado, acompanhando- se das recomendações fraternais para que foi ideado! Conviria, assim, que o aprendêssemos, para que, ao reencarnarmos, levando-o impresso nos refolhos do Espírito, não nos descurássemos de exercitá-lo sobre a Terra.
O benfazejo frescor matinal trazia-nos ao olfato perfume dulcíssimo, que afirmaríamos ser dos craveiros sanguíneos que as damas portuguesas tanto gostam de cultivar em seus canteiros, das glicínias mimosas, excitadas pelo orvalho saudável da alvorada. E pássaros, como se cantassem ao longe, assobiavam ternas melodias, completando a doçura do painel.
Havíamos chegado na véspera, quando as estrelas começavam a fulgir irradiando carícias luminosas.
Romeu e Alceste, apresentando-nos à direção do novo burgo, despediram-se
em seguida, dando por finda a missão junto de nós. Não foi sem profunda emoção que vimos retirarem-se os jovens boníssimos a quem tanto devíamos, e aos quais abraçamos, comovidos, conquanto que, sorrindo, observassem:
“—Não estaremos separados. Apenas mudastes de recinto, dentro do mesmo lar. Porventura o próprio Universo Infinito não é o lar das criaturas de Deus?!…”
Irmão Sóstenes era o diretor da Cidade Esperança.
Falou-nos grave, discreto, bondoso, sem que nos animássemos a fitá-lo:
“— Sede bem-vindos, meus caros filhos! Que Jesus, o único Mestre que, em verdade, aqui encontrareis, vos inspire a conduta a seguir na etapa nova que hoje se delineia para vós.
Confiai! Aprendei! Trabalhai! — a fim de que possais vencer! Esta mansão vos pertence.
Habitais, portanto, um lar que é vosso, e onde encontrareis irmãos, como vós, filhos do Eterno! Maria, sob o beneplácito de seu Augusto Filho, ordenou sua criação para que vos fosse proporcionada ocasião de preparativos honrosos para a reabilitação indispensável. Encontrareis no seu amor de mãe sustentáculo sublime para vencerdes o negror dos erros que vos afastaram das pegadas do Grande Mestre a quem deveis antes amor e obediência! Cumpre, portanto, apressar a marcha, recuperar o tempo perdido! Espero que sabereis compreender com inteligência as vossas próprias necessidades…”
Nada respondemos. Lágrimas umedeceram nossas pálpebras., Éramos como meninos tímidos que se vissem a sós pela primeira vez com o velho e respeitável professor ainda incompreendido.