Texto principal – Encontro – 3

Pensar que não merece algo bom. Achar-se incompetente. Sentir-se incapaz. Essa é a realidade da maioria de nós da Terra. Como entender isso? É uma história longa, complexa e dolorosa, mas que pode ser resumida.
A psicologia nos ajuda a entender o que dispara esse sentimento: pais que não nos valorizaram, ambientes infelizes, culpa atirada em nós etc. Porém, os traumas infantis e da vida adulta são gatilhos de dores muito mais profundas que carregamos, às vezes, há milênios. Portanto, complexo de inferioridade é um assunto que toca a mim e a você. Aos espíritos exilados.
Emmanuel nos esclarece em A Caminho da Luz no capítulo 3, Raças Adâmica, item Espíritos Exilado na Terra. Se você ou eu viemos de capela não sei, mas é quase certo de somos transferidos de algum outro mundo.

Foi assim que Jesus recebeu, à luz do seu reino de amor e de justiça, aquela turba de seres sofredores e infelizes.
Com a sua palavra sábia e compassiva, exortou essas almas desventuradas à edificação da consciência pelo cumprimento dos deveres de solidariedade e de amor, no esforço regenerador de si mesmas.
Mostrou-lhes os campos imensos de luta que se desdobravam na Terra, envolvendo-as no halo bendito da sua misericórdia e da sua caridade sem limites. Abençoou-lhes as lágrimas santificadoras, fazendo-lhes sentir os sagrados triunfos do futuro e prometendo-lhes a sua colaboração cotidiana e a sua vinda no porvir.
Aqueles seres angustiados e aflitos, que deixavam atrás de si todo um mundo de afetos, não obstante os seus corações empedernidos na prática do mal, seriam degredados na face obscura do planeta terrestre; andariam desprezados na noite dos milênios da saudade e da amargura; reencarnariam no seio das raças ignorantes e primitivas, a lembrarem o paraíso perdido nos firmamentos distantes. Por muitos séculos não veriam a suave luz da Capela, mas trabalhariam na Terra acariciados por Jesus e confortados na sua imensa misericórdia.

Essa experiência sim é traumática! Tão dolorosa que ainda hoje não conseguimos lidar com ela de forma direta. O sentir-se inferior é nossa postura de fuga, pois não reconhecer-se filho de Deus, portador de potencial divino é negar ainda uma vez a bondade do Pai.
Resumo, nos revoltamos em outro planeta, fomos expulsos e acolhido na Terra e aqui nos sentimos inferiores. Naturalmente, alimentando nosso sentimento de inferioridade existe um imenso orgulho. Bem ou mal disfarçado.
Pergunto agora, o que o Cristo que nos acolheu tem a nos ensinar sobre essa armadilha que armamos para nós mesmos? Pode ele nos ajudar a sair apontando o caminho? Sim, certamente, sim.
Para simplificar e ampliar nossa compreensão vamos ler uma história que ele contou na intimidade da casa de Pedro que nos ensina de forma didática e engraçada como lidar com nosso complexo de inferioridade.
Ela está registrada nas dimensões magnéticas do planeta, bem como, na memória de milhares de espíritos que a ela assistiram por conta do desejo de Jesus em nos ajudar. Além disso, está registrada em português graças a psicografia de Francisco C. Xavier e a elaboração do espírito Neio Lúcio que escreveu o livro Jesus no Lar. Capítulo 41. O Incentivo Santo.

Aberta a sessão de fraternidade em casa de Pedro, Tadeu clamou, irritado, contra as próprias fraquezas, asseverando perante o Mestre:
—Como ensinar a verdade se ainda me sinto inclinado à mentira?
—Com que títulos transmitir o bem, quando ainda me reconheço arraigado ao mal?
—Como exaltar a espiritualidade divina, se a animalidade grita mais alto em minha própria natureza?
O companheiro não formulava semelhantes perguntas por espírito de desespero ou desânimo, mas sim pela enorme paixão do bem que lhe tomava o íntimo, a observar pela inflexão de amargura com que sublinhava as palavras.
Entendendo-­lhe a mágoa, Jesus falou, condescendente:
—Um santo aprendiz da Lei, desses que se consagram fielmente à Verdade, chamado pelo Senhor aos trabalhos da profecia entre os homens, mantinha-­se na profissão de mercador de remédios, transportando ervas e xaropes curativos, da cidade para os campos, utilizando-­se para isso de um jumento caprichoso e inconstante, quando, refletindo sobre os defeitos de que se via portador, passou a entristecer­-se profundamente. Concluiu que não lhe cabia colaborar nas revelações do Céu, pelo estado de impureza íntima, e fez-­se mudo.
—Atendia às obrigações de protetor dos doentes, mas recusava­-se a instruir as criaturas, na Divina Palavra, não obstante as requisições do povo que já lhe conhecia os dotes de inteligência e inspiração. Sentido, porém, que a Celeste Vontade o constrangia ao desempenho da tarefa e reparando que os seus conflitos mentais se tornavam cada vez mais esmagadores, certa noite, depois de abundantes lágrimas, suplicou esclarecimento ao Todo­Poderoso.
Sonhou, então, que um anjo vinha encontrá­-lo em suas lides de mercador. Viu­-se cavalgando o voluntarioso jumento, vergado ao peso de preciosa carga, em verdejante caminho, quando o emissário divino o interpelou, com bondade, em seguida às saudações habituais:
“— Meu amigo, sabes quantos coices desferiu hoje este animal?
“— Muitíssimos — respondeu sem vacilação. “
— Quantas vezes terá mordido os companheiros de estrebaria? — prosseguiu o enviado, sorridente — quantas vezes terá insultado o asseio de tua casa e orneado despropositadamente?
“E porque o discípulo aturdido não conseguisse responder, de pronto, o anjo considerou:
“— Entretanto, ele é um auxiliar precioso e deve ser conservado. Transporta medicamentos que salvam muitos enfermos, distribuindo esperança, saúde e alegria. “E fitando os olhos lúcidos no pregador desalentado, rematou:
“— Se este jumento, a pretexto de ser rude e imperfeito, se negasse a cooperar contigo, que seria dos enfermos a esperarem confiantes em ti? Volta à missão luminosa que abandonaste, e, se te não é possível, por agora, servir a Nosso Pai Supremo na condição de um homem purificado, atende aos teus deveres, espalhando reconforto e bom ânimo, na posição do animal valioso e útil. Nas bênçãos do serviço, serás mais facilmente encontrado pelos mensageiros de Deus, os quais, reconhecendo­-te a boa ­vontade nas realizações do amor, se compadecerão de ti, amparando-­te a natureza e aprimorando­-a, tanto quanto domesticas e valorizas o teu rústico, mas prestimoso auxiliar!
Nesse instante, o pregador viu-­se novamente no corpo, acordado, e agora feliz em razão da resposta do Alto, que lhe reajustaria a errada conduta.
Surgindo o silêncio, o discípulo agradeceu ao Mestre com um olhar. E Jesus, transcorridos alguns minutos de manifesta consolação no semblante de todos, concluiu:
O trabalho no bem é o incentivo santo da perfeição. Através dele, a alma de um criminoso pode emergir para o Céu, à maneira do lírio que desabrocha para a Luz, de raízes ainda presas no charco.
—Em seguida, o Mestre pôs-­se a contemplar as estrelas que faiscavam, dentro da noite, enquanto Tadeu, comovido, se aproximava, de manso, para beijar-­lhe as mãos com doçura reverente.

Eis um mapa completo para lidarmos com o complexo de inferioridade! Primeiro passo é aceitar o fato: somos inferiores. Gastamos, muitas vezes, a maior parte de nossas energias para esconder nossas deficiências, para aparentar, para conquistar glória social com a ilusão de fugir de nossas dores. Uma vez aceita nossa condição de aprendizes e necessitados tudo fica mais fácil. Porém, chegar a essa estágio não é fácil. Apenas uma vida de honestidade íntima nos assegura essa conquista. Se começamos, já devemos nos sentir felizes!
Segundo passo. Não nos acomodarmos em nossa inferioridade. Nada de desculpas. Deus nos livre do tal – quem sou eu…!!! – como ensina Jesus, quando nos acomodamos os conflitos mentais se tornavam cada vez mais esmagadores. Parar, adiar, fugir, mesmo que com boas desculpas, agrava nossas dores emocionais.
Terceiro passo. Estar atendo as orientações do mais Alto. Orar e perguntar-se sempre, o que Deus deseja de mim. Observar, sonhos, intuições e situação objetivas que expressam nosso deveres espirituais. Como ensina Bezerra de Menezes,

Procuremos no trabalho, que o Senhor nos reserva, a posição de serviço que nos é própria, nela buscando a felicidade de obedecer ao Celeste Orientador. Nem queixas, nem exigências. Nem deserção, nem exclusivismo. Nem lamentação, que é indisciplina, nem exame precipitado do concurso alheio, que redunda em desordem.  Livro. Bezerra, Chico e Você

Último e não menos importante passo. Sorrir! Aprender a reconhecer e aceitar com bom humor as próprias limitações. Afinal, somos jumentos rebeldes, mas já podemos ser úteis e isso é maravilhoso! Rs… Aproveitemos que entre mordidas e relinchos, aprenderemos a ser felizes! Ser feliz cumprindo as obrigações é melhor do que tentar nos escondermos!