Leitura complementar – Encontro – 4

Cristo - Untitled Page (17)Em entrevista, feita pelo programa Roda Viva da TV Cultura, em 17/04/1995, o antropólogo Darcy Ribeiro fala sobre seu livro O Povo Brasileiro que defende a ideia que o Brasil formará a nova civilização.


Matinas Suzuki: Senador, eu queria aproveitar a oportunidade para a gente dar um furinho aqui no Roda Viva. O senhor está lançando os dois livros e está com eles aqui. O senhor poderia falar para os nossos telespectadores sobre esses dois livros que o senhor está lançando?

Darcy Ribeiro: Posso. Posso com muito gosto. Primeiro, é o seguinte: este livro é o livro mais importante meu, O povo brasileiro. Deve sair dentro de uns dez dias, não está editado ainda. É o primeiro exemplar. O povo brasileiro tem 30 anos e 40 dias. Durante trinta anos eu quis escrever esse livro. Tomei nota, estudei, porque a minha convicção, quando eu o comecei a fazer no exílio, eu queria saber por que que o Brasil não deu certo, quando eu estava no exílio. Por que perdemos? Por que, mais uma vez, a direita ganhou? Por que o Brasil não deu certo do ponto de vista do seu povo? E vi que eu não podia fazer esse livro, porque faltava uma teoria sobre o Brasil. E levei 30 anos escrevendo uma teoria geral. Uma teoria geral do mundo, das Américas. São cinco livros, que têm noventa e seis edições em várias línguas. E esses livros… ter escrito os cincos e não escrever o final, para o qual eu me preparei, era uma loucura. Então, quando eu via que estava morrendo, eu ia lá e aquele pessoal ia me matar naquela UTI [risos]. Eu fugi do hospital para viver e fugi para escrever esse livro. Então, eu escrevi esse livro nos 30 anos que eu me preparei e mais quarenta dias, depressa, com muitas secretárias para fazer ligeiro, antes de morrer. Parece que eu não vou morrer mesmo… Passar 30 anos indo e voltando, consegui. Então esse livro para mim é muito importante porque nós não temos uma teoria global do Brasil. Por exemplo, Gilberto Freyre fez um livro admirável que é o Casa grande & senzala, mas é o mundo do engenho. É o mundo do açúcar. Mas este mundo… mais importante que aquele, que é o mundo de São Paulo, que é o mundo das bandeiras, que é o mundo de Minas, que é o mundo do sul, que são os outros Brasis, não estavam descritos e não estavam interpretados. Então, eu tento essa interpretação.

Esse livro… a convicção a que eu chego é de que uma das coisas mais belas do mundo foi a aventura do Brasil se fazendo a si mesmo. Um povo que constitui um novo gênero humano.

Não tem novidade nenhuma em fazer a Austrália: pega um bocado de ingleses e escoceses e joga no terreno vazio e eles matam os índios e ficam lá e fazem uma Inglaterra sem graça [risos]. Isto daqui é bobagem. Mas fazer um gênero humano novo, fundir herança genética e cultural, índia, negra e européia num gênero humano novo, numa coisa nova, que nunca houve. É isso a aventura brasileira e que eu resumo dizendo que o que nós somos, mesmo, é uma nova Roma. E argumento: há dois mil anos atrás os soldados romanos saíram lá da Itália, da Enestrúlia, conquistaram, não se sabe muito bem como, a península ibérica, ficaram lá. Conseguiram latinizar a península ibérica e resistiram às invasões escandinavas, depois de 700 anos de dominação árabe, mantendo a língua e mantendo a “romanidade”. Mil e quinhentos anos depois saltaram ao mar e vieram aqui e aqui é que deu certo. Você veja, a França não se expandiu. A Itália não se expandiu, ficaram lá comendo a sua comidinha, […?] muito menos. O que expandiu foi a Ibéria. E a Ibéria veio e construiu esta coisa, equivalente ao mundo neobritânico, o mundo neolatino – do qual nós somos a unidade principal. É a nossa nação neolatina que é a mais rica, a mais futurosa. Então nós somos a nova Roma. A nova Roma é o Brasil. Uma Roma lavada em sangue índio, lavada em sangue negro, melhor, tropical, e que está chamada a representar um importante papel no mundo. E esse livro mostra lentamente, cuidadosamente isso. E eu creio que ele tem uma grande beleza também, porque é uma beleza a aventura do nosso povo se fazendo a si mesmo. Tal como uma figura terrível: a brutalidade, a incapacidade, a mediocridade da nossa classe dominante, que aqui o que faz é enricar, é ter vantagem para ela, é juntar, é gastar. O Brasil sempre foi um moinho direto da gente, moeu, liquidou seis milhões de índios que tinha aqui. Liquidou. Mais 12 milhões de negros africanos. Pra quê? Para adoçar a boca de europeu com açúcar. Para enriquecer com o ouro de Minas Gerais. (…)  Então, tanto é bonito este povo se reinventando, se fazendo, se construindo, como esta classe dominante medíocre, que a gente tem que dar um jeito nela, para obrigá-la aceitar que o Brasil realize suas potencialidades, de uma nova civilização, de uma nova Roma.

 

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