Texto principal – Encontro – 4

O complexo de inferioridade é uma das características centrais de nossa cultura. Ele influencia de forma direta nossas atitudes no dia a dia, incluindo, as atividades espíritas. De onde vem nosso complexo de inferioridade? Segundo uma visão espírita, as experiências da atual existência são muito importantes, porém é no conjunto de nossas vivências milenares que devemos buscar uma melhor compreensão da origem desse sentimento de desvalor. Por isso, a pergunta, o que caracteriza nossa história espiritual dos últimos séculos, é muito oportuna.

Precisaremos de muita pesquisa da sociologia espírita, no modelo da pesquisa da psicóloga norte-americana Helen Wambach (Phd), para saber com segurança a história espiritual da nação brasileira. Esse é um dos desafios da Nova Geração: realizar estudos que ampliem a nossa consciência espiritual.

Apesar da ausência de pesquisas, podemos refletir sobre nossa história por meio da observação direta de nossa vida social e de informações mediúnicas confiáveis. Eis o que faremos, utilizando trechos do livro Brasil, Coração do Mundo Pátria do Evangelho. É um recurso limitado, mas válido.

Antes de tudo, é preciso entender nossa tarefa como sociedade. Emmanuel afirma que

O Brasil não está somente destinado a suprir as necessidades materiais dos povos mais pobres do planeta, mas, também, a facultar ao mundo inteiro uma expressão consoladora de crença e de fé raciocinada e a ser o maior celeiro de claridades espirituais do orbe inteiro.

(…)

Se outros povos atestaram o progresso, pelas expressões materializadas e transitórias, o Brasil terá a sua expressão imortal na vida do espírito, representando a fonte de um pensamento novo, sem as ideologias de separatividade, e inundando todos os campos das atividades humanas com uma nova luz.

Em síntese, ser uma fonte de espiritualização para o mundo por meio de uma vida social fraterna. Viver a fraternidade como valor máximo, sendo fiel ao Cristo. Humberto Campos acrescenta a essas informações algo impressionante.

Jesus transplantou da Palestina para a região do Cruzeiro a árvore magnânima do seu Evangelho, a fim de que os seus rebentos delicados florescessem de novo, frutificando em obras de amor para todas as criaturas.

Essa informação, se dermos crédito a ela, gera uma revolução na análise de nossa realidade. Acreditamos que seremos a Pátria do Evangelho? Se sim, nos preparemos para sermos os novos israelitas que, por meio das duras provas do deserto e do cativeiro, foram preparados para receber o Messias. Se aceitamos nossa missão, aceitemos a preparação para bem cumpri-la.

Surge a questão, por que essa missão nos foi concedida? Qual o nosso perfil espiritual? Podemos dizer que somos espíritos vividos, isto é, com muitas experiências, porém ainda não somos espíritos maduros emocionalmente. Nossas difíceis experiências atuais devem servir para transformarmos nossas experiências milenares em sabedoria, em maturidade emocional.

Durante a formação de nosso povo, Ismael, nosso guia espiritual, que inclusive se comunicava mediunicamente com Bezerra de Menezes encarnado, ao ver a conduta de nossos ancestrais, suplica interferência de Jesus para evitar a escravidão de índios e negros. Vejamos o trecho do diálogo.

Aos céus ascendem os aflitivos apelos dos obreiros invisíveis:
— Senhor! — exclama Ismael nas suas preocupações — Estendei até nós o manto da vossa infinita misericórdia. Enviai-nos o socorro das vossas bênçãos divinas, para que as nossas vozes sejam ouvidas pelos Espíritos que aqui procuram edificar uma pátria nova. Nosso coração se comove ante os quadros deploráveis que se deparam às nossas vistas. Por toda parte, veem-se os infortúnios das raças flageladas e sofredoras.

Uma voz suave e meiga lhe responde do Infinito:
— Ismael, nas tuas obrigações e trabalhos, considera que a dor é a eterna lapidaria de todos os Espíritos e que o Nosso Pai não concede aos filhos fardo superior às suas forças, nas lutas evolutivas. Abriga aí, na sagrada extensão dos territórios do país do Evangelho, todos os infortunados e todos os infelizes. No meu coração ecoam as súplicas dolorosas de todos os seres sofredores, que se agrupam nas regiões inferiores dos espaços próximos da Terra. Agasalha-os no solo bendito que recebe as irradiações do símbolo estrelado, alimentando-os com o pão substancioso dos sofrimentos depuradores e das lágrimas que lavam todas as manchas da alma. Leva a essas coletividades espirituais, sinceramente arrependidas do seu passado obscuro e delituoso, a tua bandeira de paz e de esperança; ensina-lhes a ler os preceitos da minha doutrina, nos códigos dourados do sofrimento.

Ismael sente que luzes compassivas e misericordiosas lhe visitam o coração e parte com os seus companheiros, em busca dos planos da erraticidade mais próximos da Terra. Aí se encontram antigos batalhadores das cruzadas, senhores feudais da Idade Média, padres e inquisidores, Espíritos rebeldes e revoltados, perdidos nos caminhos cheios da treva das suas consciências polutas. O emissário do Senhor desdobra nessas grutas do sofrimento a sua bandeira de luz, como uma estrela d’alva, assinalando o fim de profunda noite.

— Irmãos — exorta ele comovido —, até ao coração do Divino Mestre chegaram os vossos apelos de socorro espiritual. Da sua esfera de brandos arrebóis cristalinos, ordena a sua misericórdia que as vossas lágrimas sejam enxugadas para sempre. Um ensejo novo de trabalho se apresenta para a redenção das vossas almas, desviadas nos desfiladeiros do remorso e do crime.

Há uma terra nova, onde Jesus implantará o seu Evangelho de caridade, de perdão e de amor indefiníveis. Nos séculos futuros, essa pátria generosa será a terra da promissão para todos os infelizes. Dos seus celeiros inesgotáveis sairá o pão de luz para todas as almas; mas, preciso se faz nos voltemos para o seu solo virgem e exuberante a construir-lhe as bases com os nossos sacrifícios e devotamentos. Ali encontrareis, nos carreiros aspérrimos da dor que depura e santifica, a porta estreita para o céu de que nos fala Jesus nas suas lições divinas. Aprendereis, no livro dos padecimentos salvadores, a gravar na consciência os sagrados parágrafos da virtude e do amor, na epopeia de luz da solidariedade, na expiação e no sofrimento. Sabei que todas as aquisições da filosofia e da ciência terrestres são flores sem perfume, ou luzes sem calor e sem vida, quando não se tocam das claridades do sentimento. Aqueles de vós que desejarem o supremo caminho venham para a nossa oficina de amor, de humildade e redenção.
E aí, nas estradas escuras e tristes da angústia espiritual, viu-se, então, que falanges imensas, ansiosas e extasiadas, avançavam com fervorosa coragem para as clareiras abertas naquela mansão de dor e de sombras. Todos queriam, no seu testemunho de agradecimento, beijar a bandeira sacrossanta do mensageiro divino.

O seu emblema — Deus, Cristo e Caridade — refulgia agora nas penumbras, iluminando todas as coisas e clarificando todos os caminhos. As esperanças reunidas, daqueles seres infortunados e sofredores, faziam a vibração de luz que então aclarava todas as sendas e abria todos os entendimentos para a compreensão das finalidades, das determinações sublimes do Alto.

Essas entidades evolvidas pela ciência, mas pobres de humildade e de amor, ouviram os apelos de Ismael e vieram construir as bases da terra do Cruzeiro. Foram elas que abriram os caminhos da terra virgem, sustentando nos ombros feridos o peso de todos os trabalhos. Nesse filão de claridades interiores, buscaram as pérolas da humildade e do sentimento com que se apresentaram mais tarde a Jesus, no dia, que lhes raiou, de redenção e de glória.

Complexo de inferioridade e nossa relação com Deus

A face mais triste do complexo de inferioridade se mostra em nossa relação com Deus. Isso é bem qualificado com o mito de Adão e Eva e da árvore do bem e do mal. A sedução que faz cair Adão e Eva não é, como pregou a igreja medieval, a do sexo. Absurdo seria Deus que mandou que eles tivessem filhos condenasse o sexo. É algo muito mais grave, é o orgulho. É querer igualar-se a Deus. É querer ser Deus. É o desejo que tratar Deus de igual para igual. Por isso, diz a serpente, se comeres desta árvore, sereis como Deus, tudo conhecereis. Óbvio, quem que se comparar a Deus, fatalmente, sente-se inferior. É esse o ato de revolta que nos distancia do Amor.

Como sair do lamaçal da revolta? Aprender a ser filho de Deus. Isso é a verdadeira humildade. Saber-se divino por filiação e não enlouquecer pensando que podemos lutar contra o Pai que nos ama infinitamente. Como viver isso na prática? Aceitar a vida e suas lições com humildade. Aceitar as dores entendendo que Deus cuida de nós com amor: cada dessabor, cada angústia e preocupação tem um motivo elevado que devemos buscar compreender antes que a revolta nos domine e nos faça distante do verdadeiro amor.

Aprender a enfrentar as dores sem a revolta do vício e da maldade nos tornará capazes de representar ante os outros povos o Evangelho do Cristo e assim nos libertarmos de vícios seculares que nos fazem sentir inferiores.

Mensagem de Bezerra de Menezes, psicografia de Francisco Cândido Xavier, do livro Chico, Bezerra e Você, nos ajuda e entender essa realidade.

Interdependência

Estejamos na certeza de que todos somos peças interdependentes nas engrenagens da vida. E as engrenagens a que nos referimos reclamam de cada um de nós fidelidade e disciplina, de maneira a que não venhamos a olvidar aquela área da existência em que todos os dias surpreendemos os desígnios do Senhor a nosso respeito, área que nomeamos com a palavra “dever”. Aceitemo-nos como somos, trabalhando para melhorar-nos cada vez mais e aceitemos as atividades em que fomos necessariamente situados, para que a rebeldia não se intrometa nas obrigações do cotidiano, fantasiada de liberdade. Somos herdeiros e depositários da fé que precisa expressar-se no bem geral. Caridade, entendimento, solidariedade, amparo, sacrifício constituem frutos que nos compete espalhar onde estivermos.

Na Equipe Cristã

Procuremos no trabalho, que o Senhor nos reserva, a posição de serviço que nos é própria, nela buscando a felicidade de obedecer ao Celeste Orientador. Nem queixas, nem exigências. Nem deserção, nem exclusivismo. Nem lamentação, que é indisciplina, nem exame precipitado do concurso alheio, que redunda em desordem.