Conceitos – Medo e Preconceito – Encontro 6

Medo e preconceito

Trecho do texto de Lya Luft – medo e preconceito.

Medo e preconceito. O medo do diferente é o pai do preconceito, que por sua vez abre feridas na alma. Porém nos ensinaram que temos de ser iguais, inclusão geral. Então, para não sermos diferentes, portanto objetos de suspeita ou rejeição clara, mentimos uma igualdade impossível. Melhor seria entender, cultivar e afirmar nossas diferenças – não como fator de ódio, mas de um espaço de crescimento natural de todos para um melhor convívio.
Boa parte dos nossos medos é um legado atávico dos homens das cavernas, fator de sobrevivência primitivo. Ainda nos contamina, pois mesmo quando se busca honradamente a imparcialidade, os preconceitos estão à espreita, em nós ou na esquina. Dinheiro e educação não nos liberam dessa secular lavagem cerebral que a cultura nos incute, abraçados à qual giramos pela vida.
O diferente parece ameaçador: queremos preservar nossa individualidade, tememos que o outro nos prejudique. O que não entendo, o que não é igual a mim, seja na cor, no formato dos olhos, na cultura, nas origens, na profissão e nos afetos, desperta minha hostilidade irracional.
Atormentar colegas na escola, perversidade do momento, nasce disso: o menino de óculos, o que não gosta de esportes, o que toca violino em vez de guitarra, a menina gordinha, a mais feiosa, o que não nada no mesmo clube chique, o que tem outra cor de pele, o negro, o oriental, a colega que não usa roupa de grife, o rapaz que prefere livros ou família à balada, enfim, uma lista enorme. Ameaças e perseguições também via internet já provocam suicídio entre adolescentes, e séria depressão em crianças.
A medicina e a moda incutem que estar acima do peso é feio, e, além disso, mortal. Ignoram-se diferenças físicas ditadas pela natureza, que nos deixam saudáveis e contentes mesmo que estejamos um pouco fora do esquadro ditado por ideias ou uma medicina nem sempre sensata, que dentro de pouco tempo pode mudar seus padrões – em que tão poucos cabem.
A obrigação de nos enquadrarmos num modelo aflige e frustra a grande maioria de nós. Poucos conseguem ser originais: calçamos o mesmo tênis, vestimos roupa de um mesmo tamanho, usamos o mesmo cabelo, sorrimos com os mesmos dentes, temos o mesmo ar desanimado ou delirante – porque nos drogamos seja com o que for, para aguentar.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/ult10082u732809.shtml