Vivemos uma fase dificílima de nossa história. A confusão é tão imensa que confundimos verdadeira humildade, que é dignidade espiritual, com auto desprezo. É uma longa e trágica confusão. A preocupação do Cristo com nossa miopia espiritual leva a Kardec a incluir em o Evangelho Segundo o Espiritismo uma interessantíssima mensagem de Lázaro para esclarecer tão delicado tema.

Não me refiro aqui a preocupações teóricas e meramente intelectuais, não. Falo de uma confusão que distorce nossa vida e nos leva a cometer erros absurdos.

Vejamos, no capítulo 9, Bem-aventurado os mansos e os pacíficos. a mensagem com o título Obediência e resignação. Há uma frase, nessa mensagem, que me causa um profundo abalo emocional: O covarde não pode ser um resignado, assim como o orgulhoso e o egoísta não podem ser criaturas obedientes. Algo novo me traz esse espírito. Como tenho confundido doença emocional com superioridade espiritual!

Você quer ler essa mensagem? Vale a pena, mas não é uma experiência fácil.


Obediência e resignação

8. A doutrina de Jesus ensina, por toda a parte, a obediência e a resignação, duas virtudes que acompanham a doçura, e que são muito ativas, embora os homens as confundam, erradamente, com a negação do sentimento e da vontade. A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração. As duas são forças ativas, pois levam o fardo das provas que a revolta insensata deixa cair. O covarde não pode ser um resignado, assim como o orgulhoso e o egoísta não podem ser criaturas obedientes. Jesus foi a encarnação dessas virtudes que a Antiguidade materialista desprezava. Ele veio no momento em que a sociedade romana naufragava nos desmandos da corrupção; ele veio fazer brilhar, no meio da humanidade oprimida, os triunfos do sacrifício e da renúncia à sensualidade.
Aqui está o que aprendi: é preciso ter coragem para ser verdadeiramente resignado. Apenas isso explica o exemplo que estudaremos.
Difícil entender que é preciso sacrificar o orgulho e o egoísmo para realizar uma importante obra. Por que essa confusão? Porque nosso coração ainda é materializado, grosseiro. Valorizamos mais as sensações materiais e a aprovação social do que os sentimentos e conquistas elevadas, muitas vezes. Continuemos com a mensagem de Lázaro.
Cada época é marcada pela virtude ou pelo vício que deverão salvá-la ou perdê-la. A virtude da vossa geração é a atividade intelectual; seu vício é a indiferença moral. Digo, somente, atividade, porque o gênio se eleva de repente e descobre, sozinho, os horizontes que a multidão só verá depois dele, enquanto que a atividade é a reunião dos esforços de todos para atingir um objetivo menos brilhante, mas que prova a elevação intelectual de uma época. Submetei-vos ao impulso que viemos dar aos vossos espíritos; obedecei à grande lei do progresso, que é a palavra da vossa geração. Infeliz do espírito preguiçoso, daquele que fecha o seu entendimento! Infeliz dele! Porque nós, que somos os guias da humanidade em marcha, o chicotearemos, e forçaremos a sua vontade rebelde, com o duplo esforço do freio e da espora; mais cedo ou mais tarde toda a resistência orgulhosa deverá ceder, mas bem-aventurados os que são mansos, porquanto ouvirão docilmente os ensinamentos. (Lázaro. Paris, 1863.)


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Antes de conhecer essa mensagem, eu achava que obediência e resignação era falar manso e ser bobo. Mudei de ideia. Isso significa muito. Vamos agora estudar a história real de Vivien Thomas. Será de imenso proveito!
Como Zaqueu, que se preparou para encontrar Jesus, vivendo abnegadamente sua solidão, lidando com a solidão diária, com a incompreensão, enquanto auxiliava aos outros, Vivien a mesma coisa.A época, as referências sociais externas são muito diferentes. A essência espiritual da experiência é muito semelhante. Não porque Vivien e Zaqueu sejam o mesmo espírito, mas porque eles são seres humanos que decidiram servir ao próximo com o sacrifício de seu orgulho e egoísmo.
A experiência por eles vivida é também a experiência que viveremos em nosso processo de crescimento espiritual. Por isso, é tão importante que entendamos suas vidas.
Comentei a história de Vivien Thomas em nosso áudio e você pode também assistir ao filme Quase deuses. Vou apresentar aqui a tradução de trechos de um artigo publicado originalmente no jornal norte-americano The Washingtonian em agosto de 1989.
O espírito cresce quando ele decide ser obediente. Obediente a quê? Essa é a grande questão. Obediente a Deus: ao que é superior, belo e harmônico. Nos mundo inferiores, normalmente, somos obedientes a moda superficial, aos hábitos e valores sociais mesquinhos. Tanto precisamos a ser aprovados pela inferioridade que nos afastamos de Deus. Somos ensinados que orgulho e egoísmo é sabedoria e que Deus, na prática, é uma grande ficção que não pode interferir no “mundo real.” Isso fica claro na afirmação de Lázaro: o orgulhoso e o covarde não podem ser obedientes! Ser obediente a Deus, na Terra (e escrevo para espíritos da Terra) é ser revolucionário no sentido verdadeiro, é afastar-se da maioria que prefere continuar com a “sabedoria do mundo”, que, na prática, nega o Amor de Deus.
A vida de Vivien, independente de sua religião social é de um iniciado cristão. Somente alguém com grandeza emocional pode suportar diariamente a exclusão dos que são inferiores a eles, inclusive intelectualmente, e prosseguir o caminho que sabe que deve trilhar. Uma sugestão? Refletia como você está enfrentando a rejeição social no cumprimento de sua missão na Terra, assim você pode avaliar como está se saindo. Melhor avaliar agora do que somente, quando sua missão terminar.
Não esquece, as histórias das verdadeiras conquista, quase sempre, apenas são bonitos no final. Até Zaqueu chegar a Jesus, houve um longo e solitário caminho. Até Vivien alcançar o sucesso médico que veio realizar, um longo e solitário caminho teve de ser percorrido. Até você conquistar o mérito de cumprir sua missão, há um longo caminho. Preparemo-nos e percorramos o belo caminho da vitória espiritual!
Diga o nome dele e os mais ocupados cirurgiões cardíacos do mundo vão parar para conversar com você por uma hora. Claro, eles têm tempo, dizem esses homens que contam o tempo em segundos, que sempre correm contra o relógio. Trata-se do nome Vivien Thomas. Para Vivien encontram tempo.

Dr. Denton Cooley acaba de sair de uma cirurgia. Ele tem apenas 47 minutos entre operações. “Não, você não precisa agendar” me diz sua secretária.“Dr. Cooley está aqui. Ele quer falar agora.
Imediatamente, Dr. Cooley, do instituto do coração de Texas em Houston, está na linha. Com um lento sotaque texano, ele diz que ama ser incomodado para falar sobre Vivien. E então, em 47 minutos – o tempo que ele gasta para fazer uma cirurgia cardíaca -ele fala sobre o homem que o ensinou a ser ágil .
Não, Vivien Thomas não era um médico, diz Cooley. Não tinha nenhuma graduação. Ele simplesmente era tão capaz, tão hábil e tão confiante que isso não importava.
Ele era capaz de operar…Mesmo que você nunca tivesse visto uma cirurgia antes, Cooley diz, você poderia fazê-la, porque Vivien a fez parecer muito simples.
Vivien Thomas e Denton Cooley ambos chegaram ao hospital de Johns Hopkins de Baltimore em 1941 – Cooley como residente de medicina e Thomas como funcionário do laboratório cirúrgico sob a direção do Dr. Alfred Blalock.Em 1941, os únicos outros empregados negros no hospital de Johns Hopkins eram faxineiros. As pessoas paravam e encaravam fixamente Thomas, quando cruzavam com ele nos corredores, ao vê-lo com a bata branca do laboratório.Os visitantes arregalavam os olhos ao verem um negro dirigindo o laboratório. Mas, no final, o fato que Thomas ser negro, não o impediu. O que importou foi o fato de que Alfred Blalock e Vivien Thomas realizaram feitos históricos que nenhum dos dois faria sozinho.
Juntos planejaram uma operação para salvar os“bebês azuis” – os recém-nascidos com defeito no coração que limitava a oxigenação do sangue – eCooley, era residente quando ocorreu a primeira cirurgia.
Ele lembra a tensão na sala de cirurgia, naquela manhã de novembro de 1944, e como Dr. Blalock reconstruiu o pequeno coração retorcido de um bebê.
Ele recorda como esse bebê mudou a cor de azul para rosa no instante em que o Dr. Blalock removeu as braçadeiras e seus artérias começaram a funcionar. Recorda, também, onde Thomas estava, olhando sobre o ombro direito do Dr. Blalock, respondendo, perguntando e guiando cada movimento.
“Veja”, explica Cooley, “foi Vivien que realizou o trabalho duro no laboratório, em corações de cães, muito antes do Dr. Blalock operar Eileen, o primeiro bebê-azul.
Não existiam ‘especialistas cardíacos’ naquela época. Foi o começo…”
Ouço chamado para Cooley ir realizar mais uma cirurgia. Ele diz que está a caminho para fazer um “tet case” -“Tetralogia de Fallot” -é o defeito congênito do coração que causa a Síndrome do bebê-azul. Dizem que Cooley faz esse cirurgia mais rápido do que qualquer um no mundo, que ele a faz a operação parecer tão simples que nem parece uma cirurgia. “Isso foi o que aprendi com Vivien,” diz, “simplicidade”. Não havia um movimento falso, não havia um movimento desperdiçado, quando ele operava.”
Mas, no mundo médico dos 1940s, que selecionava e treinava homens como Denton Cooley, não havia um lugar para um homem negro com ou sem diploma. Ainda assim, Vivien Thomas criou um lugar para si. Ele foi um professor de cirurgiões em um tempo em que ele não poderia se tornar um. Ele foi um pioneiro cardíaco 30 anos antes de Hopkins abrir suas portas para o primeiro negro residente em cirurgia.
Esses são os fatos que Cooley expôs de forma rápida e eficiente, assim como ele opera.
Persiste o argumento histórico de que a história de Vivien Thomas nunca poderia ter acontecido.

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Fotografia: Dra. Helen B. Taussig, cardiologista pediátrica que pediu ajuda de Blalock e Vivien para curar a bebê azul que deu origem à pesquisa.