Texto principal – Módulo – Cristo – 2018 – Encontro – 1 – Iniciação pelo Sentimento – Pedro

Hoje, estudaremos o caso de Pedro. A extraordinária transformação emocional de um espírito que prova o impacto que o Cristo pode ter em nossas vidas, quando decidimos ser cristão.
Para apresentar tal caso e fugir de repetições que você já conhece, peço que você permita que viajemos para uma época distante. Não para a Galileia rústica e bela, mas para a Jerusalém tumultuada, agitada e perigosa. Pelo menos para os cristãos. O ano? 38 de nosso calendário.

Os seguidores do carpinteiro crucificado eram em torno de 200 pessoas. Pessoas estranhas e pacíficas. Por isso, ninguém os incomodara até que um jovem fariseu, ofendido por não ser tratado com excesso de reverência no templo cristão, decide por um fim aquela pequena e pacífica seita.
Confiscaram propriedades, torturaram e mataram os que se confessavam cristão. Dos líderes cristãos, Estevão foi apedrejado até a morte. Outros espancados e humilhados publicamente. Todos viviam em aterradora insegurança. Ninguém os protegia, a não ser aquele que fora crucificado.
Em uma noite quente começa a nossa história. Um doente, abatido e cansado, bate a porta da casa da comunidade cristã. Magro, com os olhos cansados e tristes, o doente fala seu nome, Saulo. O responsável por toda a perseguição e pelas dores.. Sou Saulo e gostaria de ver Pedro.
Não vamos repetir os fatos belamente narrados na obra Paulo e Estevão. Vamos buscar deles extrair alguma sabedoria ao investigar a personalidade de Pedro.
Como Pedro reage? É nos momentos de medo, de difícil decisão que nos revelamos. O que Pedro revela ao saber que Saulo o procurava? Primeiro o impacto emocional inevitável. Em seguida, enquanto Saulo aguarda uma resposta, Pedro em conversa com João e Thiago.
Em verdade, ele nos fez o mal que pôde; entretanto, não é por nós que devemos temer e sim pela obra do Cristo que nos está confiada. Diz Pedro.
E aqui começamos a investigar essa personalidade fascinante. Após tudo o que aconteceu a atenção de Pedro é com a obra do Cristo. O que significa isso? É como se você acabasse de ter uma pessoa que ama assassinada, familiares espancados e expulsos da cidade e diante do responsável por tudo você perguntasse, como melhor cuidar da obra do Mestre.
Há aqueles que se afastam da obra do Cristo por não terem sido suficientemente bajulados, mas, Pedro, depois de tudo perder, inclusive a vida tranquila na Galileia, indaga: como cuidar melhor dos interesses do Cristo.
Que tipo de pescador é esse? Como um homem simples e ignorante é capaz de tal atitude? Quem é capaz de uma atitude dessa hoje? Não é fácil entender esse homem.
Pedro avisa que depois irá procurar Saulo. Marca uma reunião para discutir o assunto. É nessa reunião que você descobrirá o que significa grandeza espiritual. Você entenderá como funciona a mente dos verdadeiros iniciados. Mergulhemos no psiquismo de Pedro, há luz.
Antes voltemos alguns anos. Saiamos de Jerusalém. Veja o que se passa no lago da Galileia. Pedro está no barco, é noite. Ele e outros discípulos veem um vulto sobre as águas. O pavor toma conta de todos. A situação é tensa. O vulto caminha na direção deles.
Jesus tinha ficado, quem os protegeria? O medo aumenta ao ponto deles começarem a gritar. O vulto se aproxima. Não temais, sou eu, diz Jesus. Alívio geral.
Pedro corajosamente fala, Senhor manda que eu vá até você! Vem! Diz Jesus. Pedro caminho sobre as águas. Mas, ele se assusta com o vento e começa afundar. Senhor me socorre. Jesus o segura. Por que temeste? Indaga o Mestre.
Conto essa história para que você entenda o nível da transformação que se operou na personalidade deste pescador. Ele temia e tinha fé. Ele caminhava e afundava. Agora ele está diferente. Transformado. Voltemos para Jerusalém.
A Reunião
Após ouvir João e Tiago, Pedro se dá conta que já havia se formado dois grupos, um liderados por ele e João, favoráveis a Saulo e outro, liderados pelo apóstolos Tiago e Felipe, que defendiam que não se deveria dar ajuda. Veja que problema. Um problema que envolve a vida de todos! Literalmente, a sobrevivência física. Como Pedro lidaria com isso? Quais eram os principais argumentos de cada grupo?
O argumento contrário ao acolhimento de Saulo é expresso por Nicolau.

— Convenhamos que não é justo esquecer os aleijados que se encontram nesta casa, vítimas da odiosa truculência dos asseclas de Saulo. É das escrituras que se exija cuidado com os lobos que penetram no redil sob a pele das ovelhas. O doutor da Lei, que nos fez tanto mal, sempre deu preferência às grandes expressões espetaculares contra o Evangelho, no Sinédrio. Quem sabe nos prepara atualmente nova armadilha de grande efeito?

Quer dizer, primeiro vejam os aleijados que cuidamos aqui vítimas das torturas ordenados por Saulo. Segundo, é preciso te cuidado com os lobos vestidos em pele de cordeiro, isto é, ele pode estar tramando contra todos nós e uma vez aqui, nos matará a todos. Você há de concordar, é um argumento forte! Até porque junta o medo que quase sempre nos mobiliza com uma argumentação baseada no Evangelho.
Pedro, como um iniciado cristão, sabe que antes a analisar alguém deve lembrar o quanto precisou da generosidade e do quanto precisa da bondade de Jesus.

— Amigos, antes da enunciação de qualquer ponto de vista pessoal, conviria refletirmos na bondade infinita do Mestre.

Após essa evocação sincera e o reconhecimento dos próprios erros. Pedro realiza uma análise extraordinária da simbologia evangélica. Prepare-se. Veremos a intimidade do apóstolo em uma reunião com outros discípulos.

— Nosso irmão acaba de referir-se ao símbolo do lobo que surge no redil com a pele das ovelhas generosas e humildes. Concordo com essa expressão de zelo. Também eu não pude acolher Saulo, quando hoje nos bateu à porta, atento à responsabilidade que me foi confiada.

Pedro identifica o lado bom daquele que e discorda. Isso é importante. Há sempre um grau de bondade, mesmo quando somos maus. É um exercício emocional extraordinário. Você já tentou isso? Ver o lado bom do demônio que pensa diferente de você?

Nada quis decidir sem o vosso concurso. O Mestre nos ensinou que nenhuma obra útil se poderá fazer na Terra sem a cooperação fraternal. Mas, aproveitando o parecer enunciado, examinemos, com sinceridade, o problema imprevisto.

Carinhosamente, Pedro inicia o análise do símbolo. Como? Utilizando-se de mais símbolos!

Em verdade, Jesus recomendou nos acautelássemos contra o fermento dos fariseus, esclarecendo que o discípulo deverá possuir consigo a doçura das pombas e a prudência das serpentes.

 Se você, amigo ou amiga, não está familiarizado com a linguagem dos símbolos, que é uma linguagem superior e criativa, presta atenção: é a linguagem do Cristo e do seu Eu superior. Aqui, no no caso, trata-se de: fermento, pombas, serpentes, lobos e ovelhas. É conversa de gente grande, espíritos iniciados pelo Cristo. Prestemos atenção nestes símbolos milenares.

Convenhamos em que, de fato, Saulo de Tarso possa ser o lobo simbólico. Ainda aí, após esse conhecimento hipotético, teríamos profunda questão a resolver. Se estamos numa tarefa de paz e de amor, que fazer com o lobo, depois da necessária identificação? Matar? Sabemos que isso não entra em nossa linha de conta.
Não seria mais razoável refletir nas possibilidades da domesticação?
Conhecemos homens rudes que conseguem dominar cães ferozes. Onde estaria, pois, o espírito que Jesus nos legou como sagrado patrimônio, se por temores mesquinhos deixássemos de praticar o bem?
A palavra concisa do Apóstolo tivera efeito singular. O próprio Tiago parecia desapontado pelas anteriores reflexões. Em vão Nicolau procurou argumentos novos para formular outras objeções. Observando o pesado silêncio que se fizera, Pedro sentenciou serenamente:
— Desse modo, amigos, proponho convidarmos Barnabé para visitar pessoalmente o doutor de Tarso, em nome desta casa. Ele e Saulo não se conhecem, valorizando-se melhor semelhante oportunidade, porque, ao vê-lo, o moço tarsense nada terá que recordar do seu passado em Jerusalém. Se fosse visitado, pela primeira vez, por um de nós, talvez se perturbasse, julgando nossas palavras como de alguém que lhe fosse pedir contas.
João aplaudiu a ideia calorosamente. Em face do bom-senso que as expressões de Pedro revelavam, Tiago e Filipe mostravam-se satisfeitos e tranquilos. Combinou-se a diligência de Barnabé para o dia seguinte. Aguardariam Saulo de Tarso com interesse. Se, de fato, sua conversão fosse real, tanto melhor.


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Como Pedro se transformou

Pode parecer incrível essa transformação de Pedro. Como um homem ainda impaciente ante os acontecimentos do dia a dia poderia agir com tamanha sabedoria? Milagre? Sabemos que a transformação emocional não acontece em poucas décadas. São necessário muitos séculos para sairmos da imaturidade para a maturidade espiritual. O caso de Pedro, não por ser miraculoso, mas verdadeiro, nos enche de esperança e destaca, ainda mais, a misericórdia de Jesus. É preciso entender.

Primeiro, lembremos as palavras de Pedro, que constam no livro Paulo e Estevão, elas são esclarecedoras e forma dista na reunião que estamos estudando.

— Amigos, antes da enunciação de qualquer ponto de vista pessoal, conviria refletirmos na bondade infinita do Mestre. Nos trabalhos de minha vida, anteriores ao Pentecostes, confesso que as faltas de toda sorte aparecem no meu caminho de homem frágil e pecador.
Não hesitava em apedrejar os mais infelizes e cheguei, mesmo, a advertir o Cristo para fazê-lo! Como sabeis, fui dos que negaram o Senhor na hora extrema. Entretanto, depois que nos chegou o conhecimento pela inspiração celeste, não será justo olvidarmos o Cristo em qualquer iniciativa. Precisamos pensar que, se Saulo de Tarso procura valer-se de semelhantes expedientes para desferir novos golpes nos servidores do Evangelho, então ele é ainda mais desgraçado que antes, quando nos atormentava abertamente. Sendo, pois, um necessitado, de qualquer modo não vejo razões para lhe recusarmos mãos fraternas.

Estaria eu dizendo que o Pentecostes realizou um milagre de transformação emocional, que instantaneamente tornou Pedro maduro? Não.
Sem dúvida, não acreditamos nesse tipo de mudança mágica. Ficamos com a pergunta ainda mais intrigante: como entender a maturidade de Pedro? Não ousaria por mim mesmo dar a resposta, mas no livro Vida e Atos dos Apóstolos, Cairbar Schutel, escrito oito anos antes da publicação de Paulo e Estevão, esclarece.

O trabalho dos apóstolos durante a vida corpórea de Jesus, foi nulo. Só depois de haverem recebido o Espírito, após, a explosão de Pentecostes, é que eles entraram em ação para o desempenho de grande tarefa.
É que o homem, por si mesmo nada pode fazer. Sem o auxílio de Deus, que constitui sua Igreja Triunfante, que paira nas alturas para dirigir à altas regiões e ministrar luzes e forças à Igreja Militante. Pessoa alguma deste mundo, em que ainda predominam as trevas e o desamor, tem poder para fazer ou desfazer, ou guiar as massas à Espiritualidade.

Temos exemplos frisantes desta Verdade, e o próprio Jesus a referendou quando Ele, o maior Espírito que baixou à Terra, disse: “Por Mim mesmo nada posso fazer; é o Pai que faz em Mim as obras que vedes; a minha Palavra não é minha, mas do Pai que me enviou.”
Mas passado o Pentecostes todos os escolhidos pelo Mestre, com exceção de Judas Iscariote que faliu em sua missão, cedendo num momento de fraqueza, às injunções inferiores, todos os demais fizeram o que lhes foi possível para a difusão do grande Ideal a eles outorgado.

Cairbar Schutel. Vida e Atos dos Apóstolos. Capítulo: Os apóstolos de Jesus.

 

Em outras palavras, Pedro foi capaz de agir com tamanha sabedoria por um motivo: a sinceridade de reconhecer sua extrema limitação e a humildade de aceitar as inspirações do Cristo e de Deus.

Eis para mim a grande lição: todos nós devemos cultivar a sinceridade em relação a nossas faltas e aprender a ouvir a inspiração do Cristo. A sabedoria pode habitar em nossos corações e guiar nossas vidas, apesar de sermos espíritos atrasados, se buscarmos o Cristo e seus símbolos.