A Profunda ligação entre Moisés, Cristo e Kardec

A Profunda ligação entre Moisés, Cristo e Kardec

O capítulo primeiro de O Evangelho Segundo o Espiritismo é um dos textos mais importantes para entendermos a posição do Espiritismo no mundo e suas relações com a ciência e com a religião. Nesse breve capítulo, Allan Kardec estabelece a tradição histórico-cultural do Espiritismo; explica como essa tradição é integrada na Doutrina Espírita e quais são as principais críticas do Espiritismo à ciência e à religião de seu tempo, críticas válidas hoje.

O primeiro ponto indiscutível, apesar de frequentemente ignorado, é o vínculo do Espiritismo com Moisés e com o Cristo. Dito de outra forma, é impossível compreender em profundidade o Espiritismo sem compreender os ensinos e as posturas destes dois indivíduos em seu tempo. A ligação do Espiritismo com o Antigo Testamento, em particular, com Moisés, é apresentado na simbologia do cacho de uva, da cepa, colocado no início de O Livro dos Espíritos por ordem dos Espíritos superiores.

Deves colocar no início do livro o ramo da videira que nós desenhamos, porque ele é o símbolo do trabalho do Criador; todos os princípios materiais que melhor podem representar o corpo e o espírito estão nele reunidos: o corpo é o ramo da videira; o espírito é o vinho (1); a alma, que é espírito unido à matéria, é a uva. O Homem purifica o espírito por meio do trabalho, e tu sabes que é somente pelo trabalho do corpo que o espírito adquire conhecimentos.(Traduzimos)

Moisés

Moisés foi o grande libertador do povo judeu, após vencer árdua disputa com o Faraó do Egito, liberta-o da escravidão e inicia uma jornada de quarenta anos no deserto em busca da Terra da Promissão. Durante a caminhada, o grande legislador recebe os Dez Mandamentos, que, segundo Allan Kardec, são de origem divina.

Curiosamente, quando Moisés se aproxima da Terra da Promissão, depara-se com um símbolo inusitado, que se tornaria um dos mais importantes símbolos do Judaísmo e do Cristianismo, esse relato está em Números 13: 17-23. Na primeira expedição à Terra da Promissão, é encontrado um cacho de uvas que, de acordo com a análise simbólica dos Espíritos da Codificação, significa o símbolo do trabalho do Criador. Seria uma “coincidência” termos um cacho de uva desenhado na primeira obra espírita do mundo? Uma coincidência que nos remete a uma tradição de mais de três mil anos… Certamente, não poderíamos afirmar esse vínculo profundo se o próprio Codificador não o fizesse: Foi Moisés quem abriu o caminho, Jesus continuou a obra, e o Espiritismo a arrematará. (Evangelho Segundo o Espiritismo, um Espíritos Israelita).

 

Foi Moisés quem abriu o caminho, Jesus continuou a obra, e o Espiritismo a arrematará.

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Cristo

Em relação ao Cristo, Kardec é radical. Sua reverência ao Mestre é constante em toda a Codificação Espírita. Em O Livro dos Espíritos, a primeira das principais obras espíritas, ensina que Jesus é o maior modelo de conduta da história da humanidade, que

Ele estava animado do Espírito divino e foi o ser mais puro que já apareceu na Terra. (Livro dos Espíritos, questão 625)

Isso significa, na prática, que os ensinos de Jesus são de orientações Deus. O Cristo não é apenas um Espírito superior ou um profeta inspirado pelo mais Alto. É um ser integrado, de forma consciente, com o Criador do universo que orienta suas criaturas por meio dele.

Vamos a um exemplo prático extraído de O Livro dos Médiuns, no Capítulo XIX, item 224. Kardec apresenta um questionamento comum em relação as comunicações mediúnicas: por que os Espíritos não se manifestam de uma forma tão inequívoca que ninguém poderá negar sua existência? O que os Espíritos superiores respondem?

A isso respondem os Espíritos: “Nossa causa não precisa dos que são bastante orgulhosos para se julgarem indispensáveis. Chamamos para nós aqueles que queremos, e que são sempre os mais humildes e pequenos. Jesus fez acaso os milagres que os escribas lhe pediam? E de que homens se serviu para revolucionar o mundo? Se quereis convencer-vos, tendes outros meios que não as exigências. Começai por sujeitar-vos aos fatos: não é normal que o aluno imponha sua vontade ao mestre.”

Quer dizer, fazemos como Jesus fez! Jesus estabeleceu o modelo da comunicação dos Espíritos superiores com a Terra. Dizer que Jesus é o modelo significa que ele direciona com seus ensinos e exemplos todas as ações práticas do Espíritos superiores. O sentido de existir um modelo é ser seguido. Ser cristão não é “ser bonzinho” como se pensa atualmente. É seguir o Cristo na medida de todo possível, inclusive, em seus exemplo que indignação contra a hipocrisia farisaica e a devoção em relação aos que mais sofrem.

Ainda em O Livro dos Médiuns, o Espírito Santo Agostinho, um dos maiores intelectuais da história, no capítulo XXXI, com o subtítulo Sobre o Espiritismo, esclarece:

As bases em que ele se apóia são firmes: o Cristo colocou a sua primeira pedra. Coragem, pois, arquitetos do divino Mestre! Trabalhai, construí e Deus complementará a vossa obra. Mas lembrai-vos que o Cristo não considera seus discípulos os que só têm a caridade nos lábios. Não basta crer, é necessário sobretudo dar o exemplo da bondade, a benevolência e do desinteresse. Sem isso a vossa fé será estéril para vós.

É justo acreditar em uma construção apoiada sem base nenhuma?

Em O Céu e o Inferno, no final do capítulo X, afirma Kardec, item 18,

Sim, o Cristo é o Messias divino e a sua palavra é a da verdade. Sim, a religião fundada sobre a sua palavra será inabalável, mas com a condição de se seguir e praticar os seus sublimes ensinamentos e de não fazer de Deus justo e bom que ele nos deu a conhecer um Deus parcial, vingativo e impiedoso.

Em A Gênese, a última das principais obras espíritas, o Codificador reafirma seu reconhecimento a grandeza da missão de Moisés e a obra do Cristo ao tratar dos caracteres da revelação espírita, no item 10,

O Cristo e Moisés foram os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo e aí está a prova da sua missão divina. Uma obra puramente humana não teria tal poder.

Voltemos ao capítulo primeiro de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec destaca algo muito grave sobre a relação do Cristo com o Espiritismo,

O Espiritismo é obra do Cristo, que Ele mesmo preside, assim como preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o Reino de Deus na Terra.

Surge a pergunta, é possível existir um Espiritismo sem o Cristo? Tanto quanto é possível existir Hamlet sem Shakespeare, o quadro Girassóis sem Van Gogh e Mona Lisa sem Leonardo da Vinci. Ainda mais, o Cristo foi o Espírito que orientou Moisés, como o apóstolo Paulo registra. Depois, o Cristo nasce no mundo e ensina a moral mais elevada que existiu, que será a mesma do Espiritismo. Ensina Kardec na introdução de O Livro dos Espíritos:

A moral dos Espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta máxima evangélica: “Fazer aos outros o que desejamos que os outros nos façam”, ou seja, fazer o bem e não o mal. O homem encontra nesse princípio a regra universal de conduta, mesmo para as menores ações.

Espiritismo sem Cristo seria como afirmar que Miguel de Cervantes teria escrito o famoso livro Dom Quixote de La Mancha, ainda que nem ele, nem seu avô nem seu bisavô tivesse existido! Pois sem o Cristo, Moisés não teria feito o que fez; sem sua encarnação não teríamos a moral cristã e o Espiritismo não existiria sem essa base moral e sem seu dirigente máximo ao qual Allan Kardec que sempre se submeteu como indivíduo e como codificador. Fica a pergunta: por que a ternura e a devoção do Mestre tanto incomoda?

Há um alerta claro, que sintetiza o papel do Cristo no Espiritismo dado por João Evangelista, o apóstolo que escreveu sobre a vinda do Consolador no Novo Testamento, em O Evangelho Segundo o Espiritismo: Ele (o Cristo) foi o iniciador do Espiritismo.

 

O Cristo e Moisés foram os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo e aí está a prova da sua missão divina.

Escultura de Michelangelo, Moisés (1513-1515)

Espiritismo, ciência e religião

O Espiritismo funda um novo modelo de ciência e de religião, por isso, ninguém o entendeu, muito menos os espíritas atuais. Vivemos um debate despropositado para definir o Espiritismo como ciência ou religião e, curiosamente, a maioria dos debatedores não sabem o que é religião nem ciência. Kardec não deixou margens para esse nível de discussão. Precisamos entender que Allan Kardec realiza uma rigorosa e destruidora crítica tanto da ciência quanto da religião de sua época.

Jamais o Espiritismo poderia se integrar a ciência materialista e reducionista do século XIX, que, apesar de todas as críticas, ainda permanece reducionista. Ao contrário, afirma Kardec que a base do Espiritismo é Deus, consequentemente, enquanto a ciência oficial não reconhecer o Criador, permanecerá limitada, incapaz de entender a grandeza da vida. Na verdade, a crítica espírita à ciência é muito mais profunda do que isso. Fénelon, em mensagem selecionada por Kardec e aprovada pelo Espírito Verdade, que revisou atentamente a obra O Evangelho Segundo o Espiritismo, faz uma denúncia devastadora que os estudiosos sérios da ciência entendem.

O Espiritismo é de ordem divina, pois repousa sobre as próprias leis da natureza. E crede que tudo o que é de ordem divina tem um objetivo elevado e útil. Vosso mundo se perdia. A ciência, desenvolvida com o sacrifício dos interesses morais, vos conduzia unicamente ao bem-estar material, revertendo-se em proveito do espírito das trevas.

O que Fénelon nos apresenta, depois dos cientificamente sofisticados campos nazistas, é fácil entender: a ciência do século XIX (e a atual) tornaram-se úteis ao espírito das trevas. Portanto, o Espiritismo é a salvação moral da miserável ciência materialista e de seus seguidores desatentos, inclusive, muitos dos que se afirmam espíritas.

Nos causar espanto ver espíritas, ditos estudiosos, quererem submeter o Espiritismo a uma ciência limitadíssima e que age em proveito das trevas. Por que têm essa atitude? Muito simples, eles não conhecem a origem histórico-espiritual do Espiritismo. Não entendem quem é o Cristo nem leram, com a devida atenção, a mensagem de Fénelon: o Espiritismo é o socorro a uma ciência que se reverte em instrumento das trevas, apesar do bem-estar material que tanto seduz. Devemos nos perguntar, como nos posicionaremos em relação ao Cristo. Seria o estatus social, de parecermos intelectuais, por aprovarmos uma ciência corrompida, mais importante do que nos vincularmos ao Cristo? Ainda não entendemos a diferença entre servir a Deus e ao espírito das trevas?

Kardec não foi menos crítico em relação a religião, na introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, escreve.

Sócrates, como o Cristo, nada escreveu, ou pelo menos nada deixou escrito. Como ele, morreu a morte dos criminosos, vítima do fanatismo, por haver atacado as crenças tradicionais e colocado a verdadeira virtude acima da hipocrisia e da ilusão dos formalismos, ou seja: por haver combatido os preconceitos religiosos.

Kardec é muito claro: os preconceitos religiosos são a hipocrisia e a ilusão dos formalismos. Por isso, um fenômeno paradoxal surpreende o observador atendo do movimento espírita: aqueles que em sua arrogância científica negam a importância do Cristo na constituição do Espiritismo são os mesmos que defendem a ilusão dos formalismos! Copia-se as dimensões da religião criticadas por Kardec e afasta-se a moral cristã definida como a mais elevada pelo Codificador!

Seria fácil iniciar a superação da hipocrisia e dos formalismos em nosso meio. Bastaria seguir as sábias orientações de Kardec que, parece, não despertarem grande interesse. Uma orientação, dada diretamente para os grupos espíritas, é essencial: os grupos espíritas deve ter no máximo 20 participantes. Por quê? quem explica é o próprio codificador no Livro dos Médiuns, capítulo XXIX, item Sociedade (Espíritas) propriamente ditas:

Ora, vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão mais para a divulgação do que uma assembléia de trezentas a quatrocentas pessoas.

Ora, vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão mais para a divulgação do que uma assembléia de trezentas a quatrocentas pessoas.

Continua:

339. Diante da necessidade de evitar toda a causa de perturbação e distração, uma sociedade espírita que se organiza deve pôr toda sua atenção nas medidas destinadas a evitar os fatores de desordem e os motivos de prejuízos, facilitando os meios de afastá-los. As pequenas reuniões necessitam de um regulamento disciplinar bem simples para ordem das sessões. As sociedades regularmente constituídas exigem uma organização mais completa. A melhor será a de sistema menos complicado.

Simples entender: grupos pequenos são simples! Não precisam de grande burocracia, não precisam da ilusão dos formalismos, não precisam de muito dinheiro, a hipocrisia tem um espaço muito menor para atuar, e os falsos intelectuais não tem grande platéia para brilharem… Também não podem alimentar nossas vaidades de nos sentirmos melhores por “nosso centro ser maior”. Por que Kardec tem tanta convicção ao falar da necessidade do tamanho que devem adotar (15 a 20 participantes) os centros espíritas? Porque ele nada mais faz do que aplicar o modelo do Cristo! Não era pequeno o grupo do Cristo? Não eram familiares as primeiras congregações cristãs? Não foram os formalismos religiosos, organizado por grande instituições, que atrairam os ensinos do Cristo? Não é isso que verificamos atualmente em nosso sofrido movimento?

Há dois aspectos da religião: a moral do Cristo, que parece estar em moda negar, ocultar ou reinterpretar e a hipocrisia e a ilusão dos formalismos em alta em nosso movimento. Trai-se o Cristo e Kardec de duas formas: Associa-se o Cristo a hipocrisia e a ilusão dos formalismos para defender o institucionalismo e submete-se às orientações de Kardec a uma ciência inferior que serve as trevas.

O fato é que o institucionalismo espírita com a máscara da seriedade e as orientações “científicas” amordaçam os incautos. Ao invés de educar os espíritas a interagirem com seus anjos guardiões e espíritos amigos em suas residências, como fazia Kardec, proíbem. Tudo apoiado por muitos “estudiosos espíritas” e seus seguidores que não entendem o quanto estão longe de Kardec. Que isso importa? Afinal, busca-se a aprovação social acima da verdade.

Concluímos dizendo, a posição do Espiritismo no mundo foi de solidão. Impedido de se aliar a uma ciência materialista, que se tornara instrumento das trevas; bem como, impossibilitado de comungar com as religiões hipócritas e formalistas; teve que abrir um novo caminho. Consequentemente, Kardec também foi solitário, guardando um tesouro cujo valor quase ninguém poderia compreender.

Hoje, o quadro não mudou. A consequência inevitável é encontrarmos “estudiosos” e instituições ditos espíritas unidos para corrigir Allan Kardec e desprezar o Cristo sem nunca os ter entendidos. Porém, o Cristo, auxiliado por Kardec, continua presidindo o Espiritismo nesse grave momento. Devemos estudar com humildade – e não loucamente querendo corrigir o Cristo e Kardec sem sequer entendê-los. Precisamos orar com sincera devoção e pedir: Senhor, ajuda-me a entender a profundidade de teu amor e a grandeza de teus ensinos, guia-me a uma compreensão mais elevada. Protege-me do mal.

 

Notas

1. A palavra utilizada pelos Espíritos é “Liqueur” que de acordo com o dicionário Larrousse publicado entre no século 19, essa palavra significa o “álcool que é encontrado no vinho e lhe dá força”. Por isso, optamos pela tradução vinho. Outra possível tradução seria a parte alcoólica do vinho, porém pensamos que o sentido mais relevante é vinho dado ser esse o símbolo do sacrifício do Cristo em O Novo Testamento. Fonte: Grand dictionnaire universel du XIXe siècle. Segundo outro dicionário da época – Dicionário da língua Francesa – de Emile Littré, “liquers” é a designação geral para líquido. O líquido da uva é o suco da uva ou vinho.

Bibliografia

KARDEC, Allan. LE LIVRE DES ESPRITS. Editora DIDIER ET Cie.

KARDEC, Allan. O LIVRO DOS ESPÍRITOS. Editora Lake, Tradução: José Herculano Pires

KARDEC, Allan. LIVRO DOS MÉDIUNS. Editora Lake, Tradução: José Herculano Pires

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Editora Lake, Tradução: José Herculano Pires.

KARDEC, Allan. O CÉU E O INFERNO A Justiça Divina Segundo o Espiritismo . Editora Lake, Tradução: José Herculano Pires

KARDEC, Allan. A GÊNESE OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEGUNDO O ESPIRITISMO. Editora Lake, Tradução: José Herculano Pires