A Vida de Yvonne do Amaral

REVISTA REFORMADOR

Apresentamos Dois Textos Autobiográficos de Yvonne do Amaral

Dados biográficos de Yvonne A. Pereira para a Federação Espírita Brasileira. – Revista “O Reformador” – janeiro e fevereiro de 1982

1 – FILIAÇÃO

Nasci a 24/12/1906, após um baile na residência da minha avó materna, num sítio nos arredores da Vila de Santa Teresa, município de Valença, Estado do Rio de Janeiro, hoje cidade de Rio das Flores.
Meus pais eram o então pequeno negociante Manoel José Pereira (filho) e sua esposa Elizabeth do Amaral Pereira.
Tive como avós paternos o ourives Manoel José Pereira e Isabel Guimarães Pereira, e maternos, o Capitão-Médico do Exército, veterano da guerra do Paraguai, Brás Cupertino do Amaral e Francelina Glória do Amaral, ambos da sociedade do Rio de Janeiro, ao tempo do Império.
Por linha paterna certamente que descendo de judeus portugueses, como eram todos os portugueses para aqui emigrados há mais de um século, pois meus tetravós, portugueses de nascimento, assim como meu bisavô, judeus batizados e cristianizados em Portugal, emigraram para o Brasil fugindo às perseguições religiosas ainda lá existente no seu tempo, não obstante já se terem convertidos ao catolicismo por essa época; e também descendo de índio brasileiro da tribo Goitacás, pois que minha bisavó paterna era a índia Goitacás, encontrada perdida nas matas do norte do estado do Rio com a idade de 5 anos presumíveis, durante uma caçada promovida por meu tetravô, rico fazendeiro português no Brasil, o qual, mais tarde, casou-a com o seu próprio filho, isto é o meu bisavô.
Tive 5 irmãos mais moços do que eu sendo mais velho, filho do primeiro matrimônio de minha mãe.

2 – CRIAÇÃO

Meu pai era generoso de coração, muito desinteressado dos bens de fortuna e por essa razão não pode ser bom negociante. Por três vezes foi negociante e arruinou-se, visto que favorecia os fregueses em prejuízo próprio. De negociante, portanto, passou a funcionário o público até a sua desencarnação, verificada em janeiro de 1935.

Fui criada com muita modéstia, mesmo pobreza, conheci dificuldade de todo gênero, coisa que me beneficiou, pois bem cedo alheei-me das vaidades do mundo e aprendi a conformidade com a minha humilde condição social, compreendendo também as necessidades do próximo. Aprendi, assim, com meus pais a servir o próximo mais necessitado do que nós, pois, em nossa casa, eram acolhidas com carinho e respeito, e até hospedadas, pobres criaturas destituídas de recurso e até mesmo mendigos, alguns dos quais foram por eles sustentados durante muito tempo.

Em meu livro “Recordações da Mediunidade” refiro-me a esses atos caridosos de meus pais, hábitos por eles herdados também de seus antepassados.
Até os 10 anos de idade, porém, vivi, principalmente, sob os cuidados de minha avó paterna, em vista das anormalidades experimentadas em minha infância com as reminiscências de minha passada existência, anormalidades que não me permitiram viver na casa paterna devido ao fato de minha mãe, rodeada de outros filhos, não dispor de possibilidades para atender aos meus incomodativos complexos trazidos de outras vidas. A partir de 10 anos habitei com meus pais e vivi em várias localidades do Estado de Minas Gerais, onde acabei de me criar, até que, com as desencarnações de meus pais, verificadas já de volta ao Estado do Rio de Janeiro, nosso lar foi desfeito e passei a viver em companhia de minha irmã casada Amália Pereira Lourenço, com pequenos intervalos, onde, suponho ficarei até a minha desencarnação.

3 – INSTRUÇÃO

Ao contrário do que muitos amigos supuseram a meu respeito, não sou professora diplomada nem fiz outro qualquer curso escolar, a não ser o primário, fato que, para mim, constitui grande provação. Durante minha juventude um funcionário público, como meu pai, não tinha condições financeiras para fornecer nem mesmo um curso normal a um filho, mesmo porque as escolas eram raras no interior do Brasil e por isso não me foi possível aproveitar a vocação por mim trazida do berço para o magistério e a literatura. Mas sempre estudei sozinha, até duas horas da madrugada, e o que pude aprender nessas condições eu aprendi. Aos doze anos de idade e eu já escrevia literatura e tão rápida e facilmente eu fazia que, suponho, se tratava antes de um fenômeno de psicografia. No entanto, aprendi um pouco de música com excelente professor, cheguei a dedilhar o piano, mas não podendo prosseguir com esse estudo por dificuldades invencíveis, fui obrigada a renunciar também a esse ideal. Essa era a minha provação: renunciar sempre, renunciar também ao desejo de estudar. Mas fui muito habilitada em prendas domésticas, como o era a maioria das jovens do meu tempo: bordados, costuras, pintura, flores, crochês, rendas etc. Recebi educação patriarcal, severa, afastada da sociedade sem viver no mundo, aplicada de preferência ao trabalho mental, fato que, se por um lado favoreceu-me, mais tarde, o recolhimento necessário à tarefa mediúnica, por outro lado prejudicou-me, pois tornei-me excessivamente tímida, triste, dificultando-me a luta pela vida quando, ao perder meus pais, necessitei trabalhar para viver, numa cidade como o Rio de Janeiro. Trabalhei numa casa de modas durante algum tempo, mas jamais me adaptei aos ambientes que tinha de suportar e preferi trabalhar em casa, por minha própria conta.

4 – INSTRUÇÃO RELIGIOSA

Nasci em ambiente espírita, por assim dizer, e por isso nunca tive outra crença se não a espírita. Meu pai tornou-se espírita, embora não militante desde antes do meu nascimento, tanto assim que, logo nos primeiros dias de minha vida terrena, ele perguntou, irreverentemente a um médium do seu conhecimento:
_ “Pergunta aos espíritos quem foi essa menina em outra existência…” – o que revela que, já naquele tempo, havia a curiosidade, ou a pretensão de sabermos o que fomos em outras épocas.
O médium concentrou-se respondeu, após alguns minutos:
– “Ela teve uma existência em que foi em que foi camponesa na Bélgica…
Seu passado foi tumultuoso … “ – o que mais tarde os acontecimentos confirmaram.
Recebi, portanto, de meu próprio pai as primeiras lições de doutrina e prática de Espiritismo e Evangelho. Ele fazia, já naquele tempo, reuniões de estudos doutrinários com os filhos, semanalmente, o que a todos nós solidificou na Doutrina Espírita. Tive professoras católicas, e até frequentei o catecismo, mas não acatei o ensinamento católico, embora sempre respeitasse a igreja, como respeitei todas as religiões.
Ao completar os 12 anos de idade, meu pai pôs em minha mão “O Evangelho Segundo o Espiritismo” e “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, os quais me acompanharam na travessia da vida e que estudo até agora, sem jamais me cansar da sua leitura. São esses os meus livros preferidos de toda a bibliografia espírita a par de “O livro dos Médiuns”. Aliás, eu sempre acatei e venerei, mesmo toda a obra da Codificação Espírita. Aos 13 anos comecei a assistir as sessões práticas de Espiritismo as quais muito me encantavam, pois eu via os Espíritos se comunicarem, inclusive Bezerra de Menezes, e demais assistentes espirituais. Fiz assim um grande aprendizado de prática espírita desde a adolescência, o qual muito tem valido aos meus variados desempenhos na seara espírita.

5 – Mediunidade

A mediunidade apresentou-se em minha vida ainda na infância, conforme relato em o livro “Recordações da Mediunidade”. Com um mês de idade, ia sendo enterrada viva devido a um fenômeno de catalepsia “morte aparente”, que sofri, fenômeno que no decorrer de minha existência repetiu-se muitas vezes. Aos 5 anos eu já via os espíritos e com eles falava, e assim continuei até os dias presentes. Nunca desenvolvi a mediunidade, ela apresentou-se por si mesma, naturalmente, sem que eu me preocupasse em atraí-la, pois, em verdade não há necessidade em se desenvolver a faculdade mediúnica, ela se apresentará sozinha, se realmente existir e se formos dedicados às operosidades espíritas.
A primeira vez em que me sentei em uma mesa de sessão prática, recebi uma comunicação do espírito Roberto de Canalejas, tratando de suicídio, Espírito que me aparecia e comigo falava desde minha primeira infância. Antes, porém, já eu me desdobrava em corpo espiritual, pois também essa faculdade apresentou se na infância.
Como médium psicógrafo trabalhei a vida inteira, desde 1926 até 1980, como receitista, assistida por entidades de grande elevação, como Bezerra de Menezes, Bittencourt Sampaio, Augusto Silva, Charles, Roberto de Canalejas e outros cujos nomes nunca soube. Fui e até hoje sou médium conselheiro (ver “O livro dos Médiuns”, classificação dos médiuns) psico-analista e passista, assistida pelos mesmos Espíritos.
Como médium de incorporação não fui da classe de sonambúlicos, mas falante (ver “O Livro dos Médiuns”) e tive especialidade para os casos de obsessão e suicídios, e um longo trabalho sendo exercido nesse setor.
Fui igualmente médium de feitos físicos (materializações) e cheguei a realizar algumas materializações à revelia da minha vontade, naturalmente, sem a desejar, durante sessões do gênero a que eu assistia, em plena assistência, isto é, sem cabina ou outra qualquer formalidade. Eram luminosas essas materializações. Mas não cheguei a me interessar por esse gênero de fenômeno, nunca apreciei e não cultivei, mesmo a conselho de Bezerra de Menezes e Charles, que não viam necessidade de me dedicar a tal setor da mediunidade.
No entanto, minhas outras faculdades foram cultivadas com muito amor, perseverança e respeito, tendo eu seguido fielmente as prescrições de “O Livro dos Médiuns”, sem nunca sofrer decepções ao obedecê-las. Segui sempre as orientações dos livros básicos e dos próprios Guias que por mim velavam, e, observei orientações do eminente espírita Zico Horta, de Barra Mansa que me guiou, no meu início, com grande critério e espírito de fraternidade. Desde o ano de 1926 exerço a mediunidade sem desfalecimentos e, pode-se mesmo dizer que a minha maior tarefa no campo espírita foi através da mediunidade, principalmente no setor de receituário e passes para curas, que pratico há 54 anos. Fui também médium orador. Falei na tribuna espírita assistida pelos mentores espirituais do ano de 1927 ao ano de 1971, 44 anos, portanto, só abandonando esse setor por ordem dos mesmos Guias Espirituais. No entanto, nunca viajei para esse serviço. Falava apenas nas localidades onde residia. Pratiquei também a literatura mediúnica em livros, crônicas, contos etc., mas jamais em mensagens. Estas somente me era concedida para conselhos orientações pessoais àqueles que me procuravam. Colaborei em vários jornais do interior do país e também em “Reformador” órgão da Federação Espírita Brasileira, sob o pseudônimo de “Frederico Francisco” em homenagem ao meu caro amigo espiritual Frederico Francisco Chopin.

6 – CURAS
Durante 54 anos e meio pratiquei curas espíritas através do receituário homeopata e passes e até através de preces. Consegui, muitas vezes, cura em obsidiados com certa facilidade, coadjuvada por companheiros afins. Senti sempre um grande amor pelos espíritos obsessores e sempre os tive como amigos. Fui correspondida por eles e nunca me prejudicaram. Curava obsessões, porém, se Deus o permitia, não só no recinto do centro espíritas, em seções organizadas, mas também em serviços de passes, em gabinetes apropriados, servindo-me de médiuns auxiliares, e até na residência dos próprios doentes. Conservei-me sempre espírita e médium muito independente, jamais consenti que a direção nos núcleos onde trabalhei bitolasse e burocratizasse as minhas faculdades mediúnicas. Consagrei-a aos serviços de Jesus e apenas obedecia, irrestritamente à igreja do Alto, e com ela exercia a caridade a qualquer dia e hora em que fosse procurada pelos sofredores. Para isso, aprofundei no estudo severo da Doutrina, a fim de conhecer o terreno em que caminhava e conservar com razão a minha Independência. No entanto, observei a rigor o critério e os horários fixados pelos poucos centros onde servi, mas jamais me submeti à burocracia mantida por alguns. Se não me permitiam atender necessitado no centro, por isso ou por aquilo, em determinados dias, e os atendia em qualquer outra parte, fosse na minha residência ou na deles, e assim consegui curas significativas, pois aprendi com o Evangelho e a Doutrina Espírita que não há hora nem dia para se exercer o bem.
Diariamente mantinha um significativo trabalho de passes e irradiações beneficentes onde quer que residisse. Eram verdadeiras sessões, que eu realizava a sós com Deus e os meus Guias, durante as quais orava pelos desencarnados e lia trechos da Doutrina Espírita ou de Evangelho oferecidos aos mesmos, pedindo a Jesus que os fizesse ouvi-los e co-participar de minhas preces. Muitas vezes via-me rodeada dessas entidades durante esse trabalho, via-as reconfortadas e satisfeitas, e assim consegui dilatar o meu coração em um grande amor por todas elas. Incluo nesse número muitos obsessores, e sei que ao desencarnar, grande número de amigos me espera no Além a fim de, por sua vez me ajudarem também. Orava ainda pelos sofredores encarnados, pelos amigos etc., e após pedia as consultas e receituário solicitados por outrem, depois do que sobrevinham os trabalhos psicográficos de literatura. E isso eu fazia desde o ano de 1926, nos centros e, preferencialmente sozinha, em minha residência, até a madrugada. Foram horas de intensa felicidade, as únicas horas felizes que, em verdade, conheci durante as quais o mundo espiritual se abria para mim e se me revelava; eu convivia com os Espírito e com eles me instruía, trabalhava e progredia. Com esse trabalho, silencioso, ignorado, humilde, consegui curar doentes do corpo e da alma, orientar médiuns e centros espíritas, reconciliar cônjuges desajustados, reequilibrar lares desarmonizados, consolar corações, evitar suicídios e até esclarecer espíritos sofredores. E tenho certeza que Jesus abençoava os meus esforços para acertar, porque assim me revelava a assistência espiritual benéfica de que sempre desfrutei e a paz de consciência que me consolava. Esse trabalho poderia ter sido realizado em centros espíritas. Mas a burocracia e o formalismo impediam-mo. Então, realizei sozinha com os companheiros do mundo invisível, que não usa formalismo nem burocracia.

Meu trabalho foi sempre diário, qualquer que fosse. E nunca me decepcionei, sentia-me sempre preparada para exercê-lo.
Trabalhei como médium no “Centro Espírita de Lavras” (mais tarde “Centro Espírita Augusto Silva”), da cidade de Lavras, em Minas Gerais; no “Grêmio Espírita de Beneficência”, de Barra do Piraí, Estado do Rio de Janeiro, na “Casa Espírita” de Juiz de Fora, em Minas Gerais durante longo tempo; no “Centro Espírita Luiz Gonzaga”, durante dois anos, de Pedro Leopoldo, onde servi no gabinete de passes ao lado do dedicado espírita José de Paula; na “União Espírita Suburbana” do Rio de Janeiro, antiga Guanabara. Servi ainda no Ambulatório Médico anexo a esta última instituição, dirigida pelo Dr. Otávio Fernandes, onde me encarreguei da parte psíquica sofrida pelos doentes, serviço esse absolutamente gratuito, quer da parte do médico, quer da minha parte.
As curas que consegui foram realizadas com simplicidade, sem formalismo nem inovações na prática espírita. Fui sempre avessa à propaganda dos meus próprios trabalhos e jamais aceitei as homenagens que me quiseram prestar.

Em certa época da minha vida, no Rio de Janeiro, morei sozinha em um pequeno apartamento, no bairro Lins de Vasconcelos, acompanhada apenas de uma amiga. Havia oferecido minha colaboração espírita e mediúnica a alguns centros espíritas. Não fui aceita por nenhum. A burocracia repelia-me. Então, organizei um “Posto Mediúnico” em minha residência, provi-o de medicamentos homeopatas, à minha própria custa, e trabalhei sozinha, fazendo ainda o culto do Evangelho diariamente, a sós com os Guias, porque a companheira não admitia o Espiritismo. Tirava receitas pela manhã e fornecia remédios, mesmo alopatas, gratuitamente, aplicava injeções em doentes pobres, costurava para eles e nada cobrava. Era o que eu podia fazer sozinha. Durante 8 anos realizei esse trabalho, atendi a favelados, pois residia próximo a uma favela, fazia passes e assim conseguir curar e ajudar alguns. Estabeleci aulinhas de costura e bordados a moças e meninos que nada sabiam, gratuitamente, e consegui levantar a crença em Deus em alguns corações. Foram 8 anos de provações e testemunhos terríveis, que pude vencer graças ao amparo da Doutrina. No fim desse período mudei-me para a companhia de minha irmã Amália e dediquei-me, de preferência, a produção dos livros do doutrinário que obtive do Alto, por ordenação dos Guias Espirituais. Era o ano de 1952.

7 – ENCARGOS

No “Centro Espírita de Lavras”, o primeiro onde exercia atividades de grande responsabilidade, ainda muito jovem pertenci, à sua diretoria como secretária. E fui também chefe do “Posto Mediúnico” para assistência espiritual aos necessitados, isto é, o médium responsável pelo intercâmbio espiritual de receituário e curas em geral, enquanto lá permaneci num período de 6 anos. O centro era paupérrimo, havia apenas 6 sócios e 2000 mil réis mensais (atualmente não há expressão para essa quantia), não obstante o excelente prédio construído pela então seu presidente, Coronel Cristiano José de Souza.
Muitos doentes necessitados nos procuravam, rogando socorro. Seria preciso, pois, obter medicamentos, mas não havia dinheiro para comprá-los. Tratávamos apenas com água fluidificada e passes. Escrevi então uma carta ao Sr. Frederico Figner, um dos diretores da Federação Espírita Brasileira, pela época, e então famoso pela sua ação benéfica no Espiritismo; expus nossa angustiosa situação e pedi auxílio em remédios homeopatas para os nossos doentes. Por intermédio do senhor Fígner, a Federação Espírita Brasileira então nos forneceu 60 vidros de homeopatia de 60g durante 6 meses. Só Deus sabe as grandes curas que esses 60 vidros mensais de remédio fizeram. No fim desse tempo, tendo o centro conseguido sócios e dinheiro e caixa, assim como generosos donativos agradecemos o auxílio da Casa-Mater e o suspendemos. Ficara fundado o setor de Assistência aos Necessitados com o trabalho mediúnico. Esse trabalho prestou excelentes serviços, mesmo depois de minha retirada daquela cidade, e da desencarnação dos meus amigos companheiros, durante muitos anos. Ultimamente, porém, foi extinto, dando lugar a outras atividades. E relacionei o Centro com outras entidades espíritas espalhadas pelo Brasil, aderindo-o, ainda, à Federação Espírita Brasileira, como de praxe pela época. Em Juiz de Fora (Minas Gerais) fui secretária, bibliotecária e vice-presidente da “Casa Espírita”, e colaboradora na “Fundação João de Freitas”, dependência daquela Casa. Criei na “Casa Espírita”, a “Biblioteca James Jansen”, a qual não sei se persiste ainda hoje naquele núcleo espírita. Ensinei trabalhos manuais no antigo “Instituto Profissional Eugênia Braga”, para moças, gratuitamente, dependência da “Casa Espírita”; ao lado de Alli Halfeld, um dos mais eminentes espíritas que conheci, colaborei na “Fundação João de Freitas” evangelizando crianças e expondo pontos doutrinários nas reuniões de domingos, ao lado de outras dedicados companheiros.
Na localidade de Coronel Pacheco, distrito de Rio Novo (Fazenda Experimental do Governo Federal), trabalhei sozinha, como mais tarde o faria no Rio de Janeiro, principalmente no setor de assistência social, juntamente com minha irmã Amália.
Em Barra do Piraí (Estado do Rio) fui médium receitista no “Grêmio Espírita de Beneficência” ensinando também a moral cristã às crianças no “Colégio Ismael”, dependência daquele Grêmio, e expositora de “O Livro dos Espíritos” às segundas-feiras, e, às sextas de Evangelho. E pertenci a um grupo de senhoras que cuidava de assistência social sob os auspícios do mesmo Grêmio, colaborando do melhor modo que era possível. Nunca dirigi instituição nenhuma de qualquer natureza quando era solicitada para isso, pois não me reconhecia apta a fazê-lo, mas ajudei sempre a muitas, consoante minhas forças.

Dados biográficos de Yvonne A. Pereira para a Federação Espírita Brasileira. Páginas 61 a 65 – Revista “O Reformador” – fevereiro de 1982

8 — LITERATURA

Desde minha infância dediquei-me ao estudo e à boa leitura. Lia tudo que me viesse à mão, geralmente leituras aproveitáveis. E assim muito aprendi. Leitura infantil que me foi grata apenas a revista ”O Tico-Tico”, que me despertou o gosto pela literatura, e o romance “Robinson Crusoé”. O fato, pois, de não ter cursado nem mesmo a Escola Normal foi, certamente, provação, com a qual me demorei a conformar. Entretanto, desde a infância apreciei a literatura e a ela me entreguei.
Aprendi a ler muito cedo e também muito cedo comecei a ler romances. Aos 8 anos li o primeiro romance: era “Marieta e EstreIa”, romance espírita, clássico, com um trecho desenrolado na Espanha. Não compreendi a sua literatura, que é muito fina, mas a técnica espírita nele desenrolada eu compreendi perfeitamente. Daí em diante pus-me a ler outros, profanos, tais como “A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães; “Iracema” e “Ubirajara”, de José de Alencar; “Elzira”, de cujo autor já não me lembro; “Paulo e Virgínia”, de Bernardin de Saint-Pierre etc., e mais tarde livros espíritas e outros profanos, como o “Werther”, de Goethe, que li aos 14 anos, e “Eurico, o Presbítero”, de Alexandre Herculano, na mesma época. Porque fossem livros emprestados de outrem, eu os copiava todos, a mão, em cadernos de papel manilha, que eu mesma fazia, e os lia de vez em quando. Minha mãe fechava os olhos a essa mania. Meu pai nunca soube, pois tudo isso eu ocultava dele, visto que ele não concordava em que eu lesse romances, devido a minha pouca idade.
Mas esse exercício foi excelente para mim, aprendi muito, tomei gosto pela literatura e aos 12 anos já escrevia contos e pequenos poemas em prosa, certamente mediúnicos, pois os escrevia rapidamente, vendo a meu lado o vulto espiritual que desde muito eu conhecia: Roberto de Canalejas.

Desde então não parei de escrever, até hoje. Estou certa, porém, de que tudo quanto escrevi foi mediúnico, ou, pelo menos, inspiração espiritual. Aos 16 anos eu já lera até mesmo obras de criminologia popular, assunto de que sempre gostei, de Conan Doyle, e outros assuntos fortes. Nunca me prejudicaram e muito aprendi em todas essas leituras que fazia.
Muitos dos meus escritos literários, todos traindo sabor espírita, foram perdidos, depois de publicados em jornais. Eu era muito jovem e não tinha o cuidado de arquivá-los. Estes jornais eram: “A Tribuna”, de Lavras; Cruzeiro”, da cidade de Cruzeiro, Estado de São Paulo; “A Coluna”, de Campo Belo, Estado de Minas Gerais; “Brasil Jornal” e “Jornal do Povo”, de Barra do Piraí, e um jornal de Juiz de Fora cujo nome, se me não engano, era “Jornal do Comércio”, todos profanos.
Em dois deles, de Barra do Piraí, eu tinha mesmo seções a meu cargo. Colaborei também em ”O Clarim”, de Matão, ao tempo de Caírbar Schutel, de quem fui grande amiga; em “Luz e Verdade”, de Lavras, que os adversários do Espiritismo chamavam “Trevas e Mentiras” jornal doutrinário espírita fundado por mim mesma e mais três amigos espíritas: Eduardo Gomes Teixeira Coelho, Antenor Barbosa e João Barbosa, o último ainda encarnado e vivendo em Belo Horizonte, e, conforme já disse, em “Reformador” órgão oficial da Federação Espírita Brasileira.
Ainda em minha primeira juventude recebi ordem espiritual para me submeter ao Espírito Camilo Castelo Branco e receber dele um tratado sobre suicídio. Eu trouxera essa incumbência ao reencarnar, pois que também eu fora suicida e necessitava resgatar a falta. E assim escrevi “Memórias de um Suicida”, em 1926, só publicado, em primeira edição, 30 anos depois, isto é, em princípios de 1956. Além desse, recebi também: “Nas Telas do Infinito”, de Bezerra de Menezes e Camilo Castelo Branco; “Amor e ódio”, do Espírito Charles – meu pai da anterior existência – onde também o suicídio e suas consequências desastrosas para a criatura são expostos; “A Tragédia de Santa Maria”, romance brasileiro, de Bezerra de Menezes; “Nas Voragens do Pecado”, de Charles; ‘Devassando o Invisível”, assistência do Charles e supervisão de Bezerra de Menezes; “Ressurreição e Vida”, de Léon Tolstoi; ‘Dramas da Obsessão”, de Bezerra de Menezes; “Recordações da Mediunidade”, assistência e supervisão de Bezerra de Menezes; ‘ ‘A Família Espírita, “Evangelho aos Simples”, “A Lei de Deus”, “Contos amigos” e “Livro de Eneida”, supervisão de Bezerra de Menezes e assistência de Charles e Léon Tolstoi; “O Drama da Bretanha” e “O Cavaleiro de Numiers”, de Charles, e “Sublimação”, de Léon Tolstoi e Charles, e ainda “Pontos Doutrinários”, coletânea de crônicas publicadas em “Reformador”. Ao todo, 18 livros, os quais poderão ser desdobrados para 21 volumes se levarmos em conta que alguns desses trabalhos comportam duas obras distintas, que poderiam ser publicadas separadamente.
A fim de receber esses livros, os romances principalmente, e também “Memórias de um Suicida”, seus autores espirituais retiravam meu espírito do corpo material.
Levavam-me com eles para o Além ou para o país em que se desenrolaria a ação: Portugal, Espanha, França, Alemanha, Rússia e também alguns ambientes do Mundo Invisível. Conheci, assim, algumas paisagens do Mundo Espiritual e países estrangeiros terrenos, onde a ação romântica se desenrolava, em diferentes épocas e séculos.

Nesses locais, eu assistia à peça a ser escrita pelos autores espirituais, com todos os detalhes, sentia as emoções de todas as personagens, contemplava colorações belíssimas, via-me em todas as cenas, mas nada fazia ou dizia, e ouvia uma voz desconhecida a narrar o drama com uma precisão e um encanto indescritíveis, mas sem ver o narrador, e ouvia ainda tudo quanto diziam as suas personagens. Assisti, dessa forma, à célebre “Matança dos Huguenotes”, na França, no ano de 1572, com detalhes inimagináveis por todos nós. Assisti a cenas da Inquisição de Portugal, no século XVI. Visitei castelos medievais e da Renascença. Penetrei o Palácio do Louvre, em Paris, como ele devia ser ao tempo de Catarina de Médicis. Perlustrei os gelos da Rússia, conheci a vida dos seus camponeses e o esplendor da nobreza ali existente durante o Império. Conheci antros de miséria e dor de toda parte. Penetrei regiões sombrias do astral inferior e ambiências consoladoras do astral intermediário etc., etc. Posso dizer que o Além-Túmulo se assemelha à nossa Terra, porém, mais belo nas regiões intermediárias e boas. Nestas tudo é agradável e belo, e artístico.
Convivi, finalmente, com meus Guias Espirituais, como se eu fora também desencarnada, ou quase isso, e revi muitos trechos do passado histórico citados em meus livros, como se tratasse do presente. Depois de todas essas visões os autores espirituais dos livros mostrados voltavam e os escreviam, e eu os transmitia com grande facilidade, porque já conhecia o enredo e os detalhes.
Foram ocasiões de intensa felicidade para o meu espírito, e posso afirmar também que todos esses romances contêm grande parcela de realidade, não são ficções, suas personagens existiram com outros nomes, apenas neles há o ornamento literário e nomes fictícios, ao mais das vezes, alguns deles, porém, sendo reais. Em toda a minha vida vivi mais da vida mental-espiritual do que da vida terrena, pois até mesmo me lembrava de muitos fatos de minha existência passada, inclusive daquele que fora o meu pai de então, e a tal ponto eu lembrava esse particular que demorei a reconhecer, em meu pai da atualidade, o meu verdadeiro pai. Para mim, o pai que eu amava e respeitava, o verdadeiro pai, era aquele que via em Espírito, junto a mim, e do qual me recordava, ou seja, Charles, atualmente desencarnado e meu Espírito familiar desde o berço.
Não obstante, nunca fui fanática nem “beata”, mantive-me sempre, mercê de Deus, natural e vigilante, sem excesso de qualquer natureza. Fui, ao contrário, exigente e desconfiada no que concerne a fatos espíritas, nada aceitando à primeira vista.
Mediunicamente, tive facilidade em obter esses livros. Possuía assistência poderosa e constante dos Guias Espirituais. De Outro modo, minha mediunidade, classificada como ”positiva”, com a “especialidade literária”, em “O Livro dos Médiuns”, prestava-se ao certame.
Mas sofri todos os empecilhos e provações terrenos, até que pudesse conseguir cumprir a tarefa, que foi antes um resgate do que missão. Sofri ao máximo situações anormais. Às vezes, não tinha mesmo um local para poder escrever, fazia-o sobre um caixote, à luz de vela ou de lampião a querosene. Mas perseverei, jamais me dei por vencida, e venci.
Notifico aqui minha gratidão por minha irmã Amália, meu cunhado César e minha tia Ernestina, que muito me facilitaram os meios, em sua casa, para que eu pudesse livremente desempenhar minha tarefa mediúnica literária, resgatando faltas passadas.
Ao escrever estas linhas (dia 30 de julho de 1973), estou certa de que não mais escreverei literatura espírita. Meu compromisso com o Alto, nesse particular, está cumprido. Há 47 anos que exerço a mediunidade ativamente. Ela, a mediunidade, amparou-me a vida inteira. Deu-me consolo nas provações, alegria quando tudo me faltava neste mundo, salvou-me das atrações mundanas, quando as tentações afluíam ao meu redor, conservando-me voltada para Deus; instruiu-me, dignificou-me, aclarou-me o caminho do progresso, deu-me a conhecer a felicidade que nos aguarda depois do dever cumprido, e as únicas horas felizes que conheci neste mundo provieram da sua prática. Através dela, alarguei o meu campo de fraternidade para com o próximo. Fiz dos inimigos do passado amigos para a eternidade; de obsessores, a quem pude servir com ela, fiz afeições imorredouras para o coração; fiz dos sofredores encarnados e desencarnados, a quem assistia e visitava, irmãos queridos que me ajudaram com suas preces.

Jamais conheci decepções com minha mediunidade. Amei-a sempre, respeitei-a e guiei-a sob o critério insuperável da Codificação Espírita, realizada por AIIan Kardec.
Para mim, portanto, a mediunidade foi o meio de reabilitação de faltas contraídas no passado reencarnatório, foi a misericórdia de Deus mostrando-me o caminho da redenção.

9 — CORRESPONDÊNCIA

Sempre gostei de escrever. Escrevia por qualquer motivo. Ora, um dos mais gratos trabalhos que exerci à luz do Espiritismo foi através de cartas. Sólidas amizades criei e mantive, a distância, escrevendo e recebendo cartas. Estas eram, geralmente, doutrinárias, mas fraternas e amigas, quer de parte dos correspondentes, quer de minha parte, mas não cheguei a conhecer pessoalmente a maior parte dos meus correspondentes.
Jamais deixei de responder a uma carta que recebesse, e eram muitas, a não ser que o correspondente se excedesse, exigindo de minha mediunidade investigações pessoais que os códigos doutrinários e o senso da razão não permitiam.

Mesmo assim, muitas vezes, a essas impertinências eu respondia esclarecendo sobre as inconveniências de certas indagações aos Espíritos, que poderiam redundar em mistificações e, portanto, em alquebramento da própria mediunidade.
Orientações doutrinárias, conselhos para a solução de problemas pessoais, esclarecimentos para o bom uso da mediunidade — às vezes, para isso, recorrendo aos amigos espirituais é trabalho que mantenho há vinte e cinco anos, desde que saiu a público o meu primeiro livro mediúnico. Mantive correspondência doutrinária mesmo com sacerdotes católicos, os quais, não raro, recorriam a mim para a compreensão e solução de problemas, muitas vezes dolorosos, de seus paroquianos. Esses sacerdotes eram espíritas convictos, conhecedores da Doutrina Espírita. Mantiveram-se irmãos distintíssimos, dignos da minha estima e do meu apreço. Esse trabalho de correspondência foi dos mais gratos que desempenhei, trabalho que dilatou o círculo de minhas relações de amizade, o que muito confortou o meu coração sempre dentro de afetos e expansões.

10 — ESPERANTO

Meu trabalho de correspondência expandiu-se ainda através do idioma universal — o Esperanto.
Fui esperantista sincera e trabalhei por sua propaganda, segundo minhas possibilidades, ou seja, através da própria mediunidade.
Estudei essa admirável língua sem, contudo, dedicar-me a ela devidamente, pois minhas tarefas mediúnicas não me permitiam realizar um curso completo da mesma.
Não obstante, correspondi-me com um esperantista da Polônia – alma dedicada, a quem muito me afeiçoei — e com outro da Tchecoslováquia. E como o espírita jamais perde tempo em tratar dos “negócios do Senhor”, através dessas cartas consegui harmonizar o lar conjugal do primeiro, prestes a se desbaratar, e reconfortar a vida e o coração do mesmo correspondente, e solidificar a crença espírita do segundo, orientando-o no assunto, enviando-lhe livros de Allan Kardec em Esperanto e até mesmo ensinando-o a realizar o ‘ ‘Culto do Evangelho no Lar”, em Esperanto, pois esse irmão, de 65 anos de idade, e que fora materialista até então, agora sentia necessidade de se voltar para Deus, mas só desejava fazê-lo através do Evangelho e do Espiritismo.
A ambos esses amigos dediquei um afeto todo especial, como de reminiscências do passado espiritual, o que muito confortou o meu coração.

11 FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA

Amei e respeitei a Casa-Máter do Espiritismo no Brasil desde a minha infância, guiada por meu pai, que igualmente a amava e respeitava. A ela submeti-me mais tarde, aconselhada por meus amados Guias Espirituais Bezerra de Menezes e Charles. Diziam-me, mesmo, as duas entidades: “Somente à Federação Espírita Brasileira confia as tuas produções literárias mediúnicas. Se, um dia, alguma delas for rejeitada, submete-te: Guarda-a, a fim de refazê-la mais tarde, ou destrua-a. Mas, não a confies a outrem.”
Essa foi a razão pela qual nunca doei nenhum livro por mim recebido às editoras que me solicitaram publicações. Os Espíritos guiavam-me nos menores como nos maiores feitos de minha vida. E a eles eu sempre me submetia. Falavam-me diretamente, sem escreverem, sem transe mediúnico. A mediunidade foi um fato natural comum em minha vida.
A primeira vez que visitei a FEB, levando uma obra mediúnica, esta não foi recebida, nem mesmo lida. Foi pelo ano de 1944, e quem me recebeu, no topo da escadaria principal, foi a Sr. Manuel Quintão, na época um dos seus diretores e examinadores das obras literárias a ela confiadas.
Quando expliquei que levava dois livros ao exame da Federação (eram eles “Memórias de um Suicída” e “Amor e ódio”), aquele senhor cortou-me a palavra, dizendo;
— Não, não, não, não! Aqui só entram livros mediúnicos de Chico Xavier. Estou muito ocupado, tenho duzentos livros para examinar e traduzir e não disponho de tempo para mais…
E voltou a conversar com o Dr. Carlos Imbassahy, com quem falava à minha chegada.
Eu, bisonha, provinciana, recém-chegada ao Rio de Janeiro, choquei-me, atemorizada. Dr. Carlos a quem eu já conhecia e que lera duas obras minhas, interveio:
— Li uma dessas obras, que a moça citou (“Amor e ódio”). E obra boa. Assim como os livros de Zilda Gama são bem recebidos pelo público, os desta médium também deverão ser…

Mas o Sr. Quintão não respondeu a essa informação conciliatória e continuou a conversar com o seu amigo.
Retirei-me sem me agastar. Eu reconhecia a minha incapacidade e não insisti. Aliás, eu mesma não soubera compreender o enredo de “Memórias de um Suicida”, acreditava tratar-se de uma grande mistificação, e silenciei. Em chegando à minha residência, tomei de uma caixa de fósforos e dos originais dos dois livros e dirigi-me ao quintal, a fim de queimá-las, pois nem mesmo tinha um local conveniente para guardá-los.
Mas, ao riscar o fósforo e aproximar as páginas da chama vi, de súbito, o braço e a mão de um homem, transparentes e levemente azulados, estendidos como protegendo as páginas, e uma voz assustada, dizendo-me ao ouvido:
– Espera. Guarda-os!
De quem seria essa voz?
Meu coração reconheceu-a, como sendo vibrações de Bezerra de Menezes.
Obedeci, tornei a guardar os originais, esperei.

Advieram-me, em seguida, terríveis provações e testemunhos pungentes, sofri, lutei penosamente, dei todos os testemunhos que a Lei de Deus exigiu de minhas forças. Certa manhã, porém, após as preces e o receituário que eu fazia em meu humilde domicílio, para os necessitados que me procuravam, apresentou-se Léon Denis dizendo:
— Vamos refazer o livro sobre o suicídio. Ele está incompleto, não poderá ser publicado como está.
— Está bem — respondi. — começá-lo-ei na próxima semana, vou-me preparar.
— Não! Vamos começá-la hoje, agora, neste momento!
Então, compreendi que o Sr. Quintão fora inspirado pelos amigos espirituais para não me receber quando o procurei na Federação, porque se aquele livro fosse lido por aquela ocasião, seria irremediavelmente rejeitado. Camilo, o seu autor espiritual, não a completara devidamente, não lhe dera aquela feição doutrinária necessária, feição que, então, Léon Denis lhe deu.
Uma vez terminada a revisão da Obra, voltei Federação, a qual eu frequentava semanalmente e me demorava em palestra doutrinária com o Capitão Paiva, então diretor da Assistência aos Necessitados, sem contudo me referir ao caso dos livros. Fui paternalmente recebida por ele, como sempre. Expliquei-lhe o que se passava e pedi-lhe conselhos. Ele interessou-se, recomendou-me ao Dr. Wantuil Freitas, que era o presidente da Federação na época. Fui recebida pelo Dr. Wantuil também paternalmente, como o fora pelo Capitão Paiva. E disse-me ele:
Dou-lhe os meus parabéns pelo que me está relatando. Pode trazer as obras. Serão examinadas com atenção e espírito de fraternidade. Mas, precisam ser datilografadas com dois espaços, para maior comodidade do exame.
Ora, eu não dispunha de uma máquina de escrever e ainda menos de dinheiro para comprá-la, e nem me permiti pedi-la emprestada a quem quer que fosse. Guardei novamente os originais em manuscrito e não tornei a visitar o Dr. Wantuil da Freitas, que ficara aguardando a entrega das obras.
Passaram-se anos até que eu obtivesse uma máquina de escrever. Meu sobrinho César Augusto favoreceu-me. Então. a obra foi datilografada e ano de 1955 voltei novamente à Federação Espírita Brasileira. Fui recebida com a mesma fraternidade cristã e as obras aceitas pelos examinadores.

Eu levara três: “Nas Telas do Infinito”, a primeira a ser publicada; “Memórias de um Suicida” e “Amor e ódio”.
Desejo registrar aqui a minha gratidão e o meu amor pela Federação Espírita Brasileira e sua direção. Foi ela a minha verdadeira casa paterna neste mundo. Recebi de todos os seus dirigentes, notadamente do Dr. Wantuil de Freitas, do Dr. Armando de Oliveira Assis e do Sr. Francisco Thiesen todas as atenções e carinho fraterno. Respeitei-a e amei-a sempre e, para mim, ela é, realmente, a legítima representante da Igreja do Alto na Terra.
E ao nobre Espírito Manuel Quintão agradeço, ainda neste momento, não me ter atendido no ano de 1944, quando procurei a mesma Federação, levando os meus trabalhos ainda incompletos.
Sua recusa salvou não só “Memórias de um Suicida”, mas toda a minha posterior obra mediúnica, pois, se esse livro fosse lido naquela ocasião, seria rejeitado e eu não mais cuidaria, certamente, de literatura mediúnica.
No momento, agosto de 1973, tudo indica que não mais obterei literatura mediúnica. Meu compromisso com a Espiritualidade, nesse setor, está encerrado. Produzi, talvez, pouco, para a bibliografia espírita, mas fi-lo com o máximo respeito e o máximo amor pela Doutrina Espírita e a minha mediunidade. Foi o que pude fazer. E sinto a consciência tranquila e o coração confiante na justiça de Deus. Entretanto, trabalhei em receituário e conselhos até 1980.
Aos amados Guias Espirituais que me assistiram nos trabalhos que realizei e me ampararam na travessia da existência, o meu coração agradecido e reverente.

Rio de Janeiro, 7 de agosto de 1981.
Yvonne A. Pereira.
Revisão, em 1981, pela própria Autora, do escrito do 1973.