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Há Dois Mil Anos

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Ecce Homo (1871) de Antonio Ciseri

Vamos relatar nesse texto o acontecimento mais doloroso da história do planeta. Falo da rejeição coletiva que o mundo, nós, os habitantes da Terra, realizamos em relação a Jesus de Nazaré. A dor que causamos nesse coração que se doou a cada um de nós pela maldade expressa por nosso coração ao negarmos o valor da misericórdia e da fraternidade universal.

A condenação do Cristo, infelizmente, foi uma decisão democrática da Terra. Optamos por não permitir que a Luz caminhasse entre nós, nos curando e nos elevando. É um tema denso e difícil que precisamos abordar: como e por que Jesus  foi crucificado com o apoio do povo?

Estudaremos esse tema a partir de um relato de quem participou das decisões da crucificação, de alguém que acompanhou de perto o desenrolar dos fatos. O respeitável espírito de Emmanuel nos apresenta um relato lúcido e verdadeiro da prisão e da condenação de Jesus, esse testemunho corajoso será a fonte de nossas reflexões.

As acusações eram claramente falsas. Pilados não queria condenar Jesus.  Reuniu um grupo de pessoas importantes para ajudá-lo a lidar com o julgamento. Surge a questão: por que Pilatos simplesmente não mandou soltar Jesus? Porque a multidão exigia que ele fosse crucificado! 

O senador Romano Públio Lentulos (Emmanuel) fazia parte do grupo de autoridades que Pilatos pedia orientação. 

Eis a posição do senador.

 

Eu, francamente, não lhe vejo culpa alguma, senão a de ardente visionário de coisas que não posso ou não sei compreender, surpreendendo-me amargamente o seu penoso estado de pobreza.

Nesse instante, os soldados avisam a Pilatos que o povo ameaça invadir o palácio, caso Jesus não seja condenado. Pilatos relata um sonho que sua esposa tivera advertindo-o que não deveriam julgar Jesus. O senador, que mais uma vez dera testemunho, afirmando que Jesus a ninguém prejudicava, sugere que ele envie o caso a Herodes, que era também uma autoridade com competência de julgar e por ser ele judeu teria mais segurança no julgamento.

Herodes porém tratou com desprezo a ideia de julgar Jesus, mandou colocar nele uma coroa de espinho, dar-lhe uma vara imunda, como se fosse um cetro, e um pano, como se fosse a capa de um rei, e devolveu-o a Pilatos. Durante a ida e vinda de Jesus ao palácio de Herodes, o Mestre teve que ser protegido por soldados romanos para que o povo não o atacasse.

Ao saber que Herodes ridiculizara o julgamento do Cristo, Pilatos afirma que sabe ser Jesus um justo. O conselho reunido ouve os gritos ameaçadores do povo, exigindo a crucificação de Jesus. Ninguém sabe o que fazer.

Entra um ajudante de Pilatos e diz.

– Senhor a massa ameaça invadir o palácio se não confirmares a condenação de Jesus.

– O que diz o Profeta? Indaga Pilatos.

– Senhor — replicou Polibius igualmente impressionado —, o prisioneiro é extraordinário na serenidade e na resignação. Deixa-se conduzir pelos algozes com a docilidade de um cordeiro e nada reclama, nem mesmo o supremo abandono em que o deixaram quase todos os diletos discípulos da sua doutrina! “Comovido com os seus padecimentos, fui falar-lhe pessoalmente e, inquirindo-o sobre os seus martírios, afirmou que poderia invocar as legiões de seus anjos e pulverizar toda a Jerusalém dentro de um minuto, mas que isso não estava nos desígnios divinos, e sim a sua humilhação infamante, para que se cumprissem as determinações das escrituras. Fiz-lhe ver, então, que poderia recorrer à vossa magnanimidade, a fim de se ordenar um processo dentro de nossos dispositivos judiciários, de maneira a comprovar sua inocência e, todavia, recusou semelhante recurso, alegando que prescinde de toda proteção política dos homens, para confiar tão somente numa justiça que diz ser a de seu Pai que está nos céus!” 

— Homem extraordinário!… — revidava Pilatos, enquanto os presentes o acompanhavam estupefatos.

Dirigindo-se a Polibius, indaga Pilatos o que eles poderiam fazer. Ante essa situação, buscando um mal menor, Polibus sugere a pena dos açoites como uma forma de acalmar a multidão e evitar a condenação a morte. Jesus foi açoitado em praça pública.

Aplicado o suplício, Polibius retorna a Pilatos afirmando que infelizmente o povo continuava a exigir a morte de Jesus.

Penosamente surpreendido, exclamou o senador, dirigindo-se a Pilatos com intimidade: 

— Não tendes, porventura, algum prisioneiro com processo consumado, que possa substituir o Profeta em tão horrorosas penas? As massas possuem alma caprichosa e versátil e é bem possível que a de hoje se satisfaça com a crucificação de algum criminoso, em lugar desse homem, que pode ser um mago ou visionário, mas é um coração caridoso e justo.

 O governador da Judeia concentrou-se por momentos, recorrendo à memória, com o fim de encontrar a desejada solução. Lembrou-se então de Barrabás, personalidade temível, que se encontrava no cárcere aguardando a última pena, conhecido e odiado de todos pelo seu comprovado espírito de perversidade, respondendo afinal: 

— Muito bem!… Temos aqui um celerado, no cárcere, para alívio de todos, e que poderia, com efeito, substituir o Profeta na morte infamante!… 

E mandando fazer o possível silêncio, de uma das eminências do edifício, ordenou que o povo escolhesse entre o bandido e Jesus. 

Com grande surpresa de todos os presentes, a multidão bradava com sinistro alarido, numa torrente de impropérios: 

— Jesus!… Jesus!… Absolvemos Barrabás!… Condenamos a Jesus!…

 

Christ_Falling_on_the_Way_to_Calvary_-_Raphael

Cristo cai no caminho do calvário (1516–1517) Rafael Sanzio

Esse é o relato de quem viveu, na tarde infeliz do calvário, o processo da crucificação do Cristo. Assim agimos, nós, o povo da Terra.

Por quê? Porque crucificamos Jesus todas as vezes que esquecemos a Lei do Amor. A verdadeira luz incomoda quem não está, pelo menos, disposto a aprender a seguir a Lei do Amor. 

O carinho sincero, a abnegação verdadeira com que Jesus nos trata dói, porque não aceitamos que devemos ser amados. Se o Cristo reencarnasse hoje, certamente, muitos dos que o louvam com os lábios, se incomodariam. Como saber se estamos entre eles? Perguntemo-nos: aceitamos e apoiamos pessoas que são verdadeiramente abnegadas ou as combatemos com  elogios superficiais ou críticas destrutivas? Temos postura de colaboração sincera e objetiva ou de adoração falsa em relação aqueles que vemos como modelo? Em nossa relação com trabalhadores abnegados e espíritos evoluídos buscamos ampliar nossa capacidade de servir ou atender a caprichos pessoais? 

A multidão que condenou o Cristo foi a mesma que dele recebeu inúmeras vantagens, infelizmente, ela queria apenas as vantagens materiais e sociais. Recusaram a maior de todas as vantagens, a ascensão espiritual, porque isso as incomodava. Isso exigiria renúncia de vícios e de conforto. Ainda hoje, muitos de nós têm essa infeliz atitude, queremos o Cristo para nossa vantagem e desejamos sua humilhação quando ele nos propõe crescer espiritualmente por meio da abnegação.

Como, mais uma vez, não trair o Cristo? É uma pergunta que sempre me faço. A melhor resposta que tenho é do próprio Mestre, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VI, O Cristo Consolador.

O devotamento e a abnegação são uma prece contínua e encerram profundo ensinamento: a sabedoria humana reside nessas duas palavras. 

Devoção é uma ação orientada pelo sentimento divino. Se as massas tivessem agido diariamente, após encontrar com o Cristo, com sentimento divino, não teriam se tornado agressivas em relação ao Amor e a Misericórdia, pois a proposta do Cristo em todos os seus atos foi a de tornar sagrada a vida em todos os seus momentos.

Abnegação é o desprendimento dos próprios interesses. Sabia Pilatos da injustiça que estava cometendo, mas, ser justo, naquela ocasião, exigia abnegação, pois o povo ameaçava prejudicar seus interesses de autoridade criando desordem. Por isso, acredito que se cultivarmos a religiosidade em nosso dia a dia, agindo com a fraternidade que aceita que todos somos divinos, filhos de Deus e se tivermos dispostos em sacrificar nossos interesses pelas causas mais elevadas, não mais crucificaremos nosso Mestre.

Trecho em itálico e azul foram extraídos do livro Há Dois Mil anos de Emmanuel, Psicografia Francisco C. Xavier, editora Feb.