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Léon Denis – A dor


O Problema do Ser e o do Destino

Capítulo 26 - A dor

Tudo o que vive, cá embaixo, sofre: a Natureza, o animal, o homem. E, no entanto, o amor é a lei do Universo e foi por amor que Deus formou os seres. Aparentemente, uma contradição formidável, um problema angustiante, que tem perturbado tantos pensadores e os tem levado à dúvida e ao pessimismo!

O animal está sujeito à luta ardente pela vida. Por entre a relva do prado, sob a folhagem e os ramos dos bosques, na amplidão do Espaço, nas águas profundas, em toda parte, processam-se dramas ignorados. Em nossas cidades, prossegue, incessantemente, a hecatombe de pobres animais inofensivos, sacrificados por nossas necessidades ou entregues, nos laboratórios, ao suplício da vivisseção.

Quanto à Humanidade, sua História não é senão um longo martirológio. Através dos tempos, para além dos séculos, ecoa a triste cantilena dos sofrimentos humanos; o lamento dos infelizes eleva-se, com uma intensidade cortante, regular como uma onda.

A dor segue todos os nossos passos; espreita-nos, a cada curva do caminho. E, diante desta esfinge que o fita com seu estranho olhar, o homem se faz a eterna pergunta: Por que a dor?

Será que ela é, no que lhe diz respeito, uma punição, uma expiação, como alguns o dizem? Será a reparação do passado, o resgate das faltas cometidas?

No fundo, a dor é apenas uma lei de equilíbrio e educação. Sem-dúvida, os erros do passado recaem sobre nós, com todo o seu peso e determinam as condições de nosso destino.

Com frequência, o sofrimento é só o contragolpe das violações cometidas contra a ordem eterna; mas, sendo o legado de todos, deve ser considerado como uma necessidade de ordem geral, como um agente de desenvolvimento, uma condição do progresso. Todos os seres devem experimentá-lo, por sua vez.

Sua ação é benfazeja, para quem sabe compreendê-lo. Porém, só podem compreendê-lo aqueles que sentiram seus efeitos poderosos. É principalmente a estes que dirijo estas páginas; a todos os que sofrem, sofreram ou merecem sofrer!

A dor e o prazer são as duas formas extremas da sensação. Para suprimir uma ou outra, seria necessário suprimir a sensibilidade. Eles são, portanto, inseparáveis, em princípio, e, ambos, necessários à educação do ser que, em sua evolução, deve esgotar todas as formas ilimitadas de prazer e de dor.

A dor física produz sensações; o sofrimento moral, sentimentos. Mas, assim como o vimos acima, no sensorium íntimo, sensação e sentimento confundem-se e fazem uma coisa só.

O prazer e a dor residem, pois, bem menos nas coisas exteriores do que em nós mesmos. Por isso, é tarefa de cada um de nós, regulando suas sensações, disciplinando seus sentimentos, comandar umas e outros e limitar-lhes os efeitos.

Epíteto dizia: “As coisas são apenas o que imaginamos que elas sejam”. Assim, pela vontade, podemos domar, vencer a dor, ou, pelo menos, utilizá-la em nosso proveito, fazer dela um instrumento de elevação.

A ideia que fazemos da felicidade e da infelicidade, da alegria e da tristeza, varia infinitamente, segundo a evolução individual. A alma pura, boa, sábia, não pode ser feliz do mesmo modo que a alma vulgar. O que encanta uma, deixa a outra indiferente. À medida que nos elevamos, o aspecto das coisas muda. Assim como a criança que, quando cresce, não liga para as brincadeiras que, anteriormente, a cativavam, a alma que se eleva busca satisfações cada vez mais nobre, graves e profundas. O espírito que observa de cima e considera o objetivo grandioso da vida encontrará mais felicidade, mais paz e serenidade, em um belo pensamento, uma boa obra, um ato de virtude, até mesmo na infelicidade que purifica, do que em todos os bens materiais e no brilho das glórias terrestres, pois, estes nos perturbam, corrompem-nos, embriagam-nos com uma euforia enganadora.

É bastante difícil fazer com que os homens entendam que o sofrimento é bom. Cada qual gostaria de refazer e embelezar a vida do jeito que quisesse, enfeitá-la com todos os atrativos, sem pensar que não há bem sem-dor nem ascensão sem-esforços.

A tendência geral consiste em fechar-se no círculo estreito do individualismo, do cada um por si; desta forma, o homem se apequena; reduz a estreitos limites tudo o que, nele, é grande, destinado a expandir-se, dilatar-se, crescer: o pensamento, a consciência, resumindo, toda sua alma. Ora, os gozos, os prazeres, a ociosidade estéril, só fazem estreitar ainda mais estes limites, tornar mais acanhados nossa vida e nosso coração. Para quebrar este círculo, para que todas as virtudes ocultas eclodam, a dor é necessária. A infelicidade, as provas fazem brotar em nós as fontes de uma vida desconhecida e mais bela. A tristeza, o sofrer fazem-nos ver, ouvir, sentir mil coisas, delicadas ou vibrantes, que o homem feliz ou o homem vulgar não podem perceber. O mundo material se obscurece; um outro se desenha, vagamente, a princípio, mas que se tornará cada vez mais distinto, à medida que nosso olhar se destaque das coisas inferiores e mergulhe no ilimitado.

O gênio não é somente o resultado de trabalhos seculares; é, também, a apoteose, a coroação do sofrimento. De Homero a Dante, a Camões, a Tasso, a Milton, e, além deles, todos os grandes homens têm sofrido. A dor fez com que suas almas vibrassem; inspirou-lhes a nobreza de sentimento, a intensidade de emoção, que eles souberam traduzir com os acentos geniais e que os imortalizaram. A alma jamais canta melhor do que na dor. Quando esta toca as profundezas do ser, faz com que daí brotem esses gritos eloquentes, esses chamamentos poderosos que comovem e arrastam multidões.

Este é o caso de todos os heróis, de todos os grandes caracteres, dos corações generosos, dos espíritos mais eminentes.

Sua elevação se mede pela soma de sofrimentos experimentados. Diante da dor e da morte, a alma do herói, do mártir, se revela em sua beleza tocante, em sua grandeza trágica, que, por vezes, atinge os limites do sublime, aureolando-o com uma luz inextinguível.

Suprimi a dor e suprimireis, com o mesmo gesto, o que é mais digno de admiração neste mundo, isto é, a coragem de suportá-la. O mais nobre ensinamento que se possa propor aos homens não é a lembrança daqueles que sofreram e morreram pela verdade e pela justiça? Existe coisa mais augusta

e venerável que seus túmulos? Nada iguala a potência moral que deles se desprende. As almas que deram tais exemplos se engrandecem a nossos olhos, com o passar dos séculos, e parecem, de longe, mais imponentes ainda. Elas são como fontes de força e de beleza, onde as gerações vão se retemperar.

Através do tempo e do espaço, o brilho delas, como a luz dos astros, ainda se espalha sobre a Terra. Sua morte originou a vida e sua lembrança, como um aroma suave, vai lançar, por toda a parte, a semente dos entusiasmos futuros.

Estas almas ensinaram-nos que é pelo devotamento, pelos sofrimentos dignamente suportados, que galgamos os caminhos do céu. E a história do mundo não é outra coisa senão a sagração do espírito pela dor. Sem ela, não pode haver virtude completa nem glória imperecível.

*

É preciso sofrer para adquirir e conquistar. Os atos de sacrifício desenvolvem as radiações psíquicas. Há uma espécie de rastro luminoso deixado, no Espaço, pelos espíritos dos heróis e dos mártires.

Aqueles que não sofreram mal podem compreender estas coisas, pois, neles, só a superfície do ser é trabalhada, valorizada. Seus sentimentos não têm amplitude; seu coração não tem efusão; seu pensamento só atinge acanhados horizontes.

São necessários os infortúnios, as angústias, para dar à alma sua suavidade, sua beleza moral, para despertar seus sentidos adormecidos. A vida dolorosa é um alambique em que se destilam os seres para mundos melhores. Tanto a forma quanto o coração, tudo se embeleza, por ter sofrido. Mesmo nesta vida, há algo de grave e de terno, nos rostos muitas vezes banhados pelas lágrimas. Eles ganham uma expressão de beleza austera, uma espécie de majestade que impressiona e seduz.

Michelangelo havia adotado, como regra de conduta, os preceitos seguintes: “Entra em ti mesmo e faze o que faz o escultor com a obra que quer tornar bela; suprime tudo o que é supérfluo, torna nítido o que é obscuro, leva a luz a toda parte e não para de burilar tua própria estátua”.

Máxima sublime que contém o princípio de todo aperfeiçoamento íntimo. Nossa alma é nossa obra, com efeito, obra capital e fecunda, que ultrapassa, em grandiosidade, todas as

manifestações parciais da Arte, da Ciência, do gênio.

Todavia, as dificuldades de execução são proporcionais ao esplendor do objetivo. E, diante desta penosa tarefa da reforma interior, do combate incessante que se trava com a paixão, com a matéria, quantas vezes o artesão não se desencoraja? Quantas vezes não abandona o cinzel? É aí que Deus lhe envia uma ajuda: a dor! Energicamente, ela vasculha as profundezas da consciência que o operário hesitante e inábil não podia ou não sabia atingir; escava-lhe os recantos, modela-lhe os contornos; elimina ou destrói o que é inútil ou mau.

E, do mármore frio, sem-forma, sem-beleza, da estátua feia e grosseira que nossas mãos mal tinham esboçado, ela fará surgir, com o tempo, a estátua viva, a obra-prima incomparável, as formas harmônicas e suaves da divina Psique!

*

A dor não atinge somente os culpados. Em nosso mundo, o homem honesto sofre tanto quanto o mau. E isto se explica. Primeiramente, a alma virtuosa, sendo mais evoluída, é mais sensível. Além disso, muitas vezes, ama e procura a dor, reconhecendo todo o seu valor.

Entre estas almas, algumas há, ainda, que não vêm cá embaixo para outra coisa senão dar a todos o exemplo da grandeza no sofrimento. São missionárias, elas também, e sua missão não é menos bela e tocante que a dos grandes reveladores.

Encontramo-las em todos os tempos e elas ocupam todos os planos da vida. Figuram, altivas, nos patamares resplandecentes da História e as encontramos, humildes e ocultas, em meio às massas.

Admiramos o Cristo, Sócrates, Antígona, Joana d’Arc, mas quantas vítimas obscuras do dever ou do amor tombam, todos os dias, e sobre elas lançam-se o silêncio e o esquecimento. Seus exemplos, no entanto, não ficam perdidos: iluminam toda a vida de alguns homens que os testemunharam.

Para ser plena e fecunda, não é indispensável que uma vida seja pontilhada desses grandes atos de sacrifício nem coroada por uma morte que a consagre aos olhos de todos. Tal existência, morna e triste, aparentemente sem-cor e apagada, no fundo, é apenas um esforço contínuo, uma luta de todos

os instantes contra a infelicidade e o sofrimento. Não somos juízes de tudo o que se passa no íntimo das almas; muitas, por pudor, ocultam chagas dolorosas, males cruéis, que as tornariam tão interessantes a nossos olhos, quanto os mártires mais célebres. Pelo combate incessante que elas travam contra o destino, também são grandes e heroicas, estas almas!

Seus triunfos permanecem ignorados, mas todos os tesouros de energia, de paixão generosa, de paciência ou de amor, que acumularam nesse esforço cotidiano, constituir-se-ão para elas

em um capital de força, de beleza moral, que pode torná-las, no Além, idênticas às mais nobres figuras da História.

Na oficina augusta, onde se forjam as almas, o gênio e a glória não são suficientes para torná-las verdadeiramente belas.

Para dar-lhes o último e sublime toque, sempre foi necessária a dor. Se certas existências obscuras se tornaram tão santas e tão sagradas quanto devotamentos célebres, foi porque, nelas, o sofrimento foi contínuo. Não foi somente uma vez, em dada circunstância ou na hora da morte, que a dor as elevou acima de si mesmas e as submeteu à admiração dos séculos; foi porque sua vida inteira foi uma imolação constante.

E esta obra de lenta depuração, este longo desfile das horas dolorosas, esta purificação misteriosa dos seres que se preparam, assim, para as últimas ascensões, causa a admiração dos próprios espíritos. É esse tocante espetáculo que lhes inspira a vontade de renascer entre nós, a fim de sofrer e de morrer ainda, por tudo o que é grande, por tudo o que amam e, com este novo sacrifício, tornar mais vivo seu próprio brilho.

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