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Libertação

Trechos selecionados do Capítulo 3 – Entendimento

O zimbório estrelado, aos raios liriais da Lua, espalhava em torno vibrações de beleza inexprimível, semeando esperança, alegria e consolo.

Informado quanto aos objetivos que nos conduziriam à Crosta, com escalas por uma colônia purgatorial de vasta expressão, vali-me da hora amena para aproveitar a convivência com o Instrutor, tentando arrancar-lhe observações que vinham sempre revestidas de preciosos ensinamentos.

— É admirável pensar — aventurei respeitosamente — que se formam verdadeiras expedições em nossa esfera para atender a simples caso de obsessão…

— Os homens encarnados — redarguiu o orientador com certa vacuidade no olhar, qual se trouxesse a alma presa a imagens fugidias do pretérito — não suspeitam a extensão dos cuidados que despertam em nossos círculos de ação. Somos todos, eles e nós, corações imantados uns aos outros, na forja de benditas experiências. No romance evolutivo e redentor da Humanidade, cada Espírito possui capítulo especial. Ternos e ríspidos laços de amor e ódio, simpatia e repulsão, acorrentam-nos reciprocamente.

(…)

A responsabilidade pelo aperfeiçoamento do mundo compete-nos a todos.

(…)

Perseguidores e perseguidos entrelaçam-se, em cada processo de auxílio, em grande expressão numérica. Cada Espírito é um elo importante em extensa região da corrente humana. Quanto mais crescemos em conhecimentos e aptidões, amor e autoridade, maior é o âmbito de nossas ligações na esfera geral. Almas existem que se veem sob o interesse de milhões de outras almas.

(…)

A essa altura da instrutiva conversação, chegamos a gracioso templo.

Nesse doce recanto consagrado à materialização de entidades sublimes, a luz suave da noite calma como que se fazia mais bela. As vibrações constantes das preces, aí emitidas por vários séculos, tinham criado em torno da edificação prodigioso clima de encantamento.

Melodia celeste derramava-se à surdina e as flores delicadas do átrio pareciam corresponder aos sons cristalinos, variando no brilho e na cor, quase que imperceptivelmente.

Eu trazia o coração opresso, como se a felicidade das últimas horas, em que ouvira tão confortadoras e tão graves reflexões atinentes à extensão do mundo e da vida, me aproximasse a insignificância pessoal da grandeza divina, e lágrimas tranquilas inundaram-me o rosto.

O Instrutor tomou-nos a frente e, juntos, penetramos o jardim que circundava o aprazível santuário. Alguns irmãos adiantaram-se, acolhedores.

Um deles, o Instrutor Gama, que se encarregava dos serviços da casa, abraçou-nos e disse com bondade:

— Chegam no momento preciso. Os doadores de fluidos sublimados encontram-se a postos e a outra comissão já veio. Entramos sem detença.

(…)

Não houve tempo para conversações prévias. Em seguida a saudações ligeiras e cordiais, foi composto o conjunto de oração. Os doadores de energia radiante, médiuns de materialização em nosso plano, se alinhavam, não longe, em número de vinte.

(…)

Em breves instantes, revestida de luz, outra mensageira surgia na tribuna. Dos olhos irradiava doce magnetismo santificante. Trajava um peplo estruturado em fina gaze azul-radiosa e desceu, ereta e digna, fitando-nos suavemente, à procura de alguém, com interesse particular.

O Instrutor [Gúbio] ergueu-se, reverente, e caminhou na direção dela, qual discípulo submisso. A recém-chegada pronunciou frases de paz, sem afetação, e endereçou-lhe a palavra, em tom de infinita ternura:

— Irmão Gúbio, agradeço-te o concurso dadivoso. Creio haver chegado, efetivamente, o instante de aceitar-te a ajuda fraterna, em favor da libertação de meu infortunado Gregório. Espero, há séculos, pela renovação e penitência dele.

Impressionado pelos imensos recursos do poder, no passado distante, cometeu hediondos crimes da inteligência. Internado em perigosa organização de transviados morais, especializou-se, depois da morte, em oprimir ignorantes e infelizes.

Pelo endurecimento do coração, conquistou a confiança de gênios cruéis, desempenhando presentemente a detestável função de grande sacerdote em mistérios escuros. Chefia condenável falange de centenas de outros Espíritos desditosos, cristalizados no mal, e que lhe obedecem com deplorável cegueira e quase absoluta fidelidade. Agravou o passivo de suas dívidas clamorosas, trazidas da insânia terrestre, e vem sendo instrumento infeliz nas mãos de inimigos do bem, poderosos e ingratos… Há cinquenta anos, porém, já consigo aproximar-me dele, mentalmente. Recalcitrante e duro, a princípio, Gregório agora experimenta algum tédio, o que constituí uma bênção nos corações infiéis ao Senhor. Já lhe surpreendo no espírito rudimentos de necessária transformação. Ainda não chora sob o guante do arrependimento benéfico e parece-me longe do remorso salvador; entretanto, já duvida da vitoria do mal e abriga interrogações na mente envilecida. Não é tão severo no comando dos Espíritos desventurados que lhe seguem as determinações e o colapso de sua resistência não me parece remoto.

Nesse instante, notei que a venerável matrona derramava lágrimas discretas, que lhe deslizavam na face como sementes de luz. Parou por alguns momentos, controlada pelas reminiscências dolorosas, e continuou:

— Irmão Gúbio, perdoa-me o pranto que não significa mágoa ou esmorecimento… Na pauta do julgamento humano comum, meu filho espiritual será talvez um monstro… Para mim, Contudo, é a joia primorosa do coração ansioso e enternecido. Penso nele qual se houvera perdido a pérola mais linda num mar de lama e tremo de alegria ao considerar que vou reencontrá-lo. Não é paixão doentia que vibra em minhas palavras. É o amor que o Senhor acendeu em nós, desde o princípio.

Estamos presos, diante de Deus, pelo magnetismo divino, tanto quanto as estrelas que se imantam umas às outras, no império universal. Não encontrarei o Céu, sem que os sentimentos de Gregório se voltem igualmente para a Eterna Sabedoria. Alimentamo-nos na Criação com os raios de vida imperecível que emitimos uns para com os Outros. Como surpreender a perfeita ventura se recebo do filho amado tão somente raios de forças em desvario?

O nosso orientador contemplou-a, de olhos úmidos, e rogou:

— Nobre Matilde! Estamos prontos. Dita ordens! Por mais que fizéssemos por tua alegria, nosso esforço seria pobre e pequenino, diante dos sacrifícios em que te empenhas por nós todos.

Num sorriso triste, prosseguiu a respeitável senhora:

— Descerei, dentro em breves anos, para o torvelinho de lutas carnais, a fim de esperar Gregório em existência de resgate difícil e doloroso. Educá-lo-ei sob os princípios superiores que regem a vida. Crescerá sob minha inspiração imediata e receberá a prova perigosa e aflitiva da riqueza material. É de nosso plano que ele acolha, no curso do tempo, em labor gradativo, a extensa legião de servidores viciados que hoje o seguem e a ele obedecem, a fim de encaminhá-los, tanto os possivelmente encarnados quanto os desencarnados, através do carreiro de santificação pela disciplina benéfica em construtivo suor. Padecerá calúnias e vilipêndios. Será muita vez humilhado à face dos homens. Triunfará nos bens efêmeros e nas honrarias mentirosas. Receberá, no desdobramento da tarefa salvadora, tentações de toda espécie que lhe serão desfechadas pela colônia de ignorância, perversidade e delinquência a que atualmente se filia, e conhecerá, depois de experiências inquietantes, a deserção dos falsos amigos, o abandono, a miséria, a enfermidade, a velhice e a solidão. Apegar-se-á profundamente ao meu carinho, na infância, na mocidade e na madureza; entretanto, na colheita de provações mais duras, tê-lo-ei precedido na viagem do túmulo… nessa época, porém, que pressinto de tão longe, meu coração materno, embora na esfera espiritual, encorajá-lo-á, passo a passo, na direção do esperado triunfo… Nas amarguras e desilusões que o ajudarão a reestruturar e aperfeiçoar os poderes da mente, minha voz de amor eterno será por ele registrada com mais precisão…

Até lá, porém, Gúbio, compete-me trabalhar muito e sem desânimo, com incessante aproveitamento das horas. Moverei as cordas da intercessão sublime, mobilizarei meus amigos, rogarei a Jesus fortaleza e serenidade. Iniciaremos a liberação com o teu abnegado concurso na zona abismal.

A veneranda mensageira fez ligeiro intervalo e, concentrando o olhar sobre o nosso Instrutor, aduziu com nova inflexão de voz:

— Atenderás Margarida que te foi filha amantíssima e que a Gregório ainda se encontra imantada por teias escuras do passado e colaborarás com o meu devotamento materno para que na alma dele se converta a sublevação em humildade e a frieza, em calor. Encontrando-o, veste a capa do servo prestimoso e fala-lhe em meu nome. Sob o gelo que lhe cristaliza os sentimentos, descansa, inapagada, a chama do amor que nos une para sempre.