Magnetismo - Iniciação aos Princípios do Magnetismo

Revista Espírita – Janeiro, 1865

Revista espírita - Jornal de Estudos Psicológicos

Revista Espírita. Ano 1865. Mês: Janeiro. Editora: Feb. Tradução: Evandro Noleto Bezerra.

Nova Cura de uma Jovem Obsedada de Marmande

 Transmite-nos o Sr. Dombre o relato seguinte de uma nova cura das mais notáveis, obtida pelo círculo espírita de Marmande. Malgrado sua extensão, julgamos dever publicá-lo de uma só vez, em razão do alto interesse que ele apresenta e para que se possa melhor captar o encadeamento dos fatos. Pensamos que os leitores não terão motivos para se queixarem de nós. Suprimimos apenas alguns detalhes que não nos pareceram de importância capital. Os ensinamentos decorrentes são numerosos e sérios e lançam nova luz sobre essa questão de atualidade e sobre esses fenômenos, que tendem a multiplicar-se. Considerando-se a extensão do artigo, adiamos as considerações para o próximo número, a fim de lhes dar os desenvolvimentos necessários.

Senhor Allan Kardec,
É com uma força nova e uma confiança em Deus, corroborada pelos fatos que, entusiasmando-me sem me assombrar, venho fazer-vos o relato de uma cura de obsessão, notável sob vários aspectos. Oh! bem cego é quem nisto não veja o dedo de Deus! Todos os princípios da sublime doutrina do Espiritismo aí se acham confirmados: a individualidade da alma, a intervenção dos Espíritos no mundo corporal, a expiação, o castigo e a reencarnação são demonstrados de maneira surpreendente nos fatos com que vos vou entreter. Como já vos exprimi, lamento ser obrigado a vos falar de mim, do papel que me coube nesta circunstância, como instrumento de que Deus se dignou servir-se para ferir os olhos. Deveria passar em silêncio os fatos relacionados comigo? Julguei que não. Estais encarregado de controlar, estudar, analisar os fatos e espalhar a luz: os mínimos detalhes devem, pois, ser levados ao vosso conhecimento. Deus, que lê no fundo dos corações, sabe que não fui movido pela vã satisfação do amor- próprio; aliás, não ignoro que aquele que, por privilégio é chamado a fazer qualquer bem, logo é reduzido à impotência se, por algum instante, desconhece a intervenção divina: feliz mesmo se não for castigado!

Vamos ao relato dos fatos.
Desde os primeiros dias de setembro de 1864, não se falava, em certo bairro da cidade, senão das crises convulsivas experimentadas por uma moça, Valentine Laurent, de treze anos. Essas crises, que se repetiam várias vezes por dia, eram de tal violência que cinco homens, que a continham pela cabeça, pelos braços e pelas pernas, tinham dificuldade de mantê-la em seu leito. Ela encontrava bastante força para os agitar e, algumas vezes, até a se desprender de suas mãos. As mãos, então, se agarravam a tudo; camisas, vestidos, cobertas da cama eram rasgadas prontamente; os dentes desempenhavam um papel muito ativo em seus furores, apavorando com razão as pessoas que a cercavam. Se não a tivessem contido, ela teria partido a cabeça na parede e, malgrado os esforços e as precauções, não ficou isenta de cortes e contusões.
Não lhe faltaram os recursos da arte. Quatro médicos a viram sucessivamente; porções de éter, pílulas, medicamentos de toda natureza: ela tomava tudo sem repugnância; as sanguessugas atrás das orelhas, os vesicatórios nas coxas também não foram poupados, mas sem sucesso. Durante as crises, o pulso era perfeitamente regular; depois das crises, nem a menor lembrança dos sofrimentos, das convulsões, mas muito espanto ao ver a casa cheia de gente e seu leito cercado de homens ofegantes, alguns dos quais lamentavam uma camisa ou um colete rasgado.
O cura de X…, paróquia situada a dois ou três quilômetros de Marmande, gozando na região, entre certas pessoas, de uma celebridade recente, como curador de toda espécie de males, foi consultado pelo pai da jovem. O cura, sem dar explicações sobre a natureza do mal, lhe deu gratuitamente um pouco de pó branco para a doente tomar; em seguida, ofereceu-se para rezar uma missa Mas, ah! nem o pó, nem a missa preservaram a jovem Valentine de quatorze crises no dia seguinte, o que jamais lhe havia acontecido.

Tanto insucesso nos cuidados de toda sorte necessariamente deveriam ter originado, no espírito do vulgo, idéias supersticiosas. Com efeito, as comadres falavam alto de malefícios e sortilégios lançados sobre a moça.
Durante esse tempo e no silêncio da intimidade, consultamos nossos guias espirituais sobre a natureza dessa moléstia. Eis o que nos responderam:
“É uma obsessão das mais graves, cujo caráter mudará muitas vezes de fisionomia. Agi friamente, com calma; observai, estudai e chamai Germaine.”
A esta primeira evocação, este Espírito não poupou injúrias e mostrou grande repugnância em responder às nossas interpelações. Até então, nenhum de nós tinha entrado na casa da doente e, antes de intervir, queríamos deixar a família esgotar todos os meios que a sua solicitude podia inspirar. Só quando a impotência da Ciência e da Igreja foi constatada é que exortamos o pai desesperado a vir assistir à nossa reunião para saber a verdadeira causa do mal de sua filha, e o remédio moral a lhe oferecer. Essa primeira sessão ocorreu em 16 de setembro de 1864. Antes da evocação de Germaine, nossos guias nos deram a seguinte instrução:
“Procedei com muito cuidado, muita observação e muito zelo. Tratareis com um Espírito mistificador, que alia a astúcia e a habilidade hipócrita a um caráter muito mal. Não cesseis de estudar, de trabalhar pela moralização desse Espírito e de orar com essa finalidade. Recomendai aos pais que, em presença da filha, evitem qualquer manifestação de temor por seu estado; ao contrário, eles devem fazê-la consagrar-se às suas ocupações habituais e, sobretudo, não serem ásperos para com ela. Que lhe digam, principalmente, que não há feiticeiros: isto é muito importante. O cérebro jovem e maleável recebe as impressões com muita facilidade e seu moral poderia sofrer com isto; que não a deixem entreter-se com pessoas susceptíveis de lhe contar histórias absurdas, que dão às crianças idéias falsas e, por vezes, perniciosas. Que os próprios pais se tranqüilizem: a prece sincera é o único remédio que deve libertar a garota.

Nós vo-lo dissemos, espíritas, o Espírito Germaine tem habilidade; ele arranjará sempre crenças ridículas, rumores que circulem em volta da mocinha; procurará dar-vos o troco. Tirai partido do caso: a obsessão apresentar-se-á sob novas fases. Ficai advertidos; pensai que deveis trabalhar com perseverança e seguir com inteligência os mínimos detalhes que vos porão no rastro das manobras do Espírito. Não vos fieis na calma. Se as crises são os efeitos mais chocantes nas obsessões, há outras conseqüências muito mais perigosas. Desconfiai do idiotismo e da infantilidade num obsedado que, como neste caso, não sofre fisicamente. As obsessões são tanto mais perigosas quanto mais ocultas; muitas vezes são puramente morais. Este não raciocina, aquele perde a lembrança do que disse, do que fez. Entretanto, não se deve julgar muito precipitadamente e tudo atribuir à obsessão. Repito: estudai, discerni, trabalhai seriamente; não espereis tudo de nós; ajudar-vos- emos, pois trabalhamos em acordo, mas não repouseis, crendo que tudo vos será revelado.”
Evocação de Germaine – Eis-me aqui.
P. – Tendes algo a nos dizer, em continuação à nossa última conversa? 

Resp. – Não, nada, senhores.

P. – Sabeis que nos tratastes com muita aspereza?
Resp. – Também me falais muito mal.
P. – Nós vos demos conselhos. Refletistes neles?
Resp. – Sim, muito, juro. Minhas reflexões foram sensa- tas. Admito que eu estava louca; delirava, mas eis-me calma.
P. – Muito bem! Quereis dizer-nos por que torturais essa
menina?
Resp. – Inútil voltar ao assunto; seria muito longo para vos contar. Imagino que isto aqui não seja um tribunal; que não serei obrigada a me sentar no banco dos réus e responder ao questionário.
P. – Não, absolutamente; estais completamente livre; é o interesse que nos leva, por vós e pela menina, a perguntar por que motivo sério ou por que capricho vos entregais a esses ataques.
Resp. – Dizeis capricho? Ah! deveríeis desejar que não passasse de um capricho; porque, sabeis, o capricho é instável e acaba.
P. – Estais realmente calma? Resp. – Bem o vedes.
P. – Sim, em aparência; mas não disfarçais os vossos sentimentos?
Resp. – Não venho vos estender armadilhas, pois não preciso disto.
P. – Quereis afirmá-lo perante os Espíritos que nos cercam…?
Resp. – Não ponhamos outras pessoas entre nós. Se deve- mos conversar ou tratar de algo, que seja de vós para mim. Não gosto da intervenção de terceiros.
P. – Muito bem! acreditamos em vossa boa-fé, e…

Resp. – É por isto que deveríeis vos contentar com esta garantia. Aliás, eu vos obriguei a me acreditar, se fizerdes resistência; não me faltarão provas para vos convencer de minha sinceridade.
Germaine
Ao ouvir o nome de Germaine, o pai da obsedada exclamou, estupefato: Oh! é engraçado! E, ao se retirar, repetia várias vezes: É engraçado!
(Isto será explicado mais tarde).
No dia seguinte, 17 de setembro, dirigi-me pela primeira vez à casa daquela família, com o desejo de ser testemunha de um ataque do Espírito. Fui servido na medida do possível. Valentine estava em crise; entrei com as pessoas do quarteirão, que se precipitavam na casa.
Estendida no leito, vi uma jovem magnífica, robusta para a sua idade, e contida por oito ou dez braços vigorosos, como descrevi acima. Só a cabeça estava livre, agitando-se e açoitando o ar, em todos os sentidos, com sua cabeleira solta. A boca entreaberta deixava ver duas fileiras de dentes brancos e, sobretudo, ameaçadores. O olhar estava completamente perdido, e as duas pupilas, das quais só se viam os bordos, estavam alojadas no ângulo do lado do nariz. Acrescente-se a isto uma espécie de grito selvagem, e imaginai o quadro.
Observei um instante a força das sacudidelas e, inclinando-me sobre o rosto da mocinha, pus a mão direita sobre sua fronte e a esquerda sobre o peito; cessaram imediatamente os movimentos e os esforços convulsivos e a cabeça pousou, calma, sobre o travesseiro. Dirigi os dedos da mão direita à boca, que se entreabriu e logo um sorriso se esboçou em seus lábios; as duas grandes pupilas negras retomaram seu lugar no meio do olho; àquela figura satânica sucedeu o mais gracioso semblante. A jovem manifestou seu espanto ao ver tanta gente à sua volta, dizendo que não estava doente; eram sempre suas primeiras palavras depois das crises. Elevei minha alma a Deus e senti sob as pálpebras duas lágrimas de entusiasmo e reconhecimento.

Isto acabava de se passar na manhã do dia 17. Como as crises se sucedessem com mais freqüência à tarde, por volta das cinco horas, voltei; os ataques, porém, tinham ocorrido antes da hora habitual e já haviam terminado. Às sete horas retornei à minha casa para jantar. Mal cheguei, vieram avisar-me que a menina estava numa crise terrível. Fui para lá imediatamente. Depois de segurar com uma mão os dois braços dela, perto dos punhos, disse aos homens que a seguravam: Soltai-a. Depois, com a outra mão sobre o seu peito, viram que se acalmava de repente; a seguir, levando a mão ao seu rosto, fiz lhe voltasse o sorriso e seus olhos retomaram o estado normal. Havia-se produzido o mesmo efeito da manhã. Fiquei junto à jovem uma parte da noite; ela não teve crises, mas dormia agitada; sua fisionomia tinha algo de convulsivo; via-se-lhe o branco dos olhos e ela parecia sofrer moralmente. Gesticulava, falava distintamente e exclamava em tom enérgico e comovido: Vai-te! vai-te!… Oh! a vilã!… E a criança… e a criança… nos rochedos… nos rochedos. A essa agitação sucedia uma espécie de êxtase: chorava e retomava com acento plangente: Ah! tu sofres os tormentos do inferno!… e eu, queres fazer-me sofrer sempre!… sempre! sempre!… E estendendo os braços no ar e tentando erguer-se: Pois bem! leva-me, leva-me!
A cada instante o pai soltava uma exclamação: Oh! é engraçado! E a mãe acrescentava: Aí há mistério. A partir de uma hora da madrugada, a menina dormiu calmamente até o dia raiar.
Essas agitações, essas censuras, esses êxtases, esse choro se repetiam diariamente após os ataques violentos do Espírito e duraram até muito tarde nas noites de 18, 19 e 20 de setembro. Todos os dias eu me dirigia para junto da doente, instalando-me, por assim dizer, em sua casa. Em minha presença nada se manifestava; mas, tão logo eu partia, produzia-se nova crise; então, eu voltava e a acalmava. Isto durou vários dias. Certamente era um fenômeno digno de atenção que tais crises fossem mitigadas de súbito apenas com a imposição das mãos. Havia rumores na cidade e matéria para estudo sério. Entretanto, lamentei não ter visto nenhum dos quatro médicos, que haviam tratado a menina, vir observá-la.

Durante todo esse tempo, notei na garota, ora uma alegria um tanto exagerada, ora uma espécie de parvoíce. O pai e a mãe não achavam esses ares naturais, o que justificava a previsão de nossos guias.
No dia 21 de setembro, o pai e a mocinha foram comigo à sessão. No começo, nossos guias nos disseram: Chamai Germaine; pedi-lhe que fique junto de vós, e dizei-lhe isto:
“Germaine, sois nossa irmã; essa jovem é também nossa e vossa irmã. Se outrora alguma ação funesta vos ligou e fez pesar sobre ambas a justiça divina, podeis comover o juiz supremo. Apelai à sua infinita misericórdia; pedi-lhe vossa graça, como a pedimos por vós; tocai o Senhor por vossa prece fervorosa e vosso arrependimento. É em vão que buscais calma aos vossos remorsos e um refúgio na vingança; é em vão que procurais vossa justificação, acabrunhando-a ao peso de vossa acusação. Voltai, pois, à nossa voz; perdoai e sereis perdoadas, não busqueis enganar-nos; não creias que apenas a aparência da franqueza possa seduzir- nos; sejam quais forem os meios que empregardes, nós os conhecemos e vos oporemos nossa força e nossa vontade. Que vosso coração, enceguecido pelo sofrimento e pelo ódio, se abra à piedade e ao perdão. Não deixaremos de orar ao Eterno e aos Espíritos bons, seus mensageiros fiéis, que derramem sobre vós a consolação e o benefício. O que queremos, Germaine, é vos livrar de vossos sofrimentos. Sempre sereis acolhida por nós como uma irmã; sereis socorrida. Assim, não nos considereis como inimigos, pois queremos a vossa felicidade; não sejais surda às nossas palavras; ouvi nossos conselhos e em pouco conhecereis a paz da consciência. O remorso terá fugido para longe de vós, o arrependimento terá tomado o seu lugar. Os Espíritos bons vos acolherão como a uma ovelha perdida que terão encontrado; os maus imitarão vosso exemplo. Nesta família onde provocais a maldição, só falarão bem de vós; haverá reconhecimento; essa mocinha também orará por vós e, se o ódio vos desune, um dia o amor vos reunirá.

“Sempre se é infeliz quando se está sedento de vingança; não mais repouso para o que odeia. O que perdoa está perto de amar; a felicidade e a tranqüilidade substituem o sofrimento e a inquietação. Vinde, Germaine, vinde unir-vos a nós por vossas preces. Queremos que, a exemplo de Jules1 e de outros Espíritos que, como vós, viviam no mal, ficai perto de nós, sob feliz proteção de nossos guias. Estais só; sede a filha adotiva desta família que ora ao Eterno pelos que sofrem e ensina a todos a amá- lo para serem felizes. Se vos obstinardes na crueldade para com esta menina, prolongareis e agravareis os vossos sofrimentos, e ouvireis a maldição da mocinha e dos que a cercam.
“Merecei, pois, dos vossos irmãos a amizade que vos oferecem do fundo do coração; cessai essas torturas, donde vos retirais semimorta. Crede em nossa palavra; crede, sobretudo, nos conselhos dos Espíritos bons que nos guiam e, particularmente, nos da Pequena Cárita. Não sereis surda a essa prece. Dai-nos por prova que acolheis a nossa oferta, a paz e o sono tranqüilo à menina durante alguns dias. Vamos orar por vós e não cessaremos de pedir o fim de todos os vossos males.”Chamamos Germaine e lemos o que acabava de ser

P. – Ouvistes bem e compreendestes os votos que acabamos de exprimir?
Resp. – Sim. Estou mesmo admirada de todas essas pro- messas; não mereço tanto. Mas sou um Espírito desconfiado e não ouso nelas crer. Veremos se vossas preces me darão a calma de que estou privada há tanto tempo. É verdade, estou só e não conheço senão aquela que procura estraçalhar-me . Veremos.
P. – Não vedes Espíritos bons ao vosso lado? 

Resp. – Sim; mas nada espero, a não ser de vós.

P. – Pois bem! em troca do bem que vos queremos fazer, não poderíeis cessar de fazer o mal, de atormentar?…
Resp. – E eu sou a única causa desse mal? Ela contribui tanto quanto eu. Dizeis atormentar? Nós lutamos, nós nos atracamos; a culpabilidade é partilhada. Ela foi minha cúmplice. Não vejo por que faríeis pesar apenas sobre mim a responsabilidade por esses atos violentos, pelos quais também sou vítima.
P. – Entretanto, a mocinha não vos vai procurar; e se a atormentais, é porque quereis. Tendes o vosso livre-arbítrio.
Resp. – Quem vos disse? Estais equivocados. Uma fatalidade nos liga.
P. – Muito bem! contai-nos tudo.
Resp. – Não posso. Aqui não se goza de inteira liberdade… Sou franca.
P. – Vamos, Germaine! Vamos orar por vós. Até outra vez! Terminando, nossos guias nos disseram:

“Durante estes dias, reuni-vos tão numerosos quanto possível. Ocupai-vos mais particularmente dela. Vossa franqueza e vosso zelo a seu respeito a tocarão, e os resultados que buscamos, assim o esperamos, serão rápidos, graças a esta medida.

O dia 22 passou sem crise. Reunimo-nos à noite, como de costume.
Evocação de Germaine – P. – Muito bem, Germaine! Acreditais em nossa afeição por vós?
Resp. – Tenho direito de duvidar; dificilmente o pária acredita no ósculo fraterno, que lhe dão de passagem. Estou habituada a ver o desdém e o desprezo me perseguindo.
P. – Deus quer que nos amemos uns aos outros.
Resp. – Não conheço isto. Aqui, aquele a quem o remorso persegue ou oprime é um inimigo, uma serpente da qual se foge atirando-lhe pedra. Credes que isto não seja revoltante para o maldito? Ele se torna, por instinto, inimigo de todos; a paixão e o ódio o cegam. Infeliz do que cai nas garras desse abutre.
P. – Nós, Germaine, vos queremos amar e vos estendemos a mão.
Resp. – Por que não me falaram assim mais cedo? Há, no entanto, corações generosos no mundo que habito. Então eu lhes causava medo? Por que jamais me disseram: És nossa irmã e podes partilhar a nossa sorte? Ainda tenho o veneno na alma, sobretudo quando penso no passado. O crime merece uma pena, mas a punição foi muito grande: parecia que tudo caía sobre mim, para me esmagar. Nesses momentos desconhece-se Deus, a gente o blasfema, nega-o, revolta-se contra ele e os seus, quando se está abandonado.
Observação – Este último raciocínio do Espírito é resultado da superexcitação em que se acha, mas acaba de levantar uma questão importante. “Por que, no mundo onde estou, não me falaram como vós?” Em razão de a ignorância do futuro fazer parte momentaneamente do castigo de certos culpados. Somente quando vencido o seu endurecimento é que lhes fazem entrever um raio de esperança, como alívio às suas penas; é preciso que voluntariamente voltem os olhos para Deus. Mas os Espíritos bons não os abandonam; esforçam-se por lhes inspirar bons pensamentos; espreitam os menores sinais de progresso e, desde que vêem neles brotar o germe do arrependimento, provocam instruções que, esclarecendo-os, podem conduzi-los ao bem. Essas instruções lhes são dadas pelos Espíritos em tempo oportuno; também podem sê-lo pelos encarnados, a fim de mostrar a solidariedade que existe entre o mundo visível e o mundo invisível. No caso de que se trata, era útil à reabilitação de Germaine que o perdão lhe viesse da parte dos que se queixavam dela, o que era, ao mesmo tempo, um mérito para estes últimos. Esta a razão pela qual a intervenção dos homens é requisitada para a melhora e o alívio dos Espíritos sofredores, sobretudo nos casos de obsessão. Seguramente a dos Espíritos bons lhes poderia bastar, mas a caridade dos homens para com seus irmãos da erraticidade é para eles próprios um meio de avanço que Deus lhes reservou.

P. – O Espírito Jules, que vedes perto de nós, era também um criminoso, sofredor e infeliz?…
Resp. – Minha posição foi pior para mim. Citai tudo quanto pode afligir a alma; dizei quanto o veneno queima as entranhas: eu experimentei tudo; e o mais cruel para mim era estar só, abandonada, maldita. Não inspirei piedade a ninguém. Compreendeis a raiva que transborda de meu coração? Sofri muito! eu não podia morrer; o suicídio não me era possível; e sempre à minha frente o mais sombrio futuro! Jamais vi despontar um clarão; nenhuma voz me disse: Espera! Então gritei: “Raiva, vingança! A mim as vítimas! ao menos terei companheiras de sofrimento. Não
3 é a primeira vez que a menina sente a minha opressão.” .
3 Com efeito, os pais nos disseram que a criança, aos seis anos de idade, tinha passado por crises, das quais não se podia dar conta.
Observação – Se se perguntasse por que Deus permite que Espíritos maus saciem sua raiva nos inocentes, diremos que não há sofrimento imerecido, e aquele que hoje é inocente e sofre, por certo ainda tem alguma dívida a pagar. Esses Espíritos maus servem, neste caso, de instrumento à expiação. Além disso, sua malevolência é uma provação para a paciência, a resignação e a caridade.

P. – Agradecei a Deus por vos ter feito sofrer tanto; esses sofrimentos são a expiação que vos purificou.
Resp. – Agradecer a Deus! pedis muito; sofri demais! Era preferível o inferno àquilo que eu suportava. Como me ensinaram, os danados sofrem, choram e gritam juntos; eles podem debater-se e lutar entre si; eu estava só. Oh! é horrível! Descrevendo estas coisas, fico com vontade de blasfemar e de me lançar sobre a presa. Não creiais entravar-me, pondo entre mim e ela um anjo sorridente. Lutarei com todos, seja quem for.
P. – Seja qual for o sentimento que vos agita, só vos oporemos a calma, a prece e o amor.
Resp. – O que mais me agrada é que me falais sem me injuriar, sem me repelir e quereis fazer-me esperar. Oh! não espereis que me entregue imediatamente; tenho medo da decepção. Depois de ter feito tão belas promessas, tão belas que ainda não posso acreditar, iríeis abandonar-me? Oh! o que seria de mim, então? E refleti: Por que essa consolação tão tardia? e por que vós? Seria uma cilada oculta? Olha! não sei o que crer, o que fazer. Na verdade isto me parece estranho, surpreendente.
Observação – Prova a experiência, realmente, que as palavras duras e malévolas são um meio inadequado para se desembaraçar dos Espíritos maus; elas os irritam, o que os levam a obstinar-se ainda mais.
P. – Germaine, escutai-me. Vou explicar o que vos surpreende. Desde alguns anos, a imortalidade, a individualidade e a relação das almas com os que ainda estão na Terra nos têm sido demonstradas de maneira a não deixar margem a nenhuma dúvida. O Espiritismo – eis o nome desta nova doutrina – prescreve a seus adeptos que amem e socorram seus irmãos. Somos espíritas e, por amor a duas irmãs que sofrem, vós e a menina vossa vítima, viemos a vós para vos oferecer nosso coração e o socorro de nossas preces. Compreendeis agora?

Resp. – Não muito. Raciocinais como jamais ouvi. Deveis, pois, vos ocupar com os que vivem como vós e em vosso meio, e com os Espíritos que sofrem como eu? É um trabalho que deve ter o seu mérito.
P. – Se tendes ocasião para nos julgar sinceros, quereis prometer que serão boas as vossas disposições para com a mocinha?
Resp. – Boas na medida em que tereis sido bons comigo. Eu vos julgo todos sinceros; vossa linguagem me leva a acreditar; mas ainda duvido. Tirai-me esta dúvida e sou vossa. Esforçar-me-ei por fazer o que vos vou prometer; à medida que se apagar a dúvida, o mal enfraquecerá e, partida a dúvida, terá cessado o mal na menina. Infeliz de quem brincar comigo! ela morrerá estrangulada. Uma vítima espera a sua graça, que depende de vós, ou o golpe que lhe desferirei na cabeça. Não é uma ameaça para vos intimidar, mas uma advertência de que o ódio e a raiva me cegariam. Chegastes a tempo; talvez ela já estivesse morta. Já que nem sempre podemos conversar juntos, dizei aos vossos amigos que vivem onde vivo, que continuem a conversa; que não me repilam, embora minhas maldades não tenham cessado. Porque não me empenhei absolutamente e não podeis exigir mais do que prometi.
Pedimos aos nossos guias que dispensassem boa acolhida a Germaine. Eles responderam:
“Antes de tudo ela é nossa irmã muito amada, tanto mais que tem sofrido muito. Vinde, Germaine. Se jamais uma mão amiga apertou a vossa, aproximai-vos: nós vos estenderemos as nossas. Só a vossa felicidade nos preocupa. Em nós sempre encontrareis irmãos, a despeito da fraqueza de que ainda vos sentis capaz. Nós vos lamentaremos e não vos condenaremos. Entrai em vossa família, a felicidade nos sorri. Entre nós não correm as lágrimas amargas; a alegria substitui a dor; e o amor, o ódio. Irmã, vossas mãos!”

Vossos Guias
Não houve crise no dia 23, como a da véspera. À noite a mocinha foi com seu pai à sessão, para ouvir Germaine, pela qual já mostrava muito interesse.
Nossos guias nos disseram:
“Começai vossos trabalhos pela evocação de Germaine; ela o deseja muito. Deveis provar-lhe que ela vos preocupa especialmente. Evitai tudo quanto possa parecer esquecimento e indiferença, a fim de afastar todas as suas dúvidas. Lembrai que seus ataques apenas se interromperam temporariamente. Sede prudentes; sede felizes sem amor-próprio e sem orgulho; sobretudo, sede fervorosos em vossas preces. Se ela manifestar o desejo de conversar demoradamente, mesmo que toda a noite, não regateeis o tempo.”
Vossos Guias
Evocação de Germaine.
Resp. – Eis-me aqui, muito mais calma. Quero ser justa; creio ser um dever para convosco. Também vedes que agi como o havia dito. As boas relações fazem os bons amigos. Falai-me, pois, já que sois vozes amigas. É tão estranho e tão novo para mim que me permitireis deliciar-me com uma conversa onde o ódio será substituído pelo… ia dizer amor, e não o conheço! Dizei-me o que devo fazer para amar e ser amada, eu, a pobre miserável Germaine, envelhecida pela desgraça, pelo opróbrio e pelo crime!… Entre vós batizam? Eis uma neófita.”
– O batismo que pedis, Jeanne4, já o recebestes, respondi-lhe; está no vosso arrependimento, em vossa resolução de marchar por um novo caminho.

O dia 24 de setembro foi tão calmo quanto o precedente.

Na reunião da noite chamamos Germaine.
P. – Germaine, nós vos agradecemos…
Resp. – “Não faleis disto, porque me deixais envergo- nhada. Eu é que me devo inclinar e pedir graça. Devo-te uma grande reparação, pobre menina! A vida de que gozam os Espíritos é eterna. Deus pôs à minha frente os meios e o tempo para reparar os danos causados pela cegueira da paixão. Tranqüiliza-te; ora algumas vezes pela infeliz Germaine, a criminosa que, hoje arrependida, te pede perdão. Esquece, pobre menina, tuas dores e quem as causou. Lembra-te apenas de que agora ela deseja ser tua amiga. Não é mais a mesma Germaine; a prece que fizeram em minha intenção tornou-me a alma mais limpa; extinguiu-se minha sede de vingança. A lembrança de meu infame passado será minha expiação. Minha prece, junto à vossa, suavizará o remorso que me tortura. Obrigado a vós todos, que me chamastes à senda da verdade e do bem, quando eu estava perdida nas profundezas do vício e da impenitência.
“Agora acredito em vós; a dúvida desapareceu. Amo-vos e vos agradeço por me haverdes salvo e curado; também vos agradeço por esta pobre menina, a quem restituístes a saúde e a vida.
“Posso dizer-me feliz, por estar entre os Espíritos bons, que consolam e fortalecem por sua moral doce e persuasiva. Não mais estou só; a despeito de toda a perversidade de minha alma, eles me admitiram em sua bem-aventurada família. Sou a doente, eles são meus guardiães. Faltam-me expressões para vos dizer tudo o que sinto.
“Dizei-me todos, sobretudo tu, pobre filha, que me perdoais. Preciso ouvir esta palavra sair de teu coração. Por favor, dai-me esta consolação.”

A jovem Valentine lhe disse: “Sim, Germaine, eu vos perdôo; mais ainda: eu vos amo!”

– “E nós também, disse eu logo, nós vos amamos como a uma irmã.”
Germaine continuou:
“E eu também começo a amar. A quem devo esta transformação? Àqueles a quem injuriei e que, malgrado todo o horror que eu lhes devia inspirar, tiveram piedade de mim e me chamaram sua irmã, provando que não me enganavam.
“Sim, abris-me o caminho do futuro feliz. Estava pobre a abandonada e agora vivo entre os que têm muito; não posso mais me lastimar. Os Espíritos bons dizem que vão preparar-me para as provações que sofrerei infalivelmente; e, munida desta força, descerei ao meio das criaturas terrenas. Já não será para semear a morte ao meu redor, mas para amar e merecer sua benevolência e amizade.
“Terei muito a dizer, mas não quero ser importuna. Oremos; parece que isto me fará bem.
“Deus, Todo-Poderoso, eterno, misericordioso, ouve minha prece. Perdoa minhas blasfêmias, perdoa meus desvios. Eu não conhecia o caminho que leva ao reino do justo. Meus irmãos da Terra me fizeram conhecê-lo; meus irmãos Espíritos para ele me conduzem. Que a justiça infinita siga seu curso para a pobre Germaine; agora ela sofrerá sem se lastimar; nem um só murmúrio sairá de sua boca. Reconheço tua grandeza e tua bondade de pai para os teus bem-aventurados servos, que vieram me tirar do caminho do vício. Que minha prece suba a ti; que os anjos que te servem e cercam teu trono possam um dia acolher-me em seu meio, como o fizeram estes Espíritos bons. Hoje o compreendo: só a virtude conduz à felicidade. Fazei graça, ó meu Deus, aos que, como eu, ainda sofrem. Concedei à menina que torturei as doçuras e as virtudes que fazem a felicidade na Terra.”

Germaine
“Foi-vos dito: Ajuda-te, e o céu te ajudará; Os Espíritos que vos guiam não farão o trabalho que o dever vos impõe; mas, conforme houverdes trabalhado, eles abreviarão, tanto quanto puderem, a tarefa encetada sob a bandeira da caridade imortal. Agi, pois, sem desfalecimento e sem fraqueza; que vossa fé se fortaleça, e um dia, talvez, vos pergunteis donde vos vem essa força. Trabalhai pela moralização de vossos irmãos encarnados e a dos Espíritos atrasados; não vos contenteis em pregar as consolações do Espiritismo; mostrai-lhe a grandeza e o poder por vossos atos; é a melhor refutação que podereis opor aos vossos adversários. As palavras voam e os atos fortificam e levantam. Que a felicidade que entrar na família em companhia da jovem doutrina seja devida aos cuidados e à caridade dos sinceros adeptos. Sede confiantes, mas sem orgulho, do que vos acontecer, sem o que os frutos que daí deveis retirar serão perdidos para vós.”
Vossos Guias
Observação – Como se vê, os Espíritos não são inativos nem indiferentes em relação aos Espíritos sofredores, que é preciso trazer ao bem. Mas quando a intervenção dos homens pode ser útil, eles lhes deixam a iniciativa e o mérito, salvo para secundá-los com seus conselhos e seus encorajamentos.
A partir de 25 de setembro, seguindo os conselhos de nossos guias, adormeci a jovem Valentina todos os dias pelo sono magnético, para expurgá-la completamente da ação dos maus fluidos que a tinham envolvido e fortalecer o seu organismo. Desde sua libertação, ela experimentava mal-estar, distúrbios gástricos, pequenos espasmos nervosos, conseqüência inevitável da obsessão.
Observação – Para que teria servido o magnetismo, se a causa tivesse subsistido? Primeiramente, teria sido preciso destruir a causa, antes de atacar os efeitos, ou, pelo menos, agir sobre ambos simultaneamente.

Um tanto mimada pelos cuidados e carícias que lhe tinham prodigalizado, a menina tornara-se caprichosa e voluntariosa, e só com repugnância consentia em ser adormecida. Um dia até se recusou e fui-me embora. Ao chegar em casa, vieram avisar-me que ela tivera uma crise. “Bem, exclamei, é uma punição de Germaine.” Voltei imediatamente e encontrei a menina agitando-se na cama. Essa crise não era tão violenta quanto as precedentes, mas apresentava as mesmas características. Acalmei-a como nas outras. Algumas horas depois teve uma segunda, que eu mesmo interrompi.

À noite nós nos reunimos. Germaine veio sem ser chamada; disse que tinha querido dar uma lição à menina e adverti- la de que, quando não fosse razoável, far-lhe-ia sentir a sua presença. Além disso, lhe deu conselhos muito bons e fez sentir aos pais os inconvenientes de ceder aos caprichos dos filhos.
À fase da cura e da conversão do Espírito, sucedeu a das revelações tocantes ao drama, do qual a obsessão violenta da jovem Valentine era o desenlace. Por mais interessante e comovedora que seja esta parte do relato, suprimimos alguns detalhes, estranhos, até certo ponto, ao nosso tema, além de tratarem de assuntos contemporâneos, cuja lembrança penosa ainda está presente e tiveram por testemunhas interessadas pessoas ainda vivas. Nós os resumimos para as conclusões que deles devemos tirar. Pelos mesmos motivos, dissimulamos os nomes próprios, que nada acrescentariam à instrução que ressalta desta história.
Dessas revelações feitas na intimidade, fora do grupo, e por meio de um outro médium, resulta que Germaine é a avó do Sr. Laurent, o pai da jovem obsedada Valentine. Ela tinha uma filha, que teve dois filhos, dos quais um é o próprio Sr. Laurent; o outro foi assassinado por sua avó, que o lançou num barranco, em baixo dos rochedos de… Por esse homicídio, foi condenada a dez anos de reclusão, que sofreu na prisão de C… Dá as mais minuciosas indicações sobre todos esses fatos, precisando com exatidão os nomes, lugares e datas, de modo a não deixar qualquer dúvida quanto à sua identidade. Esses detalhes íntimos, só conhecidos pelo Sr. Laurent e sua mulher, foram por eles confirmados. Para melhor deixar-se reconhecer pelo neto, designou-o por seu apelido, ignorado pelo médium e só lhe falou em dialeto, como o fazia em vida.

Não havia, pois, como se enganar: Germaine era mesmo a avó de Laurent, a condenada por infanticídio. Quanto à sua filha, cujo filho foi assassinado, é hoje a filha de Laurent, a jovem Valentine, que vem ainda atormentar por uma cruel obsessão. Ela explicou a causa do ódio que lhe votara. Tinha havido luta entre elas como Espíritos, e essa luta continuou quando uma delas reencarnou. Um fato veio confirmar esta asserção: são as palavras que a mocinha pronunciou durante o sono. Como é compreensível, seus pais a tinham deixado sempre ignorar o que se passara na família. As palavras: A criança! a criança! nos rochedos! nos rochedos! evidentemente resultavam da lembrança que seu Espírito conservava no estado de desprendimento.
“Muito bem! disse eu ao pai de Valentine, estais bem convencido de que é o Espírito de vossa avó? – Oh! senhor, respondeu ele, já me havia convencido disto antes desta conversa. O nome de Germaine e as palavras de Valentine, durante suas crises, não me deixavam a menor dúvida a respeito; eu o disse logo à minha mulher. Ainda mais, quando me falastes do Espiritismo e das reencarnações, acorreu-me a idéia de que minha mãe estava encarnada em Valentine.”
Assim se explicam as repetidas exclamações de Laurent: “É engraçado!” e as de sua mulher: “Aí há mistério!”