Segunda Leitura – A História de Camilo

Capítulo IV –

O Homem Velho

Apresentamos o prefácio de Léon Denis e um trecho do capítulo IV com destaques.

Prefácio da segunda edição

Revisão criteriosa impunha-se nesta obra que há alguns anos me fora confiada para exame e compilação, em virtude das tarefas espiritualmente a mim subordinadas, como da ascendência adquirida sobre o instrumento mediúnico ao meu dispor.

Fi-lo, todavia, algo extemporaneamente, já que me não fora possível fazê-lo na data oportuna, por motivos afetos mais aos prejuízos das sociedades terrenas contra que o mesmo instrumento se debatia, do que à minha vontade de operário atento no cumprimento do dever. E a revisão se impunha, tanto mais quanto, ao transmitir a obra, me fora necessário avolumar de tal sorte as vibrações ainda rudes do cérebro mediúnico, operando nele possibilidades psíquicas para a captação das visões indispensáveis ao feito, que, ativadas ao grau máximo que àquele seria possível comportar, tão excitadas se tornaram que seriam quais catadupas rebeldes nem sempre obedecendo com facilidade à pressão que lhes fazia, procurando evitar excessos de vocabulário, acúmulos de figuras representativas, os quais somente agora foram suprimidos. Nada se alterou, todavia, na feição doutrinária da obra, como no seu particular caráter revelatório. Entrego-a ao leitor, pela segunda vez, tal como foi recebida dos Maiores que me incubaram da espinhosa tarefa de apresentá-la aos homens. E se, procurando esclarecer o público, por lhe facilitar o entendimento de factos espirituais, nem sempre conservei a feitura literária dos originais que tinha sob os olhos, no entanto, não lhes alterei nem os informes preciosos nem as conclusões, que respeitei como labor sagrado de origem alheia.

Que medites sobre estas páginas, leitor, ainda que duro se torne para o teu orgulho pessoal o aceitá-las! E se as lágrimas alguma vez rociarem tuas pálpebras, à passagem de um lance mais dramático, não recalcitres contra o impulso generoso de exaltar teu coração em prece piedosa, por aqueles que se estorcem nas trágicas convulsões da inconseqüência de infrações às leis de Deus! 

LÉON DENIS 

Belo Horizonte, 4 de abril de 1957.

Terceira Parte – A Cidade Universitária

 

Capítulo IV – Homem Velho

Perdi, pois, a lembrança do presente e mergulhei a consciência no passado… Então, senti-me vivendo no ano 33 da Era Cristã! Eu, porém, não recordava, simplesmente: eu vivia essa época, estava nela como realmente estive!

A velha cidade santa dos judeus — Jerusalém — vivia horas febricitantes nessa manhã ensolarada e quente.

Encontrei-me possuído de alegria satânica, indo e vindo pelas ruas regurgitantes de forasteiros, promovendo arruaças, soprando intrigas, derramando boatos inquietadores, incentivando desordens, pois estávamos no grande dia do Calvário e sabia-se que um certo revolucionário, por nome Jesus de Nazaré, fora condenado à morte na cruz pelas autoridades de César, com mais dois outros réus. Corri ao Pretório, sabendo que dali sairia para o patíbulo o sentenciado de quem tanto os judeus maldiziam. Eu era miserável, pobre e mau. Devia favores a muitos judeus de Jerusalém. Comia sobejos de suas mesas. Vestia-me dos trapos que me davam. Diante do Pretório, portanto, ovacionei, frenético, a figura hirsuta e torpe de Barrabás, ao passo que, à suprema tentativa do procônsul para livrar o Carpinteiro nazareno, pedi a execução deste em estertores de demônio enfurecido, pois aprazia-me assistir a tragédias, embebedar-me no sangue alheio, contemplar a desgraça ferindo indefesos e inocentes, aos quais desprezava, considerando-os pusilânimes… E presenciar aquele delicado jovem, tão belo quanto modesto, galgando pacientemente a encosta pedregosa sob a ardência inclemente do sol, madeiro pesado aos ombros, atingido pelos açoites dos rudes soldados de Roma contrariados ante o dever de se exporem a subida tão árdua em pleno calor do meio-dia, era espetáculo que me saberia bem à maldade do caráter e a que, de qualquer forma, não poderia deixar de assistir!… Contudo, revendo-me nesse passado, a mesma consciência, que guardara este acontecimento, entrou a repudiá-lo, acusando-se violentamente. Como que suores de pavor e agonia empastaram-me a fronte alucinada pelo remorso e bradei enlouquecido, sentindo que meu grito ecoava por todos os recôncavos do meu Espírito:

— Ó Jesus nazareno! Meu Salvador e meu Mestre! Não fui eu, Senhor! Eu estava louco! Eu estava louco! Não me reconheço mais como inimigo teu! Perdão! Perdão, Jesus!…

(…)

Eis-me à frente do Pretório, em atitude hostil. Não houve insulto que minha palavra felina deixasse de verberar contra o Nazareno. Feroz na minha pertinácia, acompanhei-o na jornada dolorosa gritando apupos e chalaças soezes; e confesso que só não o agredi a pedradas ou mesmo à força do meu braço assassino, por ser severo o policiamento em torno dele. É que eu me sentia inferior e mesquinho em toda parte onde me levavam as aventuras. Nutria inveja e ódio a tudo o que soubesse ou considerasse superior a mim! Feio, hirsuto, ignóbil, mutilado, pois faltava-me um braço, degenerado, ambicioso, de meu coração destilava o vírus da maldade. Eu maldizia e perseguia tudo, tudo o que reconhecesse belo e nobre, cônscio da minha impossibilidade de alcançá-lo! 

(…)

Eu maldizia e perseguia tudo, tudo o que reconhecesse belo e nobre, cônscio da minha impossibilidade de alcançá-lo!

(…)

Integrando o cortejo extenso, entrei a desrespeitar com difamações vis e sarcasmos infames a sua mãe sofredora e humilde, anjo condutor de ternuras inenarráveis para os homens degredados nos sofrimentos terrenos, já então, a mesma Maria, piedosa e consoladora, que agora me albergava maternalmente, com solicitudes celestes! E depois, em subsequências sinistras e aterradoras, eis-me a continuar o abominável papel de algoz: denunciando cristãos ao Sinédrio, perseguindo, espionando, flagelando quanto podia por minha conta própria; apedrejando Estêvão, misturando-me à turba sanhuda do poviléu ignaro; atraiçoando os “santos do Senhor” pelo simples prazer de praticar o mal, pois não me assistiam nem mesmo os zelos que impeliam a raça hebraica à suposição de que defendia um patrimônio nacional quando tentava exterminar os cristãos: eu não era filho de Israel! Viera de longe, incrédulo e aventureiro, da Gália distante, foragido de minha tribo, onde fora condenado à morte pelo duplo crime de traição à pátria e homicídio, tendo aportado na Judeia casualmente, nos últimos meses do apostolado do Salvador!

Léon Denis, revisor e prefaciador da obra Memórias de um Suicida

leondenis velho
Léon Denis (1 Janeiro de 1846 – 12 Março de 1927

Considerado o continuador de Allan Kardec, dentre suas obras, destacam-se:

O Problema do Ser e do Destino; Cristianismo e Espiritismo; Depois da Morte; Espíritos e Médiuns; Joana D’Arc, Médium; No Invisível; O Além e a Sobrevivência do Ser; O Espiritismo e o Clero Católico; O Espiritismo na Arte; O Gênio Céltico e o Mundo Invisível; O Grande Enigma; O Mundo Invisível e a Guerra; O Porquê da Vida; O Progresso; Provas Experimentais da Sobrevivência; Socialismo e Espiritismo;  O Além e a sobreviências.

Curiosamente seu nome Léon Denis está contido no nome de Alla Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail). Como houve mais de um forma de escrever o nome de Kardec, em alguns  documentos o nome – Denizard – está com “s”, Denisard.