Reflexões sobre o movimento espírita

Abordamos em artigos e entrevistas as dificuldades e possibilidadades do atual movimento espírita.

Se os fatos importassem 

O fanatismo consiste em redobrar o próprio esforço quando nos esquecemos do objetivo.

George Santayana

    Em meio a tantas afirmações desencontradas e denúncias sem fundamento real, apresento esse texto que busca dar a conhecer as acusações feitas na atual polêmica de A Gênese que, se se considerasse com seriedade os fatos, já deveria ter sido encerrada.

    Desde o final de 2017, mais uma vez, a última obra de Allan Kardec, A Gênese, tem sua validade questionada de forma entusiástica e militante. O assunto é grave; requer rigor e critério. Acusar pessoas de terem adulterado A Gênese ou desqualificar o trabalho intelectual de Kardec, pensador lúcido e ponderado, é ousadia imprudente, se não há sólidas provas. Por isso, é obrigação moral e intelectual ater-se a provas documentais sérias e explicitar o que são hipóteses mais ou menos prováveis.

Um pouco de história

    A atual polêmica sobre a autenticidade de A Gênese nasce quando Henri Sausse, levianamente, acusa Pierre-Gaëtan Leymarie, no ano de 1884, de ter adulterado essa obra, por ele publicada supostamente em 1872. Em sua defesa Leymarie conta com três importantes testemunhas, uma delas, o senhor Armand Theodore Desliens (1843-1905) que auxiliou Allan Kardec como médium, tendo recebido inúmeras mensagens de São Luís, Galileu, Rossini, Quinemant, Demeure, dentre outros, conforme publicado na Revista Espírita, além de mensagens que orientaram a elaboração das obras espíritas. Foi também secretário de Kardec entre os anos 1866 e 1869 até o desencarne do Mestre. Solicitado a testemunhar sobre a denúncia de Henri Sausse afirma que Kardec teria publicada uma nova edição de A Gênese 1869, com “modificações nessa nova edição, e são elas, evidentemente, as que são objetos da polêmica instaurada sobre esse tema.”

Fato histórico

    Eis o fato: a referida Gênese de 1869 nunca tinha sido encontrada (se alguém a conhecia, não divulgou), o que levou muitos a desconfiar da honestidade do senhor Armand Desliens. Em 2019, isso mudou. Foi descoberto um exemplar de A Gênese, publicada em 1869, conforme capa e documentação anexa, com modificações idênticas as de 1872. Assim, encerra-se a possibilidade de ser verídica a denúncia elaborada por Henri Sausse contra Leymarie. Objetivamente, não seria possível Leymarie ter realizado as mais de 1500 alterações nesta edição e tê-la publicado no ano de 1869, pois ele sequer tinha acesso às publicações de Kardec nessa época. No ano de 1869, duas pessoas foram responsáveis legais e espirituais pelas publicações de Allan Kardec. A primeira delas é ele próprio; a segunda é Amélie Gabrielle Boudet (1795 -1883) sua esposa, colaboradora intelectual, herdeira e responsável legal por tudo que foi publicado em nome de seu falecido marido. Isso esclarece a questão. Todas as pesquisas que colaboraram para que se chegasse a essa compreensão merecem nosso sincero reconhecimento, bem como todos os que se sacrificaram para que estas se realizassem.

Leviandade de Henri Sausse

    A título de esclarecimento devemos responder a seguinte questão: por que a acusação de Henri Sausse foi leviana? Primeiro, a origem da acusação. Conforme relatado por ele mesmo, foi um boato ouvido de um indivíduo que ele conheceu e que dizia ser amigo de Leymarie; segundo, a única prova que ele possuía, além do boato, era que A Gênese fora alterada e, em sua avaliação pessoal, para pior. Desconhecia Henri Sausse que Kardec havia alterado todos os livros da codificação espírita?! Não sabemos. Porém, sabemos que entre haver alterações e crimes intelectuais há grande distância; e entre constatar alterações em uma obra e acusar determinado indivíduo, sem provas, de ser o adulterador a distância é ainda maior. Henri Sausse não tinha nenhuma evidência sólida para denunciar publicamente alguém de um feito tão grave. É importantíssimo registrar que nem Alexandre Delanne, Gabriel Delanne, Léon Denis e Berthe Fropo, amiga do casal Kardec e frequentadora da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, seguiram essa temerária postura. Os legítimos continuados de Kardec não se apequenaram.

    Além disso, as acusações de Henri Sausse de que as alterações de A Gênese, realizadas em 1869, favoreceriam à tese roustainguista é simplesmente falsa. Na verdade, as modificações causaram muitos dissabores aos seguidores de Roustaing ao ponto deles terem publicado uma réplica à afirmação, inserida em A Gênese de 1869, de que o roustainguismo era a mesma doutrina dos docetas, seita do segundo século do cristão, condenada pela igreja cristã primitiva.

Hipótese

    O que explicaria um erro tão grosseiro da parte de Henri Sausse? Aqui entramos no terreno das hipóteses. Antes, relembremos os fatos. Os fatos centrais são apenas dois. Primeiro, a acusação a Leymarie é falsa, porque a descoberta de A Gênese, de 1869 confirma os depoimentos que inocentaram Leymarie de a ter adulterado. Segundo, a afirmação de uma alteração em favor do roustainguismo também é falsa uma vez que a crítica à doutrina roustainguista é ampliada.

    Vamos, agora, ao terreno das hipóteses. Por que Henri Sausse fez o que fez? Ele mesmo afirma em seu artigo infamante: “Perdoem-me, Irmãos e Irmãs de fé, se, a contragosto, deixei-me levar pela indignação que minha alma transborda. Deveria expulsar do meu coração todo pensamento de raiva e ódio. Há, contudo, circunstâncias em que não se pode conter uma indignação muito justa…” Eis a minha hipótese: Henri Sausse pensou que seu ódio era justificado. Aqui está a lição que aprendo e desejo compartilhar: não se faz pesquisa séria quando se defende interesses institucionais, pessoais ou o ódio.

Conclusão

    O intelectual decadente de Dostoiévski, em Os Demônios, Stiepan Trofímovitch, próximo de morte, deitado em uma mísera cama de albergue, pede a uma vendedora ambulante do Evangelho, que O leia para ele, pois há mais de trinta anos não O lia… Após tantas decepções e sofrimentos, se dá seu momento de redenção: ao ouvir e leitura do Evangelho, ele reconhece o erro de sua postura moral e intelectual ao longo da vida. Afirma, “Minha amiga, passei a vida inteira mentindo. Até quando falava a verdade. Nunca falei pela verdade mas apenas por mim mesmo, disso eu já sabia antes mas só agora vejo…”

    Não esperemos nós, à véspera da morte, para compreender que falar a verdade é mais do que não mentir.

    Allan Kardec devotou sua vida para nos deixar o Espiritismo, que ele qualificava de santa Doutrina. Não devemos, nós espíritas, agir de forma precipitada ou leviana ao lidar com temas espíritas. A verdade deve estar acima de quaisquer interesses emocionais, materiais ou institucionais. Não devemos mentir em nome da Verdade.

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