Educação Espírita: um Convite à Juventude – Reencarnação – 3

Um dos conceitos centrais que abordamos foi o de sub-personalidade que segundo a visão espírita significa continuar emocionalmente vivendo modelos emocionais de muitos séculos passados. Segundo a compreensão espírita, o passado sempre estará no presente. 


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Educação Espírita: um Convite à Juventude

Módulo – Reencarnação

Encontro 3 – Nossas sub-personalidades

 

Memórias de um Suicida

Terceira Parte – A Cidade Universitária –  V – A causa de minha cegueira no século XIX

Transcorriam os primeiros decênios do século XVII quando renasci nos arredores de Toledo, a antiga e nobre capital dos Visigodos, que as águas amigas e marulhentas do velho Tejo margeiam qual incansável sentinela…

Arrojava-me a outro renascimento nos alcantilados proscênios terrestres em busca de possibilidades para urgente aprendizado que me libertasse o Espírito imerso em confusões, o qual deveria aliviar os débitos da consciência perante a Incorruptível Lei, pois impunha-se a necessidade dos testemunhos de resignação na pobreza, de humildade passiva e regeneradora, de conformidade ante um perjúrio de amor até então em débito nos assentamentos do Passado, de devotamento ao instituto da Família.

Pertencia então a uma antiga família de nobres arruinados e, na ocasião, perseguidos por adversidades insuperáveis, tais como rivalidades políticas e religiosas e desavenças com a Coroa.

A primeira juventude deixou-me ainda analfabeto, bracejando nas árduas tarefas do campo. Apascentava ovelhas, arava a terra qual miserável tributário, repartindo-me em múltiplos afazeres sob o olhar severo de meu pai, rude fidalgo provinciano a quem desmedido orgulho religioso, inspirado nas idéias da Reforma, fizera cair em desgraça, no conceito do soberano, suspeitado que fora de infidelidade à fé católica e mantido em vigilância; rigoroso no trato da família como dos servos, qual condestável para os feudos. Os rígidos deveres que me atinham à frente das responsabilidades agrárias, porém, mais ainda atiçavam em meu imo a nostalgia singular que desalentava meu caráter, pois no recesso de minhalma tumultuavam ambições vertiginosas, descabidas em um jovem nas minhas penosas condições. Sonhava, nada menos, do que abandonar o campo, insurgir-me contra o despotismo paterno, tornar-me homem culto e útil como os primos residentes em Madrid, alguns deles militares, cobertos de glórias e condecorações; outros formando na poderosa Companhia de Jesus, eruditos representantes da Igreja por mim considerada única justa e verdadeira, em desajuste com as opiniões paternas, que a repudiavam. Invejava essa parentela rica e poderosa, sentindo-me capaz dos mais pesados sacrifícios a fim de atingir posição social idêntica.

Certo dia revelei à minha mãe o desejo que, com a idade, avultava, tornando-me insatisfeito e infeliz. A pobre senhora que, como os filhos e os servos, também sofria a opressão do tirano doméstico, aconselhou-me prudentemente, como inspirada pelo Céu, a moderação dos anelos pela obediência aos princípios da Família por mim encontrados ao nascer, objetando ainda ser minha presença indispensável na casa paterna, visto não poder prescindir o bom andamento da lavoura do experiente concurso do primogênito, e seu futuro chefe. Não obstante, dadas as minhas instâncias, intercedeu junto ao senhor e pai no sentido de permitir-me instrução, o que me valeu maus tratos e castigos inconcebíveis num coração paterno! Com a revolta daí consequente fortaleceu-se o desejo tornado obsessão irresistível, a qual só com imenso sacrifício era contida por meu gênio impetuoso e rebelde.

Recorri ao pároco da circunscrição, a quem sabia prestativo e amigo das letras. Narrei-lhe as desventuras que me apoucavam, pondo-o a par do desejo de alfabetizar-me, Instruir-me quanto possível. Aquiesceu com bondade e desprendimento, passando a ensinar-me quanto sabia. E porque se tratasse de homem culto, intelectualmente avantajado, sorvi a longos haustos as lições que caritativamente a mim concedia, demonstrando sempre tanta lucidez e boa vontade que o digno professor mais ainda se esmerava, encantado com as possibilidades intelectuais deparadas no aluno. A meu pedido, porém, e compreendendo, com alto espírito de colaboração, as razões por mim apresentadas, minha família não foi posta ao corrente de tal acontecimento. Minha frequência à casa paroquial passou a ser interpretada como auxílio à paróquia para o amanho da terra, favor que meu pai não ousava negar, temeroso de represálias e delações.

Um dia, depois de muito tempo passado em martirizar a mente à procura de solução para o que considerava eu a minha desventura, surgiu nas cogitações desesperadas das minhas ambições a infeliz idéia de fazer-me sacerdote. Seria, pensei, meio seguro e fácil de chegar aos fins de que me enamorava… Não se tratava, certamente, de honrosa vocação para os ideais divinos, como não se cogitava de servir às causas do Bem e da Justiça através de um apostolado eficiente, pois que, nas manifestações de religiosidade que a mim e a minha mãe impeliam, não entravam a vera crença em Deus nem o respeito devido às suas Leis! Expus ao pároco, meu antigo mestre, o intento considerado louvável por minhas pretensiosas ambições. Para surpresa minha, no entanto, aconselhou-me, bondosa e dignamente, a evitar cometer o sacrilégio de me prevalecer da sombra santificadora do Divino Cordeiro para servir às paixões pessoais que me inquietavam o coração, entenebrecendo-me o senso… pois percebia muito bem, por ver a descoberto o meu caráter, que nenhuma verdadeira inclinação me induzia ao delicado ministério.

“— O Evangelho do Senhor, meu filho — rematou certa vez, após um dos prudentes discursos em que costumava expor as graves responsabilidades que pesam sobre a consciência de um sacerdote —, deverá ser servido com inflamado amor ao bem, renúncias continuadas, durante as quais havemos de muitas vezes morrer para nós mesmos, como para o mundo e suas paixões; com trabalho sempre ativo, incansável, renovador, a benefício alheio e para glória da Verdade, e que se destaque por legítima honestidade, espírito de independência e cooperação, sem nenhum personalismo, porquanto o servidor de Jesus deve dar-se incondicionalmente à Causa, abstraindo-se das opiniões e vontades próprias, que nenhum valor poderão ter diante dos estatutos e das normas da sua doutrina! É caminho áspero, semeado de urzes e percalços, de ininterruptos testemunhos, sobre o qual o peregrino derramará lágrimas e se ferirá continuadamente, ao contacto de desgostos cruciantes! As flores, só mais tarde ele as colherá, quando puder apresentar ao Excelso Senhor da Vinha os preciosos talentos confiados ao seu zelo de servo obediente e prestimoso… “Quem quiser vir após mim — foi Ele próprio que sentenciou —, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!”

Fora daí, meu caro filho, apenas servirá o ambicioso ao regalo das ambições pessoais, afastando-se do Senhor com ações reprováveis enquanto finge servi-Lo!

Não tens vocações para a renúncia que se impõe frente ao honroso desempenho!… Deixa-te ficar tranquilamente, servindo ao próximo com boa vontade e como puderes, mesmo no seio da família, que não andarás mal…

Não te sentes verdadeiramente submisso à palavra de comando d’Aquele que se deu em sacrifício nos braços de uma Cruz!… Não te precipites, então, querendo arrostar responsabilidades tão grandiosas e pesadas que te poderão comprometer o futuro espiritual! Retorna, filho, às tuas obrigações de cidadão, porfiando no cumprimento dos deveres cotidianos, experimentando a cada passo a decência dos costumes… Volta à tua aldeia, apascenta o teu gado, deixa-te permanecer isento de ambições precipitadas, que te será isso mais meritório do que atraiçoar um ministério para o qual não te encontras ainda preparado… Ara cuidadosamente a terra amiga, zelando alegremente pelo torrão que te serviu de berço… e, espargindo em seu generoso seio as sementes pequeninas e fecundas, bem cedo compreenderás que Deus permanece contigo, porque verás suas bênçãos sempre renovadas nos frutos saborosos dos teus pomares, nas espigas loiras do trigo que alimentará a família toda, no leite criador que robustecerá o corpo de teus filhos… Cria antes o teu lar! Educa filhos no respeito a Deus, no culto da Justiça, no desprendimento do Amor ao próximo!

Sê, tu mesmo, amigo de quantos te rodearem, sem esqueceres as tuas plantações e os animais amigos que te servem tão bem como teus próprios servos, que tudo isso é sacerdócio sublime, é serviço santificante do Senhor da Vinha…”

A idéia dos esponsais substituiu com rapidez as antigas aspirações, impressionando-me os conselhos do digno servo do Evangelho, que me calaram fortemente. Afoito e apaixonado, entreguei-me ao nobre anelo com grandes arrebatamentos do coração, passando a preparar-me, satisfeito, para a sua consecução. Dada, porém, a situação melindrosa em que me colocara na casa paterna, desarmonizado com o gênio de meu genitor, e a pobreza desconcertante que me tolhia as ações, mantive em segredo os projetos de consórcio elaborados carinhosamente pelo coração, que perdidamente se enamorara…

Dentre as numerosas moçoilas que alindavam nossa aldeia com a graça dos atrativos pessoais e as prendas morais que lhes eram recomendações inesquecíveis, destaquei uma, sobrinha de minha mãe, à qual havia muito admirava, sem contudo ousar externar sequer a mim mesmo os ardores que me avivavam o peito ao avistá-la e com ela falar.

Chamava-se Maria Magda. Era esbelta, linda, corada, com longas tranças negras e perfumadas que lhe iam à cinta, e belo par de olhos lânguidos e sedutores. Como eu, era filha de nobres arruinados, com a vantagem única de ter adquirido boa educação doméstica e mesmo social, graças à boa compreensão de seus pais.

Passei a requestá-la com ardor, muito enamorado desde o início do romance, tal como seria lógico em um caráter violento e revel. Senti-me correspondido, não suspeitando que somente a solidão de uma aldeia isolada entre os arrabaldes tristes de Toledo, onde escasseava rapaziada galante, criara a oportunidade por meus sonhos considerada irresistível! Amei a jovem Magda com indomável fervor, em suas mãos depositando o meu destino. De bom grado ter-me-ia para sempre refugiado na lenidade de um lar honradamente constituído, pondo em prática os ditames do generoso conselheiro. A adversidade, no entanto, rondava-me os passos, arrastando ao meu encontro tentações fortes nos trabalhos dos testemunhos inadiáveis, tentações das quais me não pude livrar, devido ao meu gênio que me infelicitava o caráter, à insubmissão do orgulho ferido como à revolta que desde o berço predominava em minhas atitudes à frente de um desgosto ou de uma simples contrariedade!

Maria Magda, com quem, secretamente, eu concertara aliança matrimonial para ocasião propícia, preteriu-me por um jovem madrileno, primo de meu pai, adepto oculto da Reforma, que visitara nossa humilde mansão, conosco passando a temporada estival! Tratava-se de guapo militar de vinte e cinco anos, a quem muito bem assentavam os cabelos longos, os bigodes luzidios e aprumados, como bom cavalheiro da guarda real que era; a espada de copos reluzentes como ouro, as luvas de camurça, a capa oscilante e bem cheirosa, que lhe dava ares de herói! Chamava-se Jacinto de Ornelas y Ruiz e acreditava-se, ou realmente era, conde provinciano, herdeiro de boas terras e boa fortuna. Entre sua figura reconhecidamente elegante, as vantagens financeiras que arrastava e a minha sombra rústica de lavrador bisonho e paupérrimo, não seria difícil a escolha para uma jovem que não atingira ainda as vinte primaveras!

Jacinto de Ornelas não voltou sozinho à sua mansão de Madrid!

Maria Magda concordou em ligar seu destino ao dele pelos vínculos sagrados do Matrimônio, deixando a aldeia, afastando-se para sempre de mim, risonha e feliz, prevalecendo-se, para a traição infligida aos meus sentimentos de dignidade, do segredo dos nossos projetos, porquanto nossos pais tudo ignoravam a nosso respeito, enquanto eu, humilhado, o coração a sangrar insuportáveis torturas morais, tive, desde então, o futuro irremediavelmente comprometido para aquela existência, falindo nos motivos para que reencarnei, olvidando conselhos e advertências de abnegados amigos, em vista da inconformidade e da revolta que eram o apanágio da minha personalidade!

Jurei ódio eterno a ambos. Rancoroso e despeitado, desejei-lhes toda a sorte de desgraças, enquanto projetos de vingança compeliam minha mente a sugestões contumazes de maldade, tornando-me a existência num inferno sem bálsamos, num deserto de esperanças! Minha aldeia tornou-se-me odiosa! Por toda a parte por onde transitasse era como se defrontasse a imagem graciosa de Magda com suas tranças negras baloiçando ao longo do corpo… A saudade inconsolável apoucava-me o ser, humilhando-me profundamente! Envergonhava-me ante a população local pela traição de que fora vítima.

Supunha-me ridiculizado, apontado por antigos companheiros de folguedos, acreditando girar o meu nome em torno de comentários chistosos, pois muitos havia que descobriram o meu segredo. Perdi a atração pelo trabalho. O campo se me tornou intolerável, por humilhar-me ante a recordação do faceiro aspecto do rival que me arrebatara os sonhos de noivado! Em vão compassivos amigos aconselharam-me a escolher outra companheira a fim de associá-la ao meu destino, advertindo-me de que o fato, que tão profundamente me atingira, seria coisa vulgar na vida de qualquer homem menos rigoroso e irascível. Ardente e exageradamente sentimental, porém, aboli o matrimônio de minhas aspirações, encerrando no coração revoltado a saudade do curto romance que me tornara desditoso.

Então sussurraram novamente ao meu raciocínio as antigas tendências para o sacerdócio.

Acolhias agora com alvoroço, disposto a me não deixar embair pelas cantilenas fosse de quem fosse, encontrando grande serenidade e reconforto à idéia de servir à Igreja enquanto levasse a progredir minha humílima condição social. Não seria certamente difícil: se recursos financeiros escasseavam, havia um nome respeitável e parentes bem-vistos que me não negariam auxílio para a realização do grande intento. Escorei-me ainda na impetuosa esperança de vencer, de ser alguém, de subir fosse por que meio fosse, contando que ultrapassasse Jacinto na sociedade e no poder, fazendo-o curvar-se diante de mim, ao mesmo tempo em que de qualquer modo humilhasse Maria Magda, obrigando-a a preocupar-se comigo ainda que apenas para me odiar!

A morte de meu venerando genitor simplificou a realização de meus novos projetos.

Afastei as razões apresentadas por minha mãe, tendentes a me deterem na direção da propriedade, substituindo o braço forte que se fora. Inquietação insopitável desvairava meus dias. Idéias ominosas firmavam em meu cérebro um estado permanente de agitação e angústia, estabelecendo-se um complexo em meu ser, difícil de solucionar no decurso de apenas uma existência!

Seguidamente presa de pesadelos alucinatórios, sonhava, noites a fio, que meu velho pai, assim outros amigos falecidos, voltavam do túmulo a fim de me aconselharem a deter-me na pretensão adotada com vistas ao futuro, preferindo o consórcio honesto com alguma de minhas companheiras de infância, pois era esse o caminho mais digno para facultar-me tranquilidade de consciência e ventura certa. Mas o ressentimento por Magda, incompatibilizando-me com novas tentativas sentimentais, desfazia rapidamente as impressões tentadas a meu favor pelos veneráveis amigos espirituais que desejavam impedir praticasse eu novos e deploráveis deslizes frente à Lei da Providência.

Fiz-me sacerdote com grande facilidade!

A Companhia de Jesus, famosa pelo poderio exercido em todos os setores das sociedades regidas pela legislação católico romana e pelos feitos e realizações que nem sempre primaram pela obediência e o respeito às recomendações do excelso patrono, de cujo nome usou e abusou, proporcionou-me auxílios inestimáveis, vantagens verdadeiramente inapreciáveis! Instruí-me brilhante e rapidamente à sua sombra, como tanto almejara desde a infância! Absorvia, sequioso, o manancial de ilustração que me ofertavam na comunidade ao observarem minhas ambições frementes, fácil instrumento que seria eu para se amoldar sob o férreo domínio de suas garras! Era como se minha inteligência apenas recordasse do que era dado a aprender, tal o poder de assimilação que em minhas faculdades existia! Minha gratidão, por sua vez, não conheceu limites!

Prendi-me à Companhia com todas as forças de que dispunha minhalma ardorosa. Obedecia aos superiores com zelo fervoroso, servindo-os a contento, indo mesmo ao encontro dos seus desejos!

Os interesses da Igreja, como do clero da organização em foco, aprendi a respeitar e servir acima de todas as demais conveniências, fossem quais fossem, tal como bem assentaria a um vero jesuíta!

Não me referirei à causa divina. Não a esposei, dela não cogitando a fim de edificar minhalma com as claridades da Justiça e do Dever. Tampouco aprendi a amar a Deus ou a servir o Mestre Redentor no seio da comunidade a que me filiara.

Certamente que na Companhia de Jesus existiam servos eminentes, cujos padrões de desempenhos cristãos poder-se-iam equiparar ao dos primeiros obreiros do apostolado messiânico.

Com esses, todavia, não me solidarizei. Não os conheci nem suas existências lograram interessar-me.

Da poderosa organização religiosa que foi a Companhia de Jesus, eu apenas desejava a posição social que ela me podia proporcionar, a qual me compensasse da obscuridade do meu nascimento: como os deleites do mundo, as loucas satisfações do orgulho, das ambições inferiores, das vaidades soezes, já que o perjúrio da noiva idolatrada cerceara meus nascentes projetos honestos!

Assim sendo, isto é, a fim de todo esse detestável cabedal lograr adquirir, servi com zelos frenéticos às leis da Inquisição! Persegui, denunciei, caluniei, intriguei, menti, condenei, torturei, matei! Denunciaria, meu próprio pai, tal a demência que de mim se apossara, levando-o ao tribunal como agente da Reforma, se, protegido pela misericórdia celeste, não tivesse ele entregado antes a alma ao Criador! Não o fazia, porém, propriamente com requintes de maldade: meu intento era servir os superiores, engrandecer a causa da Companhia, provar com dedicação imorredoura e incondicional a gratidão que me avassalara a alma apaixonada, pelo amparo que me haviam dispensado! Fui, eu mesmo, vítima da mesma instituição, porque, reconhecendo-me submisso, penhorado pelos favores recebidos, exploravam os chefes maiorais tais sentimentos, induzindo-me à prática de crimes abomináveis, certos da minha impossibilidade de tergiversação. Se, ao em vez desta, eu optasse por alguma comunidade franciscana, ter-me-ia certamente educado, transformando-me numa alma de crente, incapaz de práticas danosas. Pelo menos ter-me-ia habituado à honradez dos costumes, ao respeito ao nome do Criador, ao interesse pelas desgraças alheias, pensando em remediá-las.

A Companhia de Jesus, no entanto, mau grado o nome excelso do qual se valeu a fim de inspirar-se, converteu-me em réprobo, uma vez que me aliciei justamente ao departamento político-social, que tantos abusos cometeu no seio das sociedades e em nome da religião!

Durante muito tempo esqueci aqueles que me haviam atraiçoado. Não os procurei, não me importou o destino que tinham tomado. A verdade é que se transferiram para a Holanda, onde Jacinto de Ornelas se incumbira de certa missão militar. Mas um dia o acaso me pôs novamente na presença deles! Haviam já passado quinze longos anos que sua execrada visita à mansão de meus tinham afastado da Pátria, agora o faziam retornar, gozando de excelente conceito até mesmo nas antecâmaras reais, desfrutando invejável posição social. Ao vê-lo, obrigado a apertar-lhe a mão em certa cerimônia religiosa, filo como a um estranho, sentindo, não obstante, que o coração fremia em meu peito, enquanto a antiga rivalidade, as doridas angústias experimentadas no passado fervilhavam, tumultuosas, à sua vista, prevenindo-me de que, se o sentimento de amor por Maria Magda desaparecera, sufocando-me na vergonha do perjúrio indigno, no entanto, a chaga aberta então sangrava ainda, clamando por desforras e represálias!

Procurei observar a vida de tão odiado varão: seus passos de adepto da Reforma, seu passado como seu presente, o que fazia, o que pretendia, como vivia, o grau de harmonia existente no lar doméstico e até as particularidades de sua existência, graças ao experimentado corpo de espiões que me ficava as ordens, como bom agente do Santo Ofício que era eu. Jacinto de Ornelas era feliz com a esposa e amavam-se terna e fielmente. Tinham filhos, aos quais procuravam educar nos preceitos de boa moral. Maria Magda, dama formosa e cortejada, que se impunha na sociedade por virtudes inatacáveis, apresentava a beleza altiva e digna das suas trinta e três primaveras, e, desorientado, enlouquecido por mil projetos nefastos e degradantes, ao vê-la pela primeira vez, depois de tantos anos de ausência, senti que não a esquecera como a princípio supusera, que a amava ainda, para desventura de todos nós!

A antiga paixão, a custo sopitada pelo tempo, irrompeu porventura ainda mais ardente desde que comecei a vê-la novamente, todas as semanas, praticando ofícios religiosos numa das igrejas da nossa diocese, como boa católica que desejava parecer, a fim de ocultar as verdadeiras inclinações reformistas que animavam a família toda.

Desejei atraí-la e cativar, agora, as atenções amorosas negadas outrora, e, sob a pressão de tal intento, visitei-a oferecendo préstimos e me desfazendo em amabilidades. Não o consegui, todavia, não obstante as visitas se sucederem. Recrudesceu em meu seio o furor sentimental, compreendendo-me totalmente esquecido, tal como a erupção inesperada e violenta de vulcão adormecido desde séculos! Tentei cativá-la ternamente, rojando-me em mil atitudes servis, apaixonadas e humilhantes. Resistiu-me com dignidade, provando absoluto desinteresse pelo afeto que lhe depunha aos pés, como também pelas vantagens sociais que eu lhe poderia fornecer.

Experimentei suborná-la, levando-a a compreender o poder de que dispunha, a força que o hábito da Companhia me proporcionava no mundo todo, o acervo de favores que lhe poderia prestar e ao marido, até mesmo garantias para exercer a sua fé religiosa, pois eu saberia protegê-los contra as repressões da lei, desde que concordasse em aquiescer aos meus ansiosos projetos de amor!

Repeliu-me, no entanto, sem compaixão nem temor, escudada na mais santificante fidelidade conjugal por mim apreciada até então, deixando-me, aliás, convencido de que mais do que nunca se escancarara supremo abismo entre nossos destinos, que eu tanto quisera unidos para sempre!

Ora, Jacinto de Ornelas y Ruiz, que fora conhecedor da paixão que me infelicitara a existência, agora, vendo-me assediar-lhe o lar com atitudes amistosas, percebeu facilmente a natureza dos intentos que me animavam. Eu, aliás, não procurava dissimulá-los.

Agia, ao contrário disso, acintosamente, dado que a pessoa de um jesuíta e, ainda mais, oficial do Santo Ofício, era inviolável para um leigo! Posto ao corrente dos fatos pela própria esposa, que junto dele procurava forças e conselhos a fim de resistir às minhas insidiosas propostas, encheu-se de temor, desacreditado dos laços de parentesco; e, concertando entendimentos e resoluções com os seus superiores, preparou-se a fim de deixar Madrid, buscando refúgio no estrangeiro para si próprio, como para a família.

Descobri-o, porém, a tempo! Viver sem Magda era tortura que já me não seria possível suportar! Eu quisera antes tornar-me desgraçado, ainda que desprezado por ela com descaso porventura mais chocante, quisera mesmo ser odiado com todas as forças do seu coração, mas que a tivesse ao alcance dos meus olhos, que a visse frequentemente, que a soubesse junto de mim, embora que em verdade separados estivéssemos por duras e irremediáveis impossibilidades!

Desesperado, pois, desejando o inatingível por qualquer preço, denunciei Jacinto de Ornelas como huguenote, ao Tribunal do Santo Ofício, pensando livrar-me dele para melhor apossar-me da esposa! Provei com fatos a denúncia: livros heréticos em relação à Virgem Mãe, que sempre foram armas terríveis nas mãos dos denunciantes para perderem vítimas das suas perseguições, espantalhos fabricados, não raramente, pelos próprios que ofereciam a denúncia; farta correspondência comprometedora com luteranos da Alemanha; inteligências com adeptos dispersos pelo país inteiro como pela França; sua ausência sistemática do confessionário, os próprios nomes dos filhos, que lembravam a Alemanha e a Inglaterra, mas não a Espanha, e cujos registros de batismo não pôde apresentar, alegando haverem sido realizadas na Holanda as importantes cerimônias. Tudo provei, não, porém, por zelo à causa da religião que eu pudesse considerar digna de respeito, mas para me vingar do desprezo que por amor dele Maria Magda me votava!

Uma vez preso e processado, Jacinto foi-me entregue por ordem de meus superiores, os quais me não puderam negar a primeira solicitação que no gênero eu lhes fazia, dados os bons serviços por mim prestados à instituição.

Conservei-o desde então no segredo de masmorra infecta, onde o desgraçado passou a suportar longa série de martirizantes privações, de angústias e sofrimentos indescritíveis, por inconcebíveis à mentalidade do homem hodierno, educado sob os auspícios de democracias que, embora bastante imperfeitas ainda, não podem permitir compreensão exata da aplicação das leis férreas e absurdas do passado! Nele cevei a revolta que me estorcia o coração em me sentindo preterido pela mulher amada, em seu favor! Meu despeito inconsolável e o ciúme nefasto que me alucinara desde tantos anos inspiraram-me gêneros de torturas ferazes, as quais eu aplicava possuído de demoníaco prazer, recordando as faces rosadas de Maria Magda, que eu não beijara jamais; as tranças ondulantes cujo perfume não fora eu que aspirara; os braços cariciosos e lindos que a outro que não eu — que a ele! haviam ternamente prendido de encontro ao coração! Cobrei, infame e satanicamente, a Jacinto de Ornelas y Ruiz, na sala de torturas do tribunal da Inquisição, em Madrid, todos os beijos e carícias que me roubara daquela a quem eu amara até à loucura e ao desespero!

Fiz que lhe arrancassem as unhas e os dentes; que lhe fraturassem os dedos e deslocassem os pulsos; que lhe queimassem a sola dos pés até chagá-las, mas lentamente, pacientemente, com lâminas aquecidas sobre brasas; que lhe açoitassem as carnes, retalhando-as, e tudo a pretexto de salvá-lo do inferno por haver anatematizado, obrigando-o a confissões de supostas conspirações contra a Igreja, sob cujo nome me acobertei para a prática de vilezas.

Presa de enlouquecedoras inquietações, Magda procurou-me…

Suplicou-me, por entre lágrimas, trégua e compaixão! Lembrou-me sua qualidade de parente próximo, como a qualidade de Jacinto, também parente; os dias longínquos da infância encantadora, desfrutados no doce convívio campestre, entre as alegrias do lar doméstico, protegido ambos pela intimidade de quase irmãos…

Cínico e cruel, respondi-lhe, interrogando se fora pensando em todos aqueles detalhes inefáveis de nossa juventude que, consigo mesma, ou certamente com Jacinto, concertara a traição abominável que me infligira…

Falou-me dos filhos, que ficariam à mercê de duríssimas consequências, com o pai acusado pelo Santo Ofício; e, ainda mais, se viesse ele a morrer, em vista do encarceramento prolongado; concluindo por suplicar, banhada em pranto, a vida e a liberdade do marido, como também a minha proteção a fim de se refugiarem na Inglaterra…

Falei então, após lançar-lhe em rosto o odioso fel que extravasava de minhalma, vendo-a à mercê de minhas resoluções:

“— Terás de retorno teu marido, Maria Magda… Mas sob uma condição, da qual não abrirei mão jamais: Entrega-te!

Sê minha! Consente em aliar tua existência à minha, ainda que ocultamente… e to restituirei sem mais incomodá-lo!…”

Relutou a desgraçada ainda durante alguns dias.

Todos os arrazoados que uma dama virtuosa, fiel à consciência e aos deveres que lhe são próprios, poderia conceber a fim de eximir-se à prevaricação, minha antiga noiva apresentou à minha sanha de conquistador desalmado e inescrupuloso, por entre lágrimas e súplicas, no intuito de demover-me da resolução indigna. Mas eu me fizera irredutível e bárbaro, tal como ela própria, quando outrora lhe suplicara, desesperado ao me reconhecer abandonado, que se amerceasse de mim, não atraiçoando meu amor a benefício de Jacinto! Aquela mulher que eu tanto amara, que teria feito de mim o esposo escravo e humilde, tornara-me feroz com o perjúrio em favor de outro!

Levantavam-se, então, das profundezas do meu ser psíquico, as remotas tendências maléficas que, em Jerusalém, no ano de 33, me fizeram condenar Jesus de Nazaré em favor da liberdade do bandoleiro Barrabás! Aliás, existia muito de capricho e vaidade nas atitudes que me levavam a desejar a ruína de Magda; e, enquanto o casal execrado sofria o drama pungente que o homem moderno não compreende senão através do colorido da lenda, eu me rejubilava com a satisfação de vencê-la, despedaçando-lhe a felicidade, que incomodava meu orgulho ferido!

Quando, alguns dias depois do nosso entendimento, a desventurada noiva da minha juventude, descendo à sala de torturas, contemplou o espectro a que se reduzira seu belo oficial de mosqueteiros, não mais trepidou em aceder aos meus ignóbeis caprichos! Eu a conduzira até ali propositadamente, a título de visita-lo, observando que sua relutância ameaçava prolongar-se!

Para suavizar os sofrimentos do marido, furtando-o às torturas diárias, que o extenuavam; a fim de conservar aquela vida para ela preciosa sobre todos os demais bens, e a qual minha sanha_ assassina ameaçava exterminar, a infeliz esposa curvou-se ao algoz, imolou-se para que de seu sacrifício resultasse a libertação, a vida do pai dos seus filhos muito queridos!

Não obstante, meu despeito exasperou-se com o triunfo, pois, mais do que nunca, reconheci-me execrado! Eu pretendera convencer Magda a associar-se para sempre ao meu destino, embora lhe concedendo o retorno do esposo. Ela, porém, que se sacrificara às minhas exigências intentando salvar-lhe a vida, não pudera ocultar o desprezo, o ódio que minha desgraçada pessoa lhe inspirava, o que, finalmente, me provocou o cansaço e a revolta. Detive-me então, exausto de lutar por um bem inatingível, e renunciei aos insensatos anelos que me dementavam. Mas, ainda assim, sinistra vindita engendrou-se em meu cérebro inspirado nos poderes do Mal, a qual, realizada com o requinte da mais detestável atrocidade que pode afluir das profundezas de um coração tarjado de inveja, de despeito, de ciúme, de todos os vis testemunhos da inferioridade em que se refocila, deu causa às desgraças que há três séculos me perseguem o Espírito como sombra sinistra de mim mesmo projetada sobre o meu destino, desgraças que os séculos futuros ainda contemplarão em seus dolorosos epílogos!

Maria Magda pedira-me a vida e a liberdade do marido e comprometi-me a conceder-lhas.

Esqueceu-se, porém, de fazer-me prometer restituí-lo

intacto, sem mutilações! Então, fiz que lhe vazassem os olhos, perfurando-os com pontas de ferro incandescido, assim barbaramente desgraçando-o, para sempre lançando-o nas trevas de martírio inominável, sem me aperceber de que existia um Deus Todo Poderoso a contemplar, do alto da Sua Justiça, o meu ato abominável, que eu arquivara nos refolhos de minha consciência como refletido num espelho, a fim de acusar-me e de mim exigir inapeláveis resgates através dos séculos!

Oh! Ainda hoje, três séculos depois destes tristes fatos consumados, recordando tão tenebroso pretérito, fere-me cruciantemente a alma a visão da desgraçada esposa que, indo, a convite meu, receber o pobre companheiro no pátio da prisão, ao constatar a extensão da minha perversidade nada mais fez senão contemplar-me surpreendida para, depois, debulhar-se em pranto, prostrada de joelhos diante do esposo cego, abraçando-lhe as pernas vacilantes, beijando-lhe as mãos com indescritível ternura, recebendo-o maltratado e inválido com inexcedível amor, enquanto entre risos chistosos eu chasqueava:

“— Concedi-lhe a vida e a liberdade do homem amado, senhora, tal como constou do nosso ajuste… Não podereis negar a minha generosidade, para com a noiva perjura de outro tempo, pois que, podendo agora mata-lo, deponho-o nos seus braços…”

Mas estava escrito, ou eu assim o quisera, que Maria Magda continuaria galgando um calvário áspero e tempestuoso, irremediável para aquela desventurada existência: Jacinto de Ornelas y Ruiz, inconformado com a situação inesperada quanto deplorável, não desejando tornar-se um estorvo nefasto à vida de sua dedicada companheira, que passara à chefia do lar, desdobrando-se em atividades heróicas, abandonada pelos amigos, que temiam as suspeitas do mesmo tribunal que julgara seu marido; esquecida até mesmo por mim, que me desinteressara da sua posse, exausto das inúteis tentativas para me tornar amado; Jacinto, que a ela própria, como aos filhos, desejara salvar da perseguição religiosa, que fatalmente se estenderia contra todos os da família, suicidou-se dois meses depois de obter a liberdade, auxiliado no gesto sinistro pelo próprio filho mais jovem, que, na inocência dos seus cinco anos de idade, entregara ao pai o punhal por este solicitado discretamente, e o qual acionou encostando-o à garganta enquanto a outra extremidade era apoiada sobre os rebordos de uma mesa, pondo, assim, termo à existência!

Maria Magda voltou para a aldeia natal com os filhos, desolada e infeliz. Nunca mais, até o momento em que esboço estas páginas, pude vê-la ou dela obter notícias!

E já se passaram três séculos, ó meu Deus!…

O arrependimento não tardou a iniciar vigorosa reação em meu amesquinhado ser. Nunca mais, desde então, logrei tranquilidade sequer para conciliar o sono. Indescritível estado de superexcitação nervosa trazia-me invariavelmente atordoado e surpreendido, fazendo-me reconhecer a imagem de Jacinto de Ornelas, martirizado e cego, por toda parte onde me encontrasse, tal se se houvera estampado em minhas retentivas indelevelmente.

Posso mesmo asseverar que meu desejo de emenda teve início no momento justo em que, entregando Jacinto à sua mulher, a esta vi prostrar-se diante dele, cobrindo-lhe as mãos de ósculos e de lágrimas como a testemunhar, no ápice do infortúnio, não sei que sentimento sublime de amor e compaixão, que eu não estava à altura de compreender! Desse momento em diante procurei evitar cumprir as tenebrosas ordens de meus superiores, o que, lentamente me induzindo à inobservância dos deveres à minha guarda confiados, me fez cair das boas graças em que até então vivia e, mais tarde, me levou ao cárcere perpétuo! Da segunda metade, pois, do XVII século até agora, entrei a expiar, quer na Terra como homem ou no Invisível como Espírito, os crimes e perversidades cometidos sob a tutela do Santo Ofício!

Arrependimento sincero e que eu vos garanto, meus amigos, existir inspirando todos os meus atos, há-me encorajado a enfrentar situações de todos os matizes do infortúnio, contanto que de minha consciência se apagar venha a nódoa vexatória de me ter prevalecido do nome augusto do Divino Crucificado para a prática de ações criminosas. Narrar o que têm sido tais lutas até hoje, as lágrimas que me têm escaldado a alma repesa e desolada, as insólitas investidas dos remorsos torturantes, impostas pela consciência exacerbada, a série, enfim, dos acontecimentos dramáticos que desde então me perseguem, seria tarefa cansativa, horripilante mesmo, à qual me não exporei.

Necessários se fariam, aliás, alguns volumes especiais, para cada etapa…

Até que, na segunda metade do século XIX, eu me preparei, só então! para a última fase das expiações inalienáveis: — a cegueira!

Cumpria-me perder, de qualquer modo, a vista, impossibilitar-me, por essa forma, de garantir a subsistência própria, privar-me do trabalho honroso a fim de aceitar o auxílio, tanto mais vexatório e humilhante para o desmedido orgulho que ainda não pude exterminar do meu caráter revel, quanto mais compassivo e terno fosse; desbaratar ideais, desejos, ambições, contemplando, ao mesmo tempo, ruírem fragorosamente meus valores morais e intelectuais, minha posição social, para aceitar a escuridão inalterável com meus olhos apagados para sempre! Mas também me cumpria fazê-lo resignada e dignamente, testemunhando pesares pelas selvagens ações contra o rival de outrora, como atestando respeito e provando intimas homenagens àquele mesmo Jesus cuja memória fora por mim ultrajada tantas vezes!

Todos vós sabeis da fraqueza que me assaltou ao reconhecer-me cego! Não tive, absolutamente, forças para o terrível testemunho, na hora culminante da minha reabilitação! Oh! A Justiça imanente do Criador, que nos deixa entregues às nossas próprias responsabilidades, a fim de que nos punamos ou nos glorifiquemos através do enredamento e sequência, fatídicos ou brilhantes, das ações que cometemos pelo desenrolar das sucessivas existências! O mesmo horror que Jacinto de Ornelas sentiu pela cegueira senti também eu, três séculos depois, ao perceber que perdera a luz dos olhos! As atormentações morais, as angústias, as humilhações insofríveis, o desespero inconsolável, ao se ver à mercê das trevas, e que levaram aquele desgraçado ao funesto erro do suicídio, também em meu ser se acumularam com tão dominadora efervescência que lhe imitei o gesto, tornando-me, em 1890, suicida como ele o fora em meado do século XVII…

Isso tudo foi acontecido assim. Certo, errado ou discutível, assim foi que aconteceu… e tal como foi é que me cumpriria relatar.

Da tessitura deste enredo pavoroso compreender-se-á que a Suprema Lei do Criador me imporia como expiação cometer um suicídio para sofrer-lhe as consequências?

Absolutamente não!

A Suprema Lei, cujos dispositivos se firmaram na supremacia do Amor, da Fraternidade, do Bem, da Justiça, como do Dever e de toda a esteira luminosa de suas gloriosas consequências, e que, ao mesmo tempo, previne contra todas as possibilidades de desarmonização e heterogeneidade com suas sublimes vibrações, não estabeleceria como lei, jamais, a infração máxima, por ela mesma condenada! O que se passou comigo foi, antes, o efeito lógico de uma causa por mim criada à revelia da Lei Soberana e Harmoniosa que rege o Universo! Com ela desarmonizado, enredando-me em complexos cada vez mais deprimentes através das escabrosidades perpetradas nos sucessivos ligamentos das existências corporais, fatalmente chegaria ao desastre máximo, tal o bloco de rocha que, se precipitado do alto da montanha, rola rápido e inapelavelmente até ao fundo do abismo…

E a fatalidade é essa criação nossa, gerada dos nossos erros e inconsequências através das idades e do tempo!

Que tu me acredites ou não, leitor, não destruirás as linhas da verdade palidamente exposta nestas páginas: a triste história da Humanidade com seus carregamentos de desgraças, que tão bem conheces, aí está, diariamente afirmando exemplos idênticos ao que acabo de apresentar…

REMUNERAÇÃO ESPIRITUAL Emmanuel

“O lavrador que trabalha deve ser o primeiro a gozar dos frutos.” Paulo – Timóteo, 2:6

Além do salário amoedado o trabalho se faz invariavelmente, seguido de remuneração espiritual respectiva, da qual salientamos alguns dos itens mais significativos: acende a luz da experiência; ensina-nos a conhecer as dificuldades e problemas do próximo, induzindo-nos, por isso mesmo, a respeitá-lo; promove a auto-educação; desenvolve a criatividade e a noção de valor do tempo; imuniza contra os perigos da aventura e do tédio; estabelece apreço em nosso área de ação; dilata o entendimento; amplia-nos o campo das relações afetivas; atrai simpatia e colaboração; extingue, a pouco e pouco, as tendências inferiores que ainda estejamos trazendo de existências passadas. Quando o trabalho, no entretanto, se transforma em prazer de servir, surge o ponto mais importante da remuneração espiritual: toda vez que a Justiça Divina nos procura no endereço exato para execução das sentenças que lavramos contra nós próprios, segundo as leis de causa e efeito, se nos encontra em serviço ao próximo, manda a Divina Misericórdia que a execução seja suspensa, por tempo indeterminado. E, quando ocorre, em momento oportuno, o nosso contato indispensável com os mecanismos da Justiça Terrena, eis que a influência de todos aqueles a quem, porventura, tenhamos prestado algum beneficio aparece em nosso auxílio, já que semelhantes companheiros se convertem espontaneamente em advogados naturais de nossa causa, amenizando as penalidades em que estejamos incursos ou suprindo-as, de todo, se já tivermos resgatado em amor aquilo que devíamos em provação ou sofrimento, para a retificação e tranquilidade em nós mesmos. Reflitamos nisso e concluamos que trabalhar e servir, em qualquer parte, ser-nos-ão sempre apoio constante e promoção à Vida Melhor.

Francisco Cândido Xavier – Livro: “Perante Jesus” – Edição IDEAL

Diálogo Mediúnico

É com muita alegria que nos comunicamos hoje, queridos amigos e amigas que nos ouvem, porque sempre aos espíritas e a todos aqueles que buscam com sinceridade o saber espiritual que se amplie a compreensão sobre a reencarnação. Esse é um conceito central, mas que, como a grande maioria dos conceitos no mundo, sofre por distorções e superficialidade. Reencarnação, um conceito sagrado para todas as elevadas escolas iniciáticas nunca foi exposto em profundidade ao grande público.

Mas ora, por ordem da vinda do Consolador no mundo, devemos explicar a todos vocês e, acima de tudo, ensinar como essa compreensão deve marcar a vossa conduta diária para que não temendo o passado, mas aceitando; para que não fugindo, mas transformando, cada um de vocês possa se libertar das algemas terríveis do erro que aprisionam todos aqueles que não têm coragem de voltar-se a si mesmo e reestruturar-se com o amparo do Cristo.

Podemos iniciar.

Muito obrigada pela sua presença hoje, amiga Patrícia. Como primeira pergunta, como se dará a reparação dos erros do passado no mundo de regeneração que será a Terra quando nela não mais houver as inferioridades atuais?

 

É uma questão relevante. Porque muitos, distorcendo a compreensão espírita da reencarnação, sustentam, com aparente gravidade e sabedoria, que é necessário reviver necessariamente todas as experiências, do ponto de vista material, que causamos aos outros. Isso é falso. Isso é não entender a grandeza de Deus, a amplitude do psiquismo humano e o amor que permeia toda a Criação.

Erros são, acima de tudo, distorções psíquicas, aí está instalado, entre aspas, o mal. Aí está instalada a desarmonia que carece de correção profunda. As experiências externas valiosas e, às vezes, insubstituíveis, são apenas recursos didáticos. Por exemplo, em um mundo de regeneração, em fase intermediária ou avançada, não haverá mais pobreza, não haverá mais fome, não haverá mais abandono social. Mas haverá indivíduos que ainda precisam resgatar o abandono que fizeram vítima outros corações.

Como poderão fazê-lo? Poderão, por exemplo, nascer em ambientes sócio-psíquicos e culturais completamente estranho para eles e ali devotar-se em um intercâmbio de fraternidade. E ali, em condições externas confortáveis, experimentará psiquicamente solidão e abandono, mesmo que os outros o tratem com fraternidade. Mas será também o mensageiro da integração entre as culturas. Se vive isso com conhecimento irá resgatar sem a necessidade do abandono social.

Porque carma negativo, minha filha, é, acima de tudo, impulsos doentios. Esse é o grande carma que está em vosso poder transformar. De que importam as situações externas se vocês não as utilizam para educarem os impulsos inferiores?

Comparemos o caso de Camilo Castelo Branco aqui trazido com o caso de Judas Iscariotes. Ambos partiram da encarnação no século I como inimigos traidores do Cristo. Judas elevou-se, o outro ainda luta no seu soerguimento moral. São opções. O grande carma negativo de todos são impulsos que vos distanciam da luz.

O carma positivo, Dharma, ou como queiram chamar, são todos os impulsos que vos vinculam a Deus. Quando vencereis essa batalha? Apenas quando, em grande predominância, os vossos impulsos vos levarem ao amor.

Daí, a sábia e profunda expressão do Cristo: o amor cobre uma multidão, uma imensidão de desvios, de pecados e de erros. O que diz o Mestre, o nosso grande Mestre de sempre? O amor reestrutura psiquicamente o ser. O amor reharmoniza as cordas desafinadas da emoção. E, naturalmente, o indivíduo harmonizado age integrado às leis divinas e não apenas repara os erros, mas se torna um agente ativo da eternidade, [agente] de expansão do amor e da harmonia do universo em múltiplos mundos.

Seria diminuir o Criador defender a ideia de uma simples contabilidade egóica de erros e acertos externos. Deixamos isso para aqueles que não querem iniciar-se no verdadeiro Espiritismo.

Compreendamos: é necessário volver ao passado para nos educar hoje. É necessário reviver dores para que elas nos transformem, é necessário reconhecer erros para que não venhamos a repeti-los.

Por isso, com o avançar do Espiritismo psicológico, teremos pessoas aptas a olhar para dentro de si, transformando-se. E quando isso for feito, teremos um outro movimento espírita.

Não mais predominando, como ocorre hoje, os inquisidores do passado, que dominam os centros e núcleos espíritas, como fizeram nas épocas inquisitoriais, alimentando assim, a postura religiosa anticristã, como foi aqui estudado hoje.

Não fiquemos na superfície, mas todo aquele que em nome do Cristo empunha uma espada, calunia e age de forma a massacrar o seu próximo, psicológica e socialmente, é um inquisidor que volta sob vestes novas, mas que permanece o mesmo por dentro.

Em uma polêmica espírita, aquele que usa a espada do fel, a calúnia e a maldade, é o mesmo inquisidor destruindo a obra do Mestre, desincentivando os frágeis discípulos.

Mas, todo aquele que, independente de seu passado espiritual, ora ao Alto e busca a resignação produtiva, independente do que tenha feito no passado, sagra-se verdadeiro cristão pelo sacrifício em nome de Jesus e as cordas dissonantes e desarmonizadas de seu coração harmonizam-se sob o som divino da renúncia e do silêncio e esse caminha em direção à Luz.

Por isso, a grande estratégia de regeneração dá-se no coração. Seja pela ação social com os extremos dos desfavorecidos, seja em provações voluntárias em prol da fraternidade, todos podem resgatar os débitos do passado que nada mais são que as desarmonias íntimas que carregam.

Por isso, minha filha, não nos interessa tanto, salvo em estudos específicos, a cada espírito na Terra saber de todo o seu histórico, os detalhes e as datas.

Em geral, simplesmente observamos o grau de harmonia e de desarmonia que carregam em si e já sabemos exatamente o que aconteceu. As informações só são necessárias quando vamos atuar de forma muito específica, porque, de fato, cada um carrega em suas vibrações todo o seu carma. E não é preciso mais do que isso para saber com que tipo de espírito estamos lidando.

Muito obrigada pela sua resposta e agora deixo o espaço para a mensagem de encerramento.

Para aqueles que ainda temem o passado, permitam-me dizer: a vossa vibração é o vosso passado. Ele está presente.

Não digo da vibração que varia de momento a momento. Mas o vosso padrão vibratório geral, ele vibra conforme todas as existências que vocês tiveram. Imagine uma sinfonia. Imagine o número instrumentos que se harmonizam para uma grande beleza, e estais diante de indivíduos que redimiram cada existência sua.

Imagine barulhos estridentes, e esses serão indivíduos que cada voz desarmônica grita ao seu modo, gerando um som profundamente desagradável.

Observem a narração do início do livro Memórias de um Suicida. O que é aquilo? O que esse espírito vive? O que ele descreve? O vale dos suicidas nada mais é, meus filhos e filhas, a representação espiritual externa das vozes desarmonizadas de cada existência que esse espírito teve na Terra.

Dito de outra forma, cada um de vocês é como um coral em que um conjunto harmônico de vozes belíssimas expande e ecoa pelo infinito harmonioso. Ou, no outro extremo, uma gritaria profunda e doentia de vozes diferentes, mas extremamente grosseiras e desafinadas, a gritarem calúnias e impropérios. O que é você? Que tipo de coral você é nesse instante? E que tipo de coral você será no futuro?

Por isso, conta, simbolicamente, João Evangelista que, no Reino dos Céus, os anjos em coro homenageiam a Deus, é o mesmo símbolo.

Fiquem em paz,

Patrícia.

 

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